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8:07 a.m. - 2003-05-17 A grandeza dos derrotados do mestre John Ford
Westerns clássicos do grande diretor estão disponíveis em discos cheios de extras Jorge Bancroft, John Wayne e Claire Trevor em cena de ‘No Tempo das Diligências’: clássico que influenciou Orson Welles LUIZ CARLOS MERTEN No caminho para Nova Jerusalém, três fugitivos da
cadeia encontram no deserto uma mulher que dá à luz uma criança e morre após
entregar à guarda deles o bebê. O trio enfrenta todos os perigos para depositar
a criança no lugar indicado pela mãe. Quando o guardião do bebê completa sua
missão, é Natal e a música que se ouve é Noite Feliz. O filme é O Céu Mandou
Alguém (The Three Godfathers, no original). Pode ser definido como 'os Três Reis
Magos no Velho Oeste'.
Se fosse de outro a direção, seria um filme talvez insuportável pelo excesso de pieguice a que se presta o roteiro. Mas é um filme de John Ford e nisso vai toda a diferença. Ford possuía, como poucos, o segredo de praticar um cinema de sentimentos sem exagerar na dose. Jean Tulard, em seu Dicionário de Cinema, diz que os westerns de Ford são a prova de que se podem fazer bons filmes impregnados de bons sentimentos. Fãs de westerns em geral e de Ford, em particular, têm motivos para rir à toa. O Céu Mandou Alguém é apenas um dos westerns do mestre que estão disponíveis em DVD nas locadoras e lojas especializadas. Destinam-se à venda direta, o que os transforma desde logo em peças para colecionadores. Alguns desses filmes já estavam no mercado: Rastros de Ódio, o sublime The Searchers, de 1956, que talvez seja a obra-prima do grande diretor; O Homem Que Matou o Facínora, do começo dos anos 1960. A esses se somam agora dois títulos dos anos 1940, o citado O Céu Mandou Alguém e Legião Invencível, que não é outro senão She Wore a Yellow Ribbon. E também um clássico do fim dos anos 1930, No Tempo das Diligências, o poderoso Stagecoach, que tanto influenciou Orson Welles na preparação e realização de Cidadão Kane. Todos possuem extras: trailers, biografias, estudos sobre o western. Mereciam ter muitos extras mais. Joanne Dru e John Wayn em ‘Legião Urbