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4:05 a.m. - 2003-04-22
Nelson Freire e Tróia
"NELSON FREIRE" ENFOCA O INSTRUMENTISTA MINEIRO CUJA MUSICALIDADE E
DESENVOLTURA TÉCNICA, ALIADAS AO TEMPERAMENTO RESERVADO, O TRANSFORMARAM EM "UM
DOS SEGREDOS MAIS BEM GUARDADOS DO MUNDO DO PIANO"
NOTÍCIAS DE UMA GUERRA MUITO PARTICULAR
por José Miguel Wisnik
Depois de ter
feito, com Katia Lund, "Notícias de uma Guerra Particular", um documentário
televisivo impressionante sobre a emergência do crime organizado e a instalação
da guerra do tráfico no país, percebida como circuito de violência interminável
e literalmente viciosa nela mesma, João Moreira Salles surpreende num outro
extremo: o seu primeiro longa cinematográfico é um documentário sobre a
intimidade artística, se se pode dizer assim, de um refinado pianista erudito,
brasileiro e de sólida projeção internacional, Nelson Freire. Se considerarmos
também a sua bela trilogia sobre o futebol, temos um arco de temas e problemas
querendo dar conta de camadas aparentemente incompatíveis da realidade, como
quem quisesse ao mesmo tempo expor e reparar fraturas que se sabem irreparáveis.
É um dom raro, no entanto, este, o de saber tratar ao mesmo tempo de barras
pesadas e levíssimas, testemunhando o peso do mundo em chumbo e em pluma. Em
princípio, Nelson Freire é conhecido, no Brasil, por aquele relativamente
reduzido círculo de acompanhantes da música de concerto, entre os quais tem uma
legião de admiradores entusiasmados ou mesmo de devotos absolutos (me incluo
entre os últimos desde a minha juventude de estudante de piano). De fato, para
quem ama o piano, não é reativo ao grande repertório romântico do século 19 e
tem a oportunidade de prestar atenção nele, Nelson Freire é inequivocamente um
dos maiores pianistas do mundo, entre pouquíssimos. Mas, para quem vê o
documentário, essa afirmação se revela ao mesmo tempo inepta. Porque, por obra e
graça seja de um temperamento visceralmente reservado, seja daquela misteriosa
discrição profunda que acompanha tantas vezes a universalidade mineira, seja de
uma comovente adesão à música em si mesma, despida de exterioridade, Nelson
Freire se coloca fora dessa mensuração. Na prática, foi nessa direção que ele
conduziu sua carreira: evitando dar muitos concertos, dispor-se a dar
entrevistas e seguir protocolos de divulgação, evitando sobretudo gravar
constantemente (o que agora parece estar mudando, em alguma medida) e, sem
extrair dessa dificuldade de acesso um efeito estrelístico, Nelson Freire obteve
trânsito mundial, reputação crítica seleta, adeptos e devotos em muitas partes,
sem alcançar no entanto a evidência que poderíamos considerar-lhe devida. Num
exemplo flagrante de sua ambígua presença ausente, o crítico John Ardoin, que o
apresenta na consagradora coleção de CDs "Great Pianists of the 20th Century",
começa dizendo que "Nelson Freire é talvez um dos segredos mais bem guardados do
mundo do piano". Na sequência, faz uma afirmação que coincide com a minha
impressão: "No entanto ele pode igualar qualquer façanha técnica de não importa
que pianista que eu conheça, (...) habitualmente com justeza, beleza de som,
desenvoltura e musicalidade maiores".
Naturalidade sem esforço
Um esforço para definir a singularidade de Nelson Freire como pianista
diria, antes de mais nada, que ele parece tocar sem nenhum esforço. Embora o
filme deixe ver com sutileza um outro lado dessa capacidade -nos suspiros
aliviados que acompanham nos bastidores o fim de cada recital, índices de um
consumo intenso de energia interior-, a verdade é que ele passa pelos maiores
"tours de force" do repertório com uma naturalidade incomum, vale dizer, sem
acusar o golpe da dificuldade técnica, ao mesmo tempo que sem espetacularizá-la.
Sabemos bem que vender a dificuldade malabarística como tal é um dos efeitos
quase obrigatórios, e óbvios, do virtuosismo concertístico, mas Nelson
praticamente a subtrai de cena. Ao mesmo tempo, o enfrentamento obstinado -e
humorado- de uma lendária passagem difícil do "Concerto nº 2" de Brahms, até que
ela saia macia e fluente, em público, é um dos lances através dos quais o filme
lança luz sobre essa trabalhosa, mas também espantosa, conversão da opacidade
resistente na pura fluência. Na verdade, a naturalidade sem esforço é apenas a
imagem visível de uma outra coisa, não visível, mas propriamente audível, e
interna ao modo de ler a partitura. Há uma claríssima transparência das vozes
melódicas, quando elas se insinuam em contraponto, uma gama intensa e extensa de
nuanças dinâmicas que podem ir de pianíssimos quase irreais a fortíssimos
fulgurantes, graduados ou contrastados através de um domínio sempre orgânico da
matéria sonora, e as cascatas de notas velozes, quando ocorrem, soam ao mesmo
tempo como raio e como sopro. Tudo isso pode ser ouvido nitidamente, por
exemplo, no "Improviso nº 2, Opus 36", de Chopin, que consta do já citado volume
da "Great Pianists" (ou na sonata de Lizst, presente num velho vinil que eu
nunca me perdôo de ter perdido).
Enigma Na "Mazurca em Si
Bemol Menor, opus 24, nº 4", encontrável no mesmo CD do Improviso, o sutilíssimo
controle da dinâmica, dos modos de ataque, do pedal, das ressonâncias, enfim, e
mais alguma coisa indefinível, faz do piano um instrumento surpreendentemente
multitimbral, revelando os relevos complexos dessa música na qual, como em
muitas das mazurcas, Chopin converte a peça de salão em enigma (a idéia é de
Charles Rosen, no excelente "A Geração Romântica" [Edusp], que tem o mérito,
entre outros, de assinalar a cada passo, e em minúcia, a grandeza
chopiniana). Os próprios dedos, quando se vêem de perto na tela, nos momentos
certos, arredondados e levemente roliços, em vez de alongados, como se espera
habitualmente de um pianista, tornam-se, no caso, uma espécie de concha
privilegiada e propícia ao legato -a enunciação contínua das melodias, mais
congenial aos sopros e às cordas do que ao piano (a propósito, essa visão
aproximada das mãos se dá, no filme, no diálogo entre piano, flauta e clarinete,
no segundo movimento do "Concerto nº 2" de Rachmaninoff, e entre piano e
violencelo, no terceiro movimento do "Concerto nº2" de Brahms). Mas o foco do
documentário -que isso fique claro- não é um zoom sobre o piano como matéria de
especialistas. Ele é uma sucessão de olhares, em 31 episódios, sobre o mundo que
cerca esse piano tão discreto quanto privilegiado, com o cuidado de quem cerca,
sem prendê-lo, um passarinho que parece poder escapar a qualquer momento. A
estrutura lembra vagamente, e João Moreira Salles o faz conscientemente, a do
filme "32 Curtas sobre Glenn Gould", de François Girard. Mas só à medida que
Nelson Freire e o extraordinário Glenn Gould são antípodas completos: o
repertório do pianista canadense vai sobretudo do barroco a Beethoven, saltando
praticamente daí para os modernos; o de Nelson Freire é basicamente o do
universo romântico saltado por Gould. Nelson é intuitivo e anticerebral, Gould é
inquietamente um homem de idéias. Um foge ao estúdio e se refugia, com imensa
reserva, no recital ao vivo; outro foge aos concertos e se refugia no estúdio.
