Get your ow
n diary at DiaryLand.com! contact me older entries newest entry

10:22 a.m. - 2006-11-06
Travessuras de menina má, de Mario Vargas Llosa; Como vivíamos sem, de Bárbara Soalheiro; Livros sobre a escravatura no Brasil; Cidade dos anjos caindo, de John Berendt; O quarto vermelho, de Nicci French; Livros sobre o nazismo

1) Como vivíamos sem, de Bárbara Soalheiro

 

Existem alguns assuntos de conversa que são melhores que outros. Diferenças lingüísticas, por exemplo. Experimente, numa roda de amigos, dizer que o chinês é uma língua tonal, o que significa que uma palavra muda totalmente o sentido se você a pronunciar como um pergunta, como uma afirmação ou como uma ordem, que você vai ver a reação fascinada da maioria das pessoas. Outras dicas: diga, por exemplo, que o japonês tem três alfabetos, um deles copiado do chinês, o que faz com que uma pessoa japonesa consiga entender por alto um texto escrito em chinês, por mais as duas línguas sejam totalmente diferentes. Que o vietnamita é uma língua tonal como o chinês, mas que o governo comunista de lá resolveu mudar do alfabeto antigo para o alfabeto latino (o nosso). Resultado: para dar conta dos diversos tons utilizando as nossas letras, o vietnamita é escrito com mais de dez acentos, que se situam acima, no meio e abaixo das letras!

 

Isto até pode ser "cultura inútil", que não vai fazer aumentar nossos salários, mas que diverte e fascina. Outro assunto de conversa interessantíssimo é a chamada "história da vida privada", a história, não das grandes personalidades e líderes, mas do dia-a-dia da intimidade das pessoas. Entre os assuntos que este tipo de "história íntima" analisa está o "como vivíamos sem" um ou outro novo produto ou aparelho. A tecnologia tem mudado radicalmente a vida dos seres humanos: muitas pessoas de mais de quarenta anos mal conseguem acreditar como viviam sem celulares na juventude (por mais que ninguém sentisse falta do aparelhinho na época!). Um dos grandes fascínios da recente série Roma¸ da HBO, por exemplo, é o cuidado dos produtores em mostrar a vida na República Romana (pouco antes do início do Império) exatamente como ela era: as pessoas comiam com as mãos, usavam tochas para iluminação (não havia luz elétrica) e até uma trepanação - cirurgia que consistia em fazer buracos no crânio usando uma pedra para libertar os espíritos ruins que tinham se alojado no corpo do doente - é mostrada no seriado.

 

Comer com as mãos, tochas para iluminação e trepanação são alguns dos exemplos citados no delicioso "Como fazíamos sem", da jornalista mineira Bárbara Soalheiro (Panda Books, 144 páginas). O livro é bem-humorado - na medida certa, ou seja, nada "engraçadinho" - e muito bem ilustrado. Em seus capítulos curtos, mostra o que as pessoas faziam quando não havia anestesia, geladeira, armário, dinheiro...

 

Alguns exemplos apresentados no livro são particularmente interessantes. Antes da invenção do vaso sanitário, "o matinho era a privada de nossos antepassados. Lá pelo século XVIII, quando as cidades começaram a crescer e já não havia tanto mato por perto, a solução foi usar baldes. E é por isso que os maiores beneficiados com a invenção de privadas não foram os que estavam com vontade de usar o toalete (afinal, cá para nós, quando a vontade é grande mesmo o lugar pouco importa), mas os transeuntes das grandes capitais. Depois que acabavam de fazer suas necessidades, as pessoas despejavam o conteúdo dos baldes nas ruas. Em Paris, para alertar quem passava, gritavam 'Água vá!' antes de jogar fezes e urina pela janela. No Rio de Janeiro ou em Salvador, nem isso eles faziam."

