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2:06 a.m. - 2003-04-14
Nathalie Stutzman - Estadão
Nathalie Stutzman, uma lição de canto em SP
Recital da cantora foi uma entrada com o pé direito para a temporada do Cultura Artística
(obtido em http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/04/14/cad025.html)

LAURO MACHADO COELHO
Especial para o Estado
Lied é a comunhão da voz e do piano, na missão de revelar a relação estreita entre música e palavra. Nathalie Stutzman conhece todas as regras desse ritual: pouquíssimos gestos, expressão fisionômica parcimoniosa, rigor na articulação do texto. A arte de lapidar cada frase como se fosse uma jóia. Dispondo de técnica soberba, bem resolvida, de emissão fácil e espontânea, ela pode concentrar-se na interpretação, nos valores estilísticos e expressivos que dão traços distintivos ao lied alemão ou à mélodie francesa. Não é só a voz de timbre privilegiado que a natureza lhe deu; é principalmente musicalidade e a inteligência de quem sabe exatamente o que está cantando.
Típica contralto francesa, de graves escuros e amplos, mas com um registro agudo claro, luminoso, que a leva à tessitura de mezzo, Nathalie é, antes de mais nada, uma estilista refinadíssima. Sem afetação, faz do legato perfeito, da produção impecável de pianíssimos, um instrumento a serviço de traduzir as minúcias de significado de uma canção narrativa como Stirb, Lieb' und Freud, a segunda do op. 35 de Schumann, sobre poemas de Justinus Kerner.
É impressionante o controle da emoção quando ela constrói o lento crescendo de Stille Tränen. Intérprete muito intensa, Nathalie é capaz de fazer a introspectiva Alte Laute como se estivesse pensando, e não cantando, suas palavras cheias de desalento. Mas, sobretudo, a cantora é outra quando passamos do romantismo de Schumann - que ela canta com pronúncia muito clara do alemão - ao passeio, na segunda parte, pela canção francesa da virada dos séculos 19-20.
Com Fauré, de quem gravou praticamente todas as mélodies, Nathalie Stutzman está em casa, e sua leitura de Après un Revê tem a familiaridade de quem a traz dentro coração. Ela sabe contrapor a sensualidade da Extase, de Duparc, que faz com andamento lentíssimo, à elegância do pastiche barroco em A Chloris, de Reynaldo Hahn, que constrói com enorme senso de equilíbrio, até o discreto virtuosismo do "au prix des grâces de tes yeux" com que o poema de Théophile de Viau se encerra.
Em todos esses pontos - no clima de barcarola da Sérénade Italienne, de Chausson; nas transparentes texturas da Chevelure, de Debussy, banhada pelas mesmas águas dramáticas do Pelléas; no estilo de canção popular da deliciosa Les Chemins de l'Amour, de Poulenc, que pôs fim ao recital - Nathalie contou com o apoio exato, com o senso de timing de Inger Södergren, a excelente pianista sueca que a acompanha desde 1994.

 

 

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