Em ambos estão indicados, acho eu, os impasses do mundo do piano, à medida que
este perde, exatamente, o seu lugar no mundo. Guardemos essa questão, que me
parece estar, em silêncio, no cerne desse filme luminoso. Porque de todo modo o
silêncio, o gesto e a música acabam dizendo, ali, mais que tudo. Como a
homenagem a Guiomar Novaes (esta, absurdamente ausente de "Greats Pianists of
the 20th Century"), num momento em que Nelson simplesmente escuta, inteiramente
entregue, uma gravação, pela pianista, da transcrição da "Melodia de Orfeu e
Eurídice", de Gluck, que ele próprio toca depois repetidas vezes, como que a
assinalar um rito de passagem do bastão. Ou a comovente carta ao futuro filho
adulto, escrita pelo pai do pianista no momento em que a família se decidia a
mudar, com imenso sacrifício, de Boa Esperança para o Rio de Janeiro, para
suprir a necessidade de formação do menino prodigioso (lida em "off" pela voz de
Eduardo Coutinho, cuja presença, para além da perfeita adequação, pode ser
interpretada também como uma homenagem silenciosa). Ou a belíssima declaração de
amor, em carta, da professora Nise Obino, cuja aparição, nos anos dourados do
Rio, deu sentido, segundo testemunho de Nelson, a seus estudos de piano, quando
ele estava a ponto de perdê-lo definitivamente, por absoluta falta de motivação.
Ou o prazer com que Nelson assiste ao vídeo de Fred Astaire com Rita Hayworth,
exigindo divertidamente que a câmera se volte para a tela da televisão, e não
para ele. A luta surda e anímica, poucas horas antes do recital na Sala São
Paulo, com um piano que "não gosta" do pianista ("e eu não fiz nada para ele",
diz, quase segredando, para pessoas que tentam resolver o problema). Teatros do
mundo (em especial um passeio pela arca russa de São Petersburgo), a solidão
solista e o aluvião extasiado dos públicos. E até mesmo humoradamente, de
relance, o perigo que representa para um pianista, entre tantas manifestações de
afeto, o caloroso e potencialmente destroçante aperto de mão de alguns
admiradores (muito possivelmente russos).
Martha Argerich e Errol
Garner Preciso destacar, entre tudo, a presença de dois outros pianistas
no filme, extremamente reveladora, no modo como aparecem, do modo de ser do
próprio Nelson Freire: Martha Argerich, a grande pianista argentina, sua gêmea
não-idêntica, que testemunha ali uma amizade musical da vida inteira (eles se
conheceram adolescentes em Viena), e Errol Garner, o grande jazzista negro
norte-americano, em contraponto com quem, vendo-o em vídeo numa passagem
fulgurante, Nelson expressa a inveja do desejo impossível de improvisar e de
tocar com aquela mesma alegria esfuziante, que está, no entanto, na origem
primeira de sua relação com a música. Martha é algo assim como uma cronópia
cortazariana, excentricamente encantadora, extrovertida, falsamente blasé, uma
personalidade singularmente cativante que acompanha a sua condição, ela sim, de
primeira pianista do mundo, pela evidência do seu sucesso de público e de
crítica. O espelhamento dos dois é quase um ideograma. Diante de Errol
Garner, Nelson evoca a alegria de tocar que se via, segundo ele, em Rubinstein,
em Horowitz, em Guiomar Novaes e que se vê, como uma raridade, na própria Martha
(que no entanto tem evitado, ela também, ao que parece, as apresentações
solistas, preferindo concertos e música de câmera). Aqui está o ponto delicado:
o quinhão de alegria e de felicidade autêntica como um bem escasso, faiscando em
filão mitigado, mesmo para quem dedicou a vida à mais profunda intimidade com a
beleza. Perguntado pelo documentarista, cuja voz se entreouve em "off", se ele,
Nelson, tem alegria em tocar, a resposta é um primor de não-verbalidade: mescla
de silêncio mineiro, graça irônica, interrogação sincera e melancolia. A
questão não é simplesmente pessoal. Num artigo esclarecedor publicado no
"Guardian" e traduzido em "O Estado de S. Paulo" em 31/12/2002, "Por Que os
Pianistas de Hoje São Tão Chatos?", Martin Kettle aponta na verdade para a crise
da vida pianística, cujo grande ciclo teria ido segundo ele de Beethoven ao
surgimento do LP, de 1830 a 1960, quando o piano é o autêntico motor da cultura
musical erudita, e os grandes pianistas se sucedem ao longo de um período
fertilíssimo de composição para o instrumento. Lizst, beijado na testa por
Beethoven "em carne e osso", foi o professor dos professores de Claudio Arrau,
Wilhelm Kempf ou Rudolf Serkin. A tese de Kettle (e não se tome o título do
seu artigo ao pé da letra) é de que o piano, não representando mais uma cultura
viva em que se passa continuamente o bastão entre intérpretes e compositores, só
oferece um lugar problemático aos pianistas -especialmente, é claro, aos
melhores, e, cada um a seu modo, afetados silenciosamente pelo desgaste da
significação de seu ofício, frente ao qual a alternativa óbvia seria a franca
mercantilização. É o caso de Baremboim, tornado regente, de Martha Argerich,
pelo que já dissemos, de Vladimir Ashkenazy, fugindo à carreira de virtuose, e
de Pollini, ostentando uma "perturbadora frieza em sua maneira de tocar", para
não falar no caso limite de Glenn Gould. E é o que se pode ver, graças ao
documentário, de maneira singularíssima e ricamente matizada, em Nelson Freire,
cuja discrição desde sempre desponta como uma resposta silenciosa e natural,
além de musical, a tudo isso. Esse filme traz, também ele, notícias de uma
guerra muito particular. Muito particular porque única, mas não porque restrita:
dela se irradia um halo de humanidade que interessa a tudo, para muito além do
mundo do piano. Quem faz o que faz porque o faz de graça? Onde é possível a
alegria, mesmo quando ela jorra ainda de uma fonte límpida?
José Miguel Wisnik é músico, compositor e professor de
literatura brasileira na USP. É autor de "O Som e o Sentido" (Companhia das
Letras) e "O Coro dos Contrários" (ed. Duas Cidades).
A VIDA MATERIAL DA MÚSICA
Arthur Nestrovski articulista da Folha
Um exemplo, entre muitos: uma nota que surge no meio da renda de
arpejos da "Serenata" ("Ständchen"), de Johann Strauss Jr., transcrita por
Godowsky, que Nelson Freire toca no disco da coleção "Great Pianists of the 20th
Century". Isso acontece a 1min19s. É um lá, no registro médio, que fica em
suspenso e mantém a música acima do chão, até se completar numa pequena frase
cromática (1min31s). Desde o início, já estava tudo acima do chão; agora se abre
outro espaço ainda: a música falando de dentro da música, um silêncio que vem à
tona discreta e espantosamente em forma de som. Momentos como esse servem de
emblema para um entendimento tão natural das coisas que faz o resultado também
soar natural e fácil. Como se tocar piano, assim como ele toca, fosse algo, não
exatamente simples, mas também não excepcional. À famosa reserva mineira,
corresponde um respeito franco pela atividade humana, pelo trabalho dedicado e
digno de tocar um instrumento. Não há reserva nenhuma no seu modo de tocar; mas
também não há um instante de exibição. Há algo de dança nesse seu equilíbrio;
uma confiança física, tão rara e espontânea como a de Rita Hayworth voando com
Fred Astaire, entre outros artistas por quem ele mesmo tem confessada paixão.