 

Sem avião, sem automóveis e sem boas estradas, a viagem de "Ouro Preto ao Rio de Janeiro - as duas principais cidades brasileiras no século XVII - levava pelo menos 12 dias. Hoje, é assunto resolvido com apenas 50 minutos dentro de um avião. E se você é daqueles que reclamam depois de algumas horas dentro do carro e acha que o maior problema naquele tempo era ter paciência para agüentar quase duas semanas de viagem, é porque não tem idéia do quanto elas eram desconfortáveis. Quem fazia a viagem com mais freqüência eram os tropeiros, encarregados do comércio de animais - em geral, bois. Eles iam a cavalo, parando em fazendas para pernoitar. Um dos problemas que enfrentavam - além dos percalços da estrada como lama, mosquitos e bandidos - era levar alimentos que não perecessem em uma viagem tão longa. Foi dessas dificuldades que nasceram alguns pratos que comemos até hoje. Um dia, por exemplo, alguém que gostava muito de feijão teve a idéia de misturá-lo com farinha. Assim ficava mais fácil transportar - e o feijão se mantinha conservado por mais tempo. Resultado: nasceu o feijão tropeiro, um clássico da comida nacional."

 

"Como fazíamos sem" ainda tem muitas outras curiosidades sobre como era a vida de nossos antepassados, como o motivo pelo qual os ingleses são pontuais e os brasileiros não. Mas, para saber mais, o negócio é comprar os livro. Se você for fã de cultura inútil ou de um bom papo, não vai se arrepender.

 

2) Livros sobre a escravatura no Brasil

 

Segundo a sua coordenadora de publicação, Mary del Priore, a coleção Baú de histórias, da José Olympio Editora, apresenta raridades bibliográficas, inéditas até hoje e marcadas pela indiferença e o esquecimento, que têm interesse literário, histórico e etnográfico, "raros testemunhos de um universo e um tempo que perdemos".

 

Dois exemplares desta coleção tratam da escravidão durante o período do Império Brasileiro: Cinqüenta dias a bordo de um navio negreiro, do pastor anglicano Pascoe Grenfell Hill (123 páginas) e Entrevistas com escravos africanos na Bahia oitocentista, do estudioso francês Francis de Castelnau.

 

O mais interessante entre eles é Cinqüenta dias... Em 1842 os brasileiros e portugueses ainda não tinham abolido o tráfico de escravos da África para o Brasil, e os navios negreiros eram considerados fora-da-lei pela legislação internacional. O livro do pastor Grenfell Hill conta uma história real: uma apreensão de um navio transportando escravos por uma barcaça inglesa. O que poderia ser uma história de final feliz com a libertação dos cativos, infelizmente, resultou em uma tragédia.

 

Os ingleses não podiam, simplesmente, mandar os escravos para um local próximo na costa africana porque eles seriam escravizados de novo (eram próprios negros africanos que vendiam seus semelhantes). A solução era liberá-los em um lugar distante, mas os ingleses não tinham o menor conhecimento de como transportar uma grande quantidade de pessoas no espaço exíguo de um navio e com poucos víveres. Resultado da expedição descrita por Grenfell Hill: uma quantidade muito maior de mortos entre os negros do que quando os portugueses ou brasileiros - que tinham grande experiência no transporte de escravos -comandavam os navios negreiros.

 

O grande interesse de Francis de Castelnau em Entrevistas... é saber mais sobre a possível existência de uma tribo africana cujos membros tinham rabos (!). Vários escravos entrevistados contam rapidamente suas histórias, das guerras que participaram, e de como foram apreendidos para serem vendidos - além, é claro, de contar o que sabiam sobre a tal estranha tribo. Se a leitura do livro de Castelnau é um pouco cansativa às vezes - principalmente quando descreve a geografia dos lugares pelos quais os escravos passaram - por outro o livro, como documento histórico de uma época, é de um fascínio inegável.

 

Também sobre a escravidão é o estudo Feitio de viver - memórias de descendentes de escravos, da carioca e professora da Universidade de Londrina Gizêlda Melo do Nascimento (Eduel, 167 páginas), que apresenta 41 entrevistas com depoimentos de descendentes de escravos e sua análise, em linguagem acadêmica.

 

 

 

3) Cidade dos anjos caindo, de John Berendt

 

Veneza é uma cidade em que a maioria dos habitantes se conhece, já que não existem carros e todos andam a pé na maior parte do tempo: isto, somado à sua enorme quantidade de pontes (muitas delas com escadas), faz com que idosos ou pessoas com problemas de locomoção tenham dificuldade em viver por lá. A ausência de automóveis também faz com que a cidade italiana seja bem mais silenciosa do que outras de seu porte. Veneza tem uma grande quantidade de ruelas que acabam fazendo que até seus moradores às vezes se percam no meio do verdadeiro labirinto formado por elas. Com seus canais, pontes, história e charme, a cidade atraiu para si muitos escritores do primeiro time, como Ezra Pound, Henry James e Robert Browning, que lá moraram durante longos períodos de suas vidas.

 

Os venezianos pensam em si próprios como venezianos primeiro e, depois como italianos. Segundo um de seus nobres mais importantes, o conde Girolamo Marcello, "em Veneza estão todos encenando, todos representam papéis, e os papéis mudam. O segredo para se entender os venezianos é o ritmo – o ritmo da lagoa, das marés, das ondas... O ritmo de Veneza é como a respiração. Maré alta, pressão alta: tenso. Maré baixa, pressão baixa: descontraído. Os venezianos não estão sintonizados ao ritmo da roda. Isso é para outros locais, locais com veículos motorizados. Nosso ritmo é o do Adriático. O ritmo do mar". Ainda segundo o conde, para os habitantes da cidade as pontes não são vistas como obstáculos, e sim como transições: "passamos por elas bem devagar. Fazem parte do ritmo. São junções entre dois atos no teatro, como mudanças de cenário, ou como a evolução do primeiro para o segundo ato em uma peça teatral". Para Marcello, "os venezianos jamais falam a verdade. O verdadeiro sentido das nossas palavras é, precisamente, o oposto do que dizem".

 

Estas e muitas outras informações sobre a lendária cidade italiana são apresentadas em Cidade dos anjos caindo (Objetiva, 380 páginas), de John Berendt, escritor americano na linha do new journalism, a mesma de, por exemplo, Truman Capote e Gay Talese. Como o próprio autor explica, “é um livro de não-ficção, mas escrito do ponto de vista de um romancista, usando técnicas literárias que um romancista utilizaria. Você não diz, como um jornalista diria, simplesmente: ‘O homem disse isso e isso’. Você descreve o tipo de olhar, a reação das pessoas no quarto. Então, lê-se o livro como se fosse um romance, mas é tudo verdade” - realmente, se não fosse a advertência inicial de que o livro é de não-ficção, ficaria muito difícil para o leitor desavisado saber que o livro é uma espécie de reportagem. A obra anterior de Berendt, Meia noite no jardim do bem e do mal, foi um best seller de enorme sucesso que tratava de uma cidade no sul dos Estados, Savannah, de maneira similar àquela que foi utilizada para descrever Veneza em Cidade dos anjos caindo, com uma diferença fundamental: neste, ao contrário do que foi feito na obra anterior, todos os nomes utilizados são reais. Nas palavras de Berendt, "quando escrevi Meia-noite no jardim do bem e do mal, pensei que estaria fazendo um favor a algumas pessoas ao mudar os nomes delas para preservar sua privacidade. Mas quando o livro foi lançado, muitos dos personagens que haviam recebido pseudônimos me disseram que desejavam que eu tivesse usado seus verdadeiros nomes. Então, desta vez, decidi: nada de pseudônimos".

 

Em Veneza o afluxo turístico é tão intenso que em certas épocas do ano os turistas estão na cidade em muito maior número que os habitantes locais - mas o interesse principal de Berendt está nas pessoas que moram lá. Para escrever Cidade dos anjos caindo (cujo título é baseado em uma obra de restauração em uma igreja veneziana em que anjos do teto começaram a cair, o que fez com que os restauradores colocassem uma placa no local com os dizeres: "Cuidado, anjos caindo!"), o autor viveu em Veneza durante períodos de dois a três meses ao longo de nove anos, entrevistando habitantes e pesquisando locais e fatos.

 

São muitos os personagens e fatos reais que aparecem na obra. Um rico poeta e radialista homossexual deixa todos os seus bens para uma família de feirantes, cujos membros muito provavelmente não eram muito íntimos dele. Dois dirigentes de uma fundação americana de ajuda à cidade vêem-se numa acirrada disputa de egos. Um casal faz amizade com a amante do falecido poeta Ezra Pound, possivelmente para roubar-lhe documentos de grande valor. O mais importante vidreiro da cidade, um homem sério e calado, vê um de seus filhos traí-lo nos negócios. Em um jantar de luxo, todos ficam fascinados com a conversa sobre venenos para ratos de um grande fabricante do produto, que nunca conseguiu vendê-lo para a prefeitura local. Um grande palácio tem uma sala principal tão ricamente decorada  que acaba dificultando a sua manutenção, o que faz os seus donos (um dos quais é um homem totalmente maníaco por viagens espaciais) quererem vendê-lo.

 

Mas a principal história do livro trata do incêndio de um dos principais símbolos da cidade, o Teatro Fenice: o autor descreve o que ocorreu dia da tragédia, as investigações para apurar os responsáveis e a reconstrução do local com grande precisão de detalhes – sem esconder as inúmeras suspeitas de corrupção que foram aparecendo no processo.

 

Muito bem escrito, Cidade dos anjos caindo é um livro de leitura agradável e fluida, que mostra uma Veneza meio decadente, com muitos habitantes cheios de manias – mas inegavelmente charmosa.

 

 

4) Travessuras da menina má, de Mario Vargas Llosa

 

Em um bairro rico da cidade peruana de Miraflores duas chilenas surgem movimentando a vida social dos jovens. Lily tinha cerca de 15 anos, enquanto sua irmã Lucy tinha uns dois anos a menos. Segundo Ricardo Samacurcio, o personagem que narra em primeira pessoa o extraordinário Travessuras de menina má, do escritor peruano Mario Vargas Llosa (Alfaguara, 303 páginas), "o adjetivo marcante parecia ter sido inventado para elas, mas, sem deixar de sê-lo, Lucy era menos marcante que a irmã, não só porque seu cabelo era menos louro e mais curto e se vestia com menos atrevimento que Lily, mas também porque era mais calada e, na hora de dançar, apesar de também fazer firulas e requebrar a cintura com uma audácia que nenhuma miraflorense se atreveria a assumir, parecia uma garota recatada, inibida e quase insípida em comparação com aquele pião, aquela labareda ao vento, aquele fogo-fátuo que era Lily quando, colocados os discos na vitrola, o mambo explodia e começávamos todos a dançar."

 

Quando Lily dançava o mambo, os jovens da conservadora Miraflores ficavam fascinados, concentrados na "apresentação" dela, enquanto que os mais velhos reprovavam. No dizer indignado de uma tia de Ricardo Samacurcio, Alberta, Lily dançava "como uma Tongolele", parecia "uma rumbeira de filme mexicano". E acrescentava, maldosa: "bem, não vamos esquecer que é chilena, e o forte das mulheres desse país não é a virtude".

 

Como muitos outros rapazes do bairro, Ricardo Samacurcio se apaixonou por uma das chilenas. A escolhida foi Lily, para quem ele dizia: "em você, gosto de tudo, mas o melhor é o seu jeitinho de falar". Pediu-a em namoro três vezes - e foi recusado nas três. Estranhamente, para duas jovens aparentemente tão avançadas, elas nunca aceitavam os pedidos de namoro de ninguém - e nem deixavam ninguém ir até a sua casa, o que começou a criar uma aura de mistério em torno delas.

 

Um dia parte deste mistério foi solucionado quando Lily e Lucy foram desmascaradas em um jantar. Não eram chilenas coisíssima nenhuma, e sim peruanas que imitavam o sotaque daquele país. A partir dali a sociedade do bairro miraflorense onde Ricardo morava não ouviu mais falar nas duas impostoras.

 

Anos depois, Samacurcio está morando em Paris e se torna amigo de um guerrilheiro esquerdista seu compatriota, que está na capital francesa planejando uma revolução, no Peru, semelhante àquela vitoriosa de Fidel Castro em 1959. Um dos serviços do ativista é reunir jovens que iriam fazer um curso de guerrilha em Cuba, patrocinado pelo governo local. Por uma das coincidências deliciosas que permeiam Travessuras de menina má, uma das guerrilheiras peruanas que está em Paris é Lily, a falsa chilena por quem Ricardo Samacurcio se apaixonara. Os dois se encontram, têm um rápido affair, mas ela acaba sendo meio obrigada a ir até Cuba fazer seu curso - e Ricardo fica mais vários anos sem ver o grande amor de sua vida.

 

Quando os dois se encontram novamente, Ricardo - que trabalhava fazendo traduções simultâneas em congressos e órgãos internacionais - acaba sabendo que a antiga Lily agora era a Madame Arnoux, a rica esposa de Robert Arnoux, um diplomata francês. Eles retomam o affair, mas agora como amantes.

 

Depois disso, a história ainda tem muitas reviravoltas, mas nem é necessário descrevê-las em mais detalhes para não estragar a(s) surpresa(s). Só o que se pode adiantar é que a Menina Má (apelido que Samacurcio deu para o grande amor de sua vida) tende a querer sempre quer maridos mais ricos, e Ricardo nunca consegue esquecê-la.

 

Travessuras de menina má é um livro extraordinário. Se, por um lado, a riqueza do personagem da Menina Má e o grande amor que o narrador sente por ela são os temas mais importantes do romance, por outro os personagens que o narrador encontra pelo caminho são interessantíssimos e bem desenvolvidos. Tanto o guerrilheiro peruano já citado, como o hippie peruano que mora em Londres e o casal - ele belga, ela venezuelana - e seu filho adotivo vietnamita mudo são inesquecíveis.

 

Além disso, Mario Vargas Llosa (que é extremamente interessado em política - chegou a concorrer à presidência do Peru), comenta, com alguma riqueza de detalhes, diversos acontecimentos paralelos à conturbada vida de Ricardo Samacurcio: a inquietude na Paris de 1968; a explosão da contracultura em Londres no final dos anos sessenta; a triste decadência de seu país natal, sempre envolto por golpes de Estado e sucessivos fracassos econômicos.

 

Travessuras de menina má é um livro bem humorado, profundamente humanista, e, por que não dizer, otimista. Uma prova inequívoca de não é necessário ser amargo para se fazer grande literatura.

 

 

5) Coleção de clássicos da Hedra

 

Facilitar ao público leitor o acesso a obras clássicas da literatura universal, com edições bonitas, bem cuidadas, com introduções explicativas e de preço acessível é objetivo da Editora Hedra com sua coleção, recentemente publicada, de livros de bolso.

 

O retrato de Dorian Gray, romance do irlandês Oscar Wilde, aparece na famosa tradução de João do Rio (319 páginas). Outro ótimo romance da coleção é o delicioso A cidade e as serras, de Eça de Queirós (310 páginas). O romantismo brasileiro comparece com Iracema, de José de Alencar.

 

O teatro comparece com Don Juan, do dramaturgo clássico francês Molière  (110 páginas) e Auto da barca do inferno, do autor de peças religiosas português do século XVI Gil Vicente (103 páginas).

 

O poeta modernista francês Mallarmé aparece com um trabalho em prosa, Contos indianos (110 páginas) e o poeta medieval italiano Petrarca tem o seu Triunfos publicado em uma edição bilíngüe (217 páginas).

 

A lista das obras fala por si. Só nos resta louvar a atitude da Editora Hedra, ao publicá-las nestas ótimas e baratas edições.

 

 

6) O quarto vermelho, de Nicci French

 

No final de um dia bonito, com o serviço praticamente terminado, a médica psiquiatra Katherine Quinn (mais conhecida apenas como Kit) foi convidada pelo seu superior para ir até uma delegacia entrevistar Michael Doll, um vagabundo esquisito e suspeito de ter assassinado Lianne, uma jovem andarilha que não tinha nenhum parente conhecido. Na delegacia Doll sente-se acuado e corta o rosto da doutora, que fica com uma enorme cicatriz.

 

É assim que começa O quarto vermelho (Record, 446 páginas), thriller psicológico escrito por Nicci French, pseudônimo do casal de jornalistas britânicos Sean French e Nicci Gerard. A dupla já é autora de dez livros, entre eles Mata-me de prazer, que originou um filme homônimo estrelado por Heather Graham e Joseph Fiennes.

 

Após o início eletrizante, O quarto vermelho, que foi publicado originalmente em 2001 e é o quinto romance da dupla, continua com a Dra. Kit se recuperando no hospital e, depois, voltando ao batente no hospital. Apesar do trauma que ela possa ter ficado no confronto com o suspeito de assassinato, a polícia pede que a médica continue no caso. Ela então marca um encontro com Doll, que já havia sido liberado pela polícia, na casa dele. Além de morar próximo ao lugar em que a jovem assassinada Lianne foi encontrada, ele é suspeito porque uma policial conseguiu gravar uma fita com ele que tinha algo muito próximo de uma confissão.

 

O vagabundo é uma pessoa patética e repugnante: praticamente sem nenhuma higiene pessoal, ele usa roupas velhas e sujas e passa os dias em um canal pescando peixes que não vai comer, por causa da sujeira da água do local. O pequeno quarto em que Doll mora está sempre sujo e em desordem, cheio de objetos sem valor que ele pega nas ruas e coleciona. Para completar o triste quadro, o suspeito do assassinato da garota Lianne é carente, solitário, e chora com facilidade. Muito mais digno de pena do que de ódio, portanto.

 

Na conversa com ele, Kit acaba descobrindo que a sensual policial que obteve a confissão de Doll o fez lhe oferecendo favores sexuais. Resultado: mesmo com o vagabundo tendo feito uma enorme cicatriz na doutora, ela o defende e consegue que ele deixe de ser o principal suspeito do crime. Esta prova de ética e eficiência acaba fazendo com que o policial chefe da investigação chame a médica para participar ativamente do caso – o que ela faz com uma dedicação e uma obstinação enormes, de maneira muitas vezes pouco usual, procurando pistas aparentemente sem nenhuma relação com o caso (o que exaspera freqüentemente outros policiais envolvidos na investigação).

 

O próximo passo da Dra. Kit é relacionar o assassinato da garota Lianne com outro crime semelhante. Após descartar vários outros casos, a médica se concentra na trágica morte de Philippa Burton, assassinada enquanto cuidava da filha de três anos em um parque. Os policiais que a auxiliam não se conformam com o rumo da investigação da doutora: Lianne não tinha nada a ver com a outra morta. Phillipa era rica, tinha mais de trinta anos e era uma dona-de-casa responsável, enquanto que a jovem assassinada tinha pouquíssimos conhecidos e morava em abrigos. Além disso, as duas não foram mortas do mesmo modo, e seus ferimentos não eram semelhantes, ao contrário do que comumente acontece em casos de serial killers. O que havia de parecido nos dois casos, segundo a Dra. Kit? As duas foram encontradas de bruços. Parece pouco - e é pouco -, mas a intuição dela dizia que o assassinato de Lianne era relacionado com o de Philippa.

 

Com este rumo esquisito na investigação, obviamente a situação de Kit estava ficando insustentável perante os demais policiais, e ela quase foi obrigada a sair do caso... até ela conseguiu obter uma prova realmente forte do relacionamento dos dois crimes. O que acontece daqui por diante não vai ser contado aqui para não estragar a surpresa.

 

O quarto vermelho é um livro eletrizante, que não perde o pique em nenhuma e a história, cheia de reviravoltas, tem um enredo bem. Além disso, os locais e fatos são  descritos com maestria: Nicci French consegue fazer com que o leitor praticamente "se sinta" nos locais obscuros - e às vezes sinistros - da Londres em que se passa a trama.

