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2:22 a.m. - 2003-04-14
Cartas de Glenn Gould
Cartas mostram busca de Glenn Gould pela perfeição
Livro com escritos inéditos do fim de sua vida revela o pianista em crise artística
(obtido em http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/04/13/cad047.html)

JOÃO MARCOS COELHO
Especial para o Estado
O baú Glenn Gould, 21 anos depois da morte do pianista, parece inesgotável. Depois de livros reunindo artigos e entrevistas, além dos vários filmes que rodou com o pianista canadense cultuado como um dos maiores músicos do século 20, o dublê de violinista e cineasta francês Bruno Monsaingeon acaba de publicar, pela Fayard, seu mais recente "achado":
Journal d'Une Crise Suivi de Correspondance de Concert.
Encontrado há pouco por uma pesquisadora na Biblioteca Nacional de Ottawa, no Canadá, este "diário de uma crise" cobre o período de junho de 1977 a 12 de julho de 1978. Uma fase em que Monsaingeon negociava com Gould a série de cinco filmes Glenn Gould Toca Bach, sem saber dos dramas pessoais que o obrigaram a adiar o início das filmagens (três documentários ficaram totalmente prontos).
Por que publicá-los? Porque "aí se vê", diz o cineasta, "um dos pianistas mais significativos da história em seu ateliê de tortura, atormentado pela dúvida, mas sobretudo no encalço frenético de uma verdade que lhe parece escapar momentaneamente, e que se refere à própria essência de sua arte.
Gould nos revela a narrativa emocionante, impiedosamente lúcida, quase proustiana em sua crueza, da conquista de seu próprio duplo: um Gould frágil e vulnerável que ele tenta escamotear, cuja existência sequer poderíamos adivinhar em função de sua luminosa perfeição".
Imagem mental - "Bach não suporta a menor imperfeição", gostava de repetir Gould. Pois nesse confessionário de vocabulário e temática absolutamente técnicos ele se debate com o que chama de busca da "imagem mental" da música, o que, glosando o sociólogo Max Weber, pode se chamar de "interpretação ideal" da qual ele tenta concretamente aproximar-se todo o tempo. "Durante um ou dois dias", escreve em 22 de dezembro, "sinto-me otimista e capaz até certo ponto de ??me criar uma imagem mental da posição aproximada de cada movimento esquerda-direita."
A questão é física: que postura adotar, dilema que vai do pescoço à espinha dorsal, do pulso e dos ombros a cada um dos dedos?
Mas não se reduz a questões corporais. Como na célebre resposta dele ao jornalista Jonathan Cott: "Tudo que é preciso saber para tocar piano se aprende em meia hora." Celeuma criada, esclareceu em seguida ironicamente:
"Quis dizer que o aspecto mecânico da coisa tem relativamente pouca importância. Uma vez ultrapassado, o problema essencial é dar um sentido à música. Mas reconheço que exagerei. Teria sido mais realista dizer 45 minutos."
O drama, portanto, é esmiuçado nas anotações de 9 de janeiro de 1978:
"Durante a última semana, e sem tocar no teclado, foi possível construir uma imagem mental das coisas, dirigir, tocar mentalmente uma grande quantidade de obras de estilos variados (Rapsódia em Si Menor de Brahms, um grande número de prelúdios e fugas do Cravo) sem que isso tenha criado problemas.
Ontem, no entanto, o controle pareceu menos seguro mentalmente, e se deteriorou rapidamente em contato com o instrumento."
Do dia 30 de janeiro em diante, Gould atribui notas de 1 a 10 para os ensaios com instrumento. Dia 5 de março: "A 'imagem' está praticamente intacta no começo, 7,5, mas duas horas e meia depois, deteriorou-se até o nível de 6." O pianista atingia picos de perfeição que duravam às vezes uma, duas semanas, mas não conseguia mantê-los com um mínimo de estabilidade: "No dia em que atingir esta estabilidade, então poderei pensar em retomar as gravações" (30 de janeiro).