Está presente tanto nos momentos de maior virtuosismo quanto nos que, para ele,
não são maior desafio; e tanto nas abstrações quanto nos retratos. O que mais
impressiona quando toca Villa-Lobos, por exemplo, é que o "Brasil" não poderia
estar mais vivo, mas perdeu completamente as aspas. Sua versão de "A Prole do
Bebê" (gravada em 1974 e relançada em 1997) devolve Villa-Lobos ao nosso país
interior e ensina a ouvir a música brasileira sem bandeira. No "Prelúdio" das
"Bachiana Brasileira nº 4", a nostalgia livrou-se de varguismos e
pitoresquismos, atingindo um registro limpo, carregado de sentimento e defendido
do sentimentalismo. É preciso muita confiança, mesmo, para se jogar escala
abaixo como ele faz no "Finale" da "Sonata nº 3" de Chopin, em seu premiado
disco de 2002. São escalas e escalas, que ele debulha com leveza e precisão.
Comparada a ele, até Martha Argerich (num disco de 35 anos atrás) soa pouco
cuidadosa. Quem mais se aproxima desse ideal de força e delicadeza é sua
admirada precursora, Guiomar Novaes (em versão da década de 50). Mas o verbo
aqui tem sentido literal: é Guiomar, mesmo, quem se aproxima dele, como se o
vetor da história tivesse se invertido, e Nelson Freire fosse um ponto de origem
dos que vieram antes, não menos que dos que vêm e virão depois.
Depois do filme Nada disso pode ou precisa ser traduzido em
imagens. Por isso mesmo, muita gente terá receio de assistir ao filme de João
Moreira Salles. A música é uma de nossas poucas formas de resistência contra a
dominação visual; e, agora que todas as artes aspiram à condição de vídeo, até a
música tende a virar trilha sonora de si. O receio seria saudável, não fosse
o histórico do cineasta, exemplarmente respeitoso, e não fosse também aquela
famosa reserva mineira. A soma de virtudes resulta numa subtração -a subtração
quase absoluta, nesse filme, de tudo o que não seja música. Dito de outro modo:
a música, aqui, ganha um repertório legítimo de imagens. São como a vida
material da música, âncoras terrenas do sentido. Fácil de dizer, difícil de
mostrar. Traumas familiares, relações pessoais, a rotina dos dias: nada disso
aparece, senão ligeiramente, em pequenas homenagens e sugestões. Nada, por outro
lado, se esconde; tudo converge na presença viva do pianista, na expressão de
seu rosto escutando um disco de Guiomar Novaes ou vendo Rita Hayworth na TV ou
ensaiando com Martha. Nada se esconde, afinal, porque é disso que se faz
música. E a maior lição desse filme tão comovente talvez seja a mais antiga: uma
coincidência justa entre a música e a vida, naquele ponto onde as duas se
explicam e desaparecem, discreta e espantosamente, uma na outra.
EM BUSCA DE TRÓIA
Cientistas conduzem escavações ao redor das ruínas da cidade para
descobrir novos indícios históricos da guerra descrita na "Ilíada"
| Marcelo Ferroni free-lance para a Folha
Alguns dizem que a obra não passa de criação literária. Outros,
que é possível descobrir traços históricos nessa que é uma das epopéias mais
importantes para a formação da literatura ocidental: a "Ilíada", obra em 24
cantos atribuída ao poeta grego Homero, escrita por volta do século 8º a.C. A
narrativa, provavelmente posta no papel a partir de uma tradição oral mais
antiga, conta o período final do cerco de dez anos que os gregos empreenderam à
cidade de Tróia, na Ásia Menor, por volta do século 12 a.C. A história, que
narra a luta de heróis como Aquiles, Agamêmnon e Heitor, tem atraído a atenção
de incontáveis especialistas, dos primeiros historiadores gregos, por volta do
século 5º a.C., até os arqueólogos atuais. Para eles, é possível garantir que a
guerra -que uniu povos de toda a região que viria a ser a Grécia contra
habitantes da Ásia Menor- realmente ocorreu. Esse é o caso de uma equipe de
cientistas que conduziu escavações próximas às ruínas de Tróia para descobrir
como era o relevo da região no provável período da guerra. O estudo, publicado
em fevereiro na revista especializada "Geology" (www.gsajournals.org), é no mínimo curioso. "Nada
do que a nossa pesquisa encontrou contraria as descrições da "Ilíada" ", escreve
John Kraft, geólogo da Universidade de Delaware, nos Estados Unidos, e principal