 

Em outras palavras, O quarto vermelho é um policial altamente recomendado, uma ótima pedida para quem quiser uma leitura inteligente e de tirar o fôlego.

 

 

7) Livros sobre o Nazismo (Diário de um skinhead - um infiltrado no movimento neonazista Antonio Salas; O homem do castelo alto, de Philip K. Dick; Hitler - vol. 2, de Joachim Fest)

 

O regime nazista, comandado por Adolf Hitler na Alemanha, foi um dos mais brutais de todos os tempos, senão o mais brutal: não só provocou a Segunda Guerra Mundial como assassinou friamente, fora dos campos de batalha, cerca de seis milhões de judeus, quinhentos mil ciganos e cinco milhões de pessoas de outras etnias. Toda esta barbárie ainda chama muito a atenção dos historiadores e do público em geral, e novos lançamentos de história e de ficção abordam diferentes aspectos do regime nacional-socialista.

 

Falecido recentemente, o historiador alemão Joachim Fest escreveu aquela que é considerada por grande parte dos especialistas como a melhor de todas as biografias de Adolf Hitler. O segundo volume desta obra foi relançado recentemente (o primeiro tinha saído em 2005): Hitler - vol. 2  (Nova Fronteira, 528 páginas).

 

O primeiro tomo cobria a vida de Hitler desde o seu nascimento até a posse como Chanceler (cargo equivalente ao Primeiro-Ministro de um país parlamentarista) alemão, em 30 de janeiro de 1933. Hitler - vol. 2 inicia-se nesta data e termina com a morte do Führer no seu bunker em Berlim, quando da derrota da Alemanha em 1945.

 

Os dois volumes desta biografia são extremamente detalhados, precisos e bem escritos, fruto de um trabalho sério e obsessivo do historiador. Merecem totalmente o imenso prestígio que obtiveram ao longo dos anos, desde a sua publicação na Alemanha em 1973.

 

Para o leitor leigo, uma boa introdução ao modo nazista de pensar e de governar encontra-se em Itália Nazista e Alemanha Nazista (Madras, 180 páginas), escrita pelo catedrático de História Européia Moderna da Universidade Estadual da Carolina do Norte Alexander J. De Grand. A obra faz uma comparação entre os regimes fascista da Itália e nazista da Alemanha em relação a assuntos como a marcha para o poder, os sistemas econômicos, as comunidades, a cultura, os militares, a expansão e a guerra.

 

Dificilmente alguém que não tenha ficado chocado com a barbárie nazista não tenha algum dia se perguntado como estaria hoje o mundo se o Eixo - aliança entre a Alemanha, a Itália e o Japão - tivesse vencido a Segunda Guerra Mundial. Uma fantasia - tétrica, como não poderia deixar de ser - neste sentido foi criada pelo escritor de ficção científica Philip K. Dick no romance O homem do castelo alto, publicado originalmente em 1962 e apenas agora lançado no Brasil (Aleph, 304 páginas).

 

O livro mostra como seria o início dos anos sessenta após a derrota dos Aliados. Neste assustador mundo fictício, os japoneses governam a Costa Oeste dos Estados Unidos e a Alemanha, a Costa Leste. Hitler está tão doente que já não tem mais condições de governar, e o ditador do Reich agora é o antigo fiel escudeiro do ex-Führer, Martin Bormann. Os dirigentes nazistas (como sempre ocorrera, aliás), travam ferozes lutas internas por nacos de poder: com Heinrich Himmler já falecido, os mais importantes mandatários alemães são o ministro da aeronáutica e ex-vice premiê Hermann Göring, o ministro da propaganda Joseph Goebbels, o ex-dirigente da juventude nazista, o moderado Baldur Von Schirach, e os cruéis Arthur Seyss-Inquart e Reinhard Heydrich – que, na ficção de Philip K. Dick, não tinha sido morto em decorrência de um atentado em Praga perpetrado por terroristas tchecos, conforme realmente ocorreu no ano de 1942. Na África, os nazistas promoveram um monstruoso genocídio contra a população negra e, em todo o mundo, dão total publicidade ao assassinato em massa de judeus nas câmaras de gás - que continua, claro, com todo o fôlego. Os eslavos que não são escravizados ou assassinados são mandados para regiões distantes da Sibéria. Não satisfeitos em colonizar a Terra, os alemães mandam os primeiros seres humanos para Marte. Ainda na parte tecnológica, os nazistas criam foguetes de linhas comerciais que fazem o trajeto Estados Unidos-Europa em menos de uma hora.