Arena sangrenta - Como o diário preenche 84 páginas do livro, Monsaingeon teve uma bela idéia: ajuntou-lhe outras 80 com 75 cartas escritas por Gould durante o curto período em que levou em frente a carreira de recitais e concertos (de 1955 a 1964, foram 256 apresentações públicas; como se sabe, a partir daquele ano, ele se dedicou somente às gravações, por opção estética). Das 75 cartas, 60 são inéditas em livro. E contêm muitas revelações engraçadas, mordazes, inteligentes.
O célebre acidente na Steinway de Nova York, quando "um funcionário estúpido me fez machucar o ombro e o braço esquerdos", rende uma dúzia de cartas enfurecidas, ameaças de processos judiciais - e uma dieta nada agradável de cortisona quase diariamente. Mais de metade, descartável, compõe-se de picuinhas do dia-a-dia de um pianista às voltas com agentes de concertos inescrupulosos, burocratas delirantes de orquestras, etc.
Mas um punhado delas traz revelações interessantes. Em novembro de 1958, indignado com o incidente envolvendo o escritor Boris Pasternak (ele ganhou o Nobel, mas foi proibido pelas autoridades soviéticas de recebê-lo), Gould assegura a seu empresário Walter Homburger: "Em minha próxima visita à URSS, se fizer um discurso no Conservatório de Leningrado, será muito combativo!"
Para a Alcoa, Gould escreveu assinando como se fosse o seu empresário, sugerindo que a companhia - uma das maiores do mundo em processamento de alumínio - construísse um banquinho de alumínio especial para ele. Bancos e cadeiras eram sua obsessão. No diário, ele chega a analisar modelos de automóveis em função de seus assentos. E escreve respondendo a um folhetão de mala direta de loja de móveis perguntando se eles não poderiam alterar o ângulo de inclinação da cadeira n.º 100 do catálogo.
Ódio eterno contra maestros autoritários, que chamava de "terroristas", como Fritz Reiner (chegou a gravar um disco com a Orquestra de Cleveland, mas não com Reiner, e sim com um assistente), Arturo Toscanini e George Szell. Amor eterno para Karajan (chegou a assinar-se numa carta "Glenn von K. Gould"), com quem adorava tocar. Karajan chegou a propor-lhe gravar a Sinfonia com Órgão, de Saint-Saëns: Gould registraria sua parte numa igreja canadense, eles combinariam andamentos e outros detalhes por telefone, e a Filarmônica de Berlim gravaria na Alemanha.
Elogia muito o pianista Friedrich Gulda, primeiro por ter sido aluno de Seidlhofer em Viena: "O respeito que tenho por ele (Seidlhofer) deve-se ao fato de ele ter sido professor de Gulda, que eu reputo, apesar de detestar sua personalidade, como um dos dois ou três pianistas vivos da atualidade pelos quais tenho uma admiração ilimitada." Separa farpas agudas para outro mito do piano contemporâneo, o italiano Arturo Benedetti Michelangeli: "Como outros, considero-o dotado de uma prodigiosa destreza digital, mas também de uma cabeça musical que não é particularmente interessante e sobretudo rasteira."
Com o amigo Leonard Bernstein, brinca criando um novo verbo em carta de 13 de dezembro de 1961: "Bernsteinizei em todas as direções e acabo de escrever para a revista High Fidelity uma tese em favor de meu herói de sempre, Richard Strauss. (...) Tenho convicção de que Strauss é de longe a maior figura da música do século 20." E anuncia pomposamente, em maio de 1958 para Vladimir Golschman, diretor da Orquestra de Saint Louis, sua aposentadoria como maestro, "após uma brilhante carreira de um único concerto que testemunhou ao mesmo tempo minha estréia e minha despedida do pódio - perda irreparável, sem dúvida, para o mundo musical".
A cada novo produto do baú Glenn Gould dá vontade de fazer como os fãs do saxofonista Charlie Parker, que, após sua morte, grafitaram muros nos EUA com a inscrição "Bird lives!" E escrever em manchete: Glenn Gould vive!

 

 

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