autor do estudo. O trabalho de Kraft consistiu em fazer dezenas de perfurações
na costa noroeste da Turquia, analisar as camadas geológicas do terreno e fazer
um mapa de como a região seria por volta de 3.250 anos atrás (veja quadro
abaixo). O resultado, indica o cientista, está de acordo com a "Ilíada". Tróia
estaria na beira de uma baía. Na outra extremidade, num estreito braço de terra,
os gregos teriam montado acampamento. Muitas das guerras descritas teriam
ocorrido na planície Escamândria, onde deságuam os rios Escamandro e Simoente. A
baía, no entanto, foi coberta ao longo dos séculos, principalmente pela ação de
assoreamento na região, causado pelos sedimentos trazidos pelos rios que
desaguavam no local. Os pesquisadores, que conduzem escavações desde 1977,
fizeram buracos de 70 metros de profundidade e depararam com material que
indicava que a região fora coberta por água salgada. Segundo eles, o relevo era
"extremamente irregular, com uma série de rios que mudavam seu curso com
frequência, pântanos e pequenas lagoas". Na conclusão, os cientistas são
cautelosos: "Apesar de os resultados não poderem validar a lenda, nós não
encontramos nada no registro estratigráfico que negue os eventos da "Ilíada" ".
As descrições na obra de Homero são vagas, o que torna difícil qualquer
comparação. A epopéia cita, no sexto canto, "lutas aspérrimas" numa planície,
entre a corrente de dois rios, o Escamandro e o Simoente. No 12º canto, há uma
nova descrição dos dois rios, "de margens juncadas de escudos e de elmos
empoeirados de heróis" -segundo a tradução de Haroldo de Campos (Editora Arx,
2002). "A "Ilíada" pode até ter se baseado em fatos que realmente ocorreram, mas
sua preocupação maior era a literária, e não a histórica", diz Elaine Hirata,
professora da arqueologia clássica do Museu de Arqueologia e Etnologia, da USP.
O episódio poderia não ser o relato de só um conflito, mas de uma série deles,
aglutinados e confundidos em uma mesma narrativa. "Os textos dão eco a possíveis
conflitos numerosos na região, que podem ter sido mesclados na "Ilíada" ", conta
Fábio Hering, doutorando em história antiga da Unicamp (Universidade Estadual de
Campinas). "Sabe-se, por exemplo, que os gregos pilhavam as cidades conforme se
aproximavam de Tróia. Isso está nas narrativas."
"Apesar de os resultados não poderem validar a lenda, nós não
encontramos nada no registro estratigráfico que negue os eventos da
"Ilíada" ", apontam os cientistas em seu estudo
| À beira do fim
Com base em cálculos de historiadores da Antiguidade, estima-se que a
guerra de Tróia -ou as guerras- tenha ocorrido entre 1346 a.C. e 1127 a.C.,
sendo que a data mais aceita seria a de 1184 a.C. Nessa época, não havia ainda
surgido nada do que posteriormente se tornou famoso no mundo grego: as
cidades-Estado, a democracia e a tragédia. A região era dominada pela
civilização micênica -assim batizada graças à poderosa cidade de Micenas, no sul
da Grécia. Seus membros falavam uma forma arcaica da língua grega e conquistaram
a sofisticada cultura cretense, que antes dominava o Egeu. Tornaram-se, assim,
uma mistura de ricos comerciantes, que levavam vida palaciana, e guerreiros
ferozes, cujos elmos de dentes de javali aterrorizavam o Mediterrâneo. Por volta
de 1200 a.C., essa civilização poderosa chega ao seu fim. Muitas cidades são
incendiadas, outras saqueadas. O poder centralizado perde a sua força. "Há um
despovoamento dos grandes centros, além do fim da escrita e da arquitetura
monumental", comenta Hirata. "Toda a vida palaciana perde o sentido, o poder se
pulveriza." O que se segue é uma época conhecida como idade das trevas. Há uma
desagregação total da vida na região. E é justamente no século 8º a.C., época em
que surgem a "Ilíada" e a "Odisséia" -narração da volta de Odisseu (Ulisses) a
Ítaca após a guerra de Tróia-, que o mundo grego começa a se recompor. "A
"Ilíada" conta provavelmente a história dos povos micênicos em uma de suas
guerras para saques e fundação de empórios comerciais", diz Hirata. "Ao que tudo
indica, eles não queriam estabelecer cidades. Às vezes, agiam como se fossem
piratas, saqueando os centros urbanos."