 

O homem do castelo alto se passa na Costa Oeste dos Estados Unidos, na região de San Francisco. No romance, os americanos são cidadãos de segunda classe, totalmente subjugados ao poder japonês, que é bem menos agressivo que o correspondente nazista: o governo imperial permite alguma liberdade de imprensa e jamais perseguiu judeus. Os japoneses, além disso, admiram a cultura americana, apreciando o jazz e o blues, e colecionam objetos fabricados nos Estados Unidos no período anterior à Segunda Guerra Mundial.

 

O livro conta a história de alguns personagens - quase todos aficionados pelo milenar livro chinês de adivinhação, o I Ching - vivendo nesta Costa Oeste fictícia. O espião alemão que quer, com grande risco de vida, passar informações extremamente importantes para o governo japonês. O artesão judeu que fez operações plásticas e mudou seus documentos para esconder sua origem. A mulher problemática que namora um rapaz pretensamente italiano que ela acaba descobrindo ser um espião alemão preparado para assassinar o escritor de um romance que contava a história de um mundo em que o Eixo perdeu a guerra. O comerciante americano de objetos antigos que está sempre querendo agradar os superiores japoneses. O burocrata japonês que sofre com as políticas nazistas e com as guerras de espionagem.

 

O homem do castelo alto é um livro sombrio e melancólico, e que gruda na memória do leitor.

 

Se a obra de Philip K. Dick angustia quando trata de um tempo presente que poderia ter acontecido com a vitória alemã na Segunda Guerra Mundial, Diário de um skinhead - um infiltrado no movimento neonazista, do jornalista espanhol Antonio Salas (Planeta, 280 páginas) assusta ao falar do nazismo "de verdade" nos dias atuais.  O autor, que utilizou um pseudônimo para assinar o livro por motivos óbvios, passou mais de um ano como infiltrado entre violentos skinheads espanhóis, sempre filmando tudo com uma câmera escondida. O risco que ele correu nesta empreitada foi, obviamente, enorme, e o jornalista brasileiro Tim Lopes, brutalmente assassinado por traficantes cariocas ao fazer uma reportagem semelhante em 2002, é citado no livro do espanhol para dar uma idéia do perigo da situação.

 

Para infiltrar-se na extrema-direita espanhola, Salas começou pelo maior meio de comunicação dos skinheads na atualidade: a internet. Ele demorou cerca de três meses – por segurança, sempre em lan houses - navegando por chats e sites nazistas, entrando em contato com pessoas do movimento, aprendendo sua gíria especializada e seus códigos de conduta, antes de pegar coragem e conhecer pessoalmente alguns de seus objetos de estudo. Como era de se esperar, para ser um infiltrado convincente ele rapou o cabelo, passou a se vestir como um skinhead e a defender (somente em público, claro) idéias nazistas. As muitas aventuras perigosas pelas quais Salas passou e os sentimentos – muitas vezes contraditórios e surpreendentes – que ele teve neste empreitada perigosa são narrados com grande detalhe, resultando numa leitura de grande impacto na maior parte do tempo. Entre os resultados mais importantes da investigação do jornalista estão a descoberta das íntimas ligações dos skinheads com os partidos legais de extrema-direita (que sempre negaram este contato) e com muitas torcidas organizadas do futebol espanhol – o que ajuda a explicar o recente aumento do racismo observado em arquibancadas européias.

 

 

 

previous - next

about me - read my profile! read other Diar
yLand diaries! recommend my diary to a friend! Get
 your own fun + free diary at DiaryLand.com!