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9:49 p.m. - 2003-04-07
lieder em São Paulo
Nathalie Stutzmann canta no Cultura Artística
(obtido em http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/04/07/cad034.html)
Contralto francesa, que faz três recitais na cidade, abre hoje a temporada deste ano da sociedade
JOÃO LUIZ SAMPAIO
A contralto francesa Nathalie Stutzmann abre hoje à noite a temporada deste ano da Sociedade de Cultura Artística. Ao lado da pianista Inger Södergren, ela, que é uma das referências da interpretação do lied da atualidade, vai fazer três recitais na cidade, até quinta-feira, dedicados ao cancioneiro alemão - Schubert e Schumann - e francês - Fauré, Poulenc Debussy, entre outros. O contralto é o timbre mais grave, mais profundo, da voz feminina. O mais incomum também, lembram os dicionários musicais. O que dá vida a esse significado, no caso de Nathalie, é um "que" a mais: "Pode-se dizer que sou uma pessoa de personalidade sombria", brinca. "Me agradam muitos os românticos, o modo como eles viviam tudo, sejam desilusões ou paixões, com muita intensidade, a fundo."
De Schubert, Nathalie vai interpretar, no recital de quarta-feira, Winterreise (A Jornada de Inverno), escrito a partir de poemas de Wilhelm Müller. O ciclo, concluído em 1827, representa, por um lado, a história de um amante abandonado que deixa a cidade do objeto de sua paixão e sai em jornada durante o inverno; e, por outro, o caminho de um homem assombrado por uma paixão malsucedida em direção à própria morte. De Schumann, Nathalie canta 12 Canções por Justus Kerner, obra baseada nos textos desse poeta: uma combinação que resulta em peças repletas de dor, angústia e mágoa. Elas serão mostradas nos recitais de hoje e quinta, ao lado de melodias francesas sobre o amor, escritas por Fauré, Chausson, Duparc, Debussy e Poulenc.
"Todas essas canções falam daquelas sensações que nos acometem no momento em que nos apaixonamos, das dificuldades que surgem com a sensação fenomenal de estar amando. É o caso do Winterreise, uma peça que esperei a vida inteira para cantar. À medida que você avança nessa música linda e nesse sentimento terrível que ela representa, é como se Schubert nos estivesse dizendo tudo aquilo que é preciso saber sobre a vida", diz Nathalie.
Muitos dos autores presentes nos recitais em São Paulo, em especial Schumann, estão na discografia de Nathalie, o que confirma também em estúdios sua preferência assumida pelo cancioneiro romântico do século 19.
Mas essa preferência não significa que seu trabalho se limita a esses autores. A música antiga, assim como alguns autores do século 20, além do repertório operístico, também têm atraído a sua atenção. "Canto aquilo que me toca, aquilo que me inspira de alguma forma. E ter esse poder de escolha é muito bom."
Poder que ela conquistou após anos de carreira iniciada, mesmo que em embrião, ainda na infância. Filha da soprano Christianne Stutzmann, foi com a mãe que ela deu início aos seus estudos. Antes de se dedicar inteiramente ao canto, porém, Nathalie esperou que a voz "assentasse". Estudou piano e fagote antes de, aos 17 anos, levar adiante o que considera sua verdadeira vocação. "O estudo do piano, do fagote, de teoria musical, foi fundamental.
Quando se canta, por exemplo, Mahler, com uma orquestra, é importante ter uma visão mais ampla da partitura. O mesmo em canções acompanhadas pelo piano: conhecer o instrumento ajuda muito, é praticamente metade do processo de construção de uma visão artística."
Para Nathalie, ainda mais nos dias de hoje, esse é um diferencial que deveria estar na mente de qualquer cantor em início de carreira. "A concorrência é enorme. Belas vozes sobram, não são difíceis de se encontrar.
O que faz a verdadeira diferença é o uso que o cantor dá a seu material vocal, o que é influenciado diretamente não só por um conhecimento musical mais amplo, como também pelo estudo de línguas, pelo trabalho dedicado de compreensão do texto."
Em um recital como os que ela fará em São Paulo, essas habilidades se tornam especialmente importantes. "Você está ali, ao lado da pianista, e a execução musical não depende de nada a não ser de você. Você está nua, tem de ser honesta. E essa honestidade só ocorre quando você não é tímida com relação aos seus próprios sentimentos e possui uma relação clara com a obra, com a história que você está ali para contar."
Nathalie afirma não ter grandes referências no seu trabalho como cantora, mas os nomes que aparecem ao longo da conversa mostram um aguçado gosto musical: a contralto Kathleen Ferrier - "Ouvi para descobrir o que era esse tipo de voz" -, Christa Ludwig, Brigitte Fassbaender - "Mulheres que cantaram o Winterreise, normalmente interpretado por homens" -, o baixo alemão Hans Hotter, com quem estudou alguns anos. Entre os pianistas, tece elogios, entre outros, a Inger Södergren e Alfred Brendel.



Destaque do repertório é o lied
(obtido em http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/04/07/cad024.html)
Ninguém compôs canções poéticas melhor do que os alemães
LAURO MACHADO COELHO
Especial para o Estado
A canção poética - a tradução musical da poesia na conjunção austera da voz acompanhada apenas por um piano - tornou-se um gênero tão intimamente associado à arte germânica, que é com uma palavra alemã, lied, que é designada. Remontam ao século 15, às canções de Oswald Von Wolkenstein, os exemplos mais antigos de lieder; e belos exemplos de canção se encontram nos catálogos de Bach, Haydn e, sobretudo, Mozart.
Mas é no romantismo, com sua preocupação sistemática em encontrar as correspondências entre as artes, que a literatura e a música vão dar-se as mãos de forma muito rica, e o lied vai receber sua carta de nobreza com as 610 peças inigualáveis de Schubert, as 260 de Schumann, as inúmeras baladas narrativas de Carl Loewe, os livros de canções que Hugo Wolf dedica a Mörike, Eichendorff ou a traduções de poemas muitas vezes anônimos espanhóis e italianos.
Existe a melodie française de Berlioz e Debussy, ou de grandes autores de canção como Fauré ou Poulenc. Existe um acervo riquíssimo nas canções de russos como Glinka ou Rachmaninov, e até mesmo o Brasil pode orgulhar-se de ter, de Nepomuceno a Osvaldo Lacerda, uma variada literatura para voz e piano. Mas nada que se iguale à riqueza do repertório alemão, composto não só pelos grandes nomes do lied, mas também por Liszt, Peter Cornelius, Pfitzner ou Max Reger.
A gama completa das emoções humanas, captada pelo poeta, encontra-se expressa da forma mais intimista, nesses encontros da voz com o piano, como se o músico se limitasse a deduzir uma música secreta que já estava latente em cada verso. Uma obra-prima como O Rei dos Elfos, que Schubert escreveu aos 17 anos, exige do cantor grande habilidade, pois ele tem de sugerir a voz dos diversos personagens do poema de Goethe. O ciclo A Vida e o Amor de uma Mulher é uma verdadeira "ópera sem cena", na medida em que Schumann e Adalbert von Chamisso reconstróem, teatralmente, as etapas da história de um casal, da descoberta do amor à morte do marido.
Gênero romântico por excelência, o lied teve em Richard Strauss sua última grande manifestação, mas, com as canções orquestrais de Mahler e Berg, transformou-se, migrando do salão para a plataforma de concertos. Não desapareceu de todo, porém: compositores contemporâneos como Aribert Reimann ou Wolfgang Rihm continuam comprovando a sua vitalidade.

 

 

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