Teorias antigas As
tentativas de explicar as bases históricas por trás da Guerra de Tróia são
antigas. Tucídides (460-400 a.C.), um dos maiores historiadores gregos, já
buscava explicações para o que ocorrera na época. "Agamêmnon, ao que me parece,
devia ser um dos governantes mais poderosos de seu tempo, e foi por essa razão
que ergueu um exército enorme contra Tróia", diz ele, no início da "História da
Guerra do Peloponeso". Suas especulações se estendem até aos tamanhos dos
exércitos envolvidos: "É questionável se podemos confiar totalmente nas
estimativas de Homero, porque, já que era um poeta, deve ter exagerado". O
assunto ganhou interesse renovado quando o empresário alemão Heinrich Schliemann
(1822-1890) iniciou em 1871 as escavações no monte Hissarlik, na Turquia, atrás
de ruínas da cidade lendária. "Schliemann tentava usar a arqueologia como um
instrumento para validar os textos homéricos, escritos cerca de quatro séculos
após os possíveis eventos", afirma Hering. "Com isso, deixou de tomar alguns
cuidados ao escavar a região." Na pressa de encontrar indícios que comprovassem
o relato, o pesquisador alemão acabou fazendo uma confusão de datas: explorou e
descobriu tesouros de uma Tróia mil anos mais antiga que a descrita na "Ilíada".
Escavações posteriores apontaram uma outra camada de ruínas, conhecida como
Tróia 7, que parece ser a cidade contemporânea aos relatos de Homero.
Provavelmente destruída por um incêndio, ela representa um centro urbano
pequeno, longe do que aparece nas narrativas.
Novas polêmicas
Não foi só o artigo na revista "Geology" que trouxe o assunto de Tróia à
tona. Em outubro passado, uma polêmica entre pesquisadores alemães fazia lembrar
os próprios embates entre gregos e troianos. Coordenador das escavações nas
ruínas de Tróia desde 1988, o arqueólogo Manfred Korfmann, da Universidade de
Tübingen, participou de uma exposição em que mostrava um centro urbano muito
maior e mais importante do que se imagina atualmente. Segundo ele, sua equipe
descobriu indícios de uma cidade espalhada ao redor da atual cidadela, o que
poderia indicar que Tróia era realmente tão importante quanto a descrição de
Homero. A exposição, chamada "Tróia: Sonho e Realidade", contava inclusive
com uma reconstituição tridimensional da cidade, composta a partir dos indícios
descobertos por Korfmann. A especulação gerou uma disputa entre ele e Frank
Kolb, historiador da mesma universidade. Segundo o jornal norte-americano "The
New York Times", Kolb chegou a dizer que seu colega trabalhava com pura
fantasia. "Ele é o Von Däniken da arqueologia", disse o professor, referindo-se
ao escritor que afirma que astronautas extraterrestres visitaram a Terra em
épocas remotas e contribuíram para a formação de civilizações
antigas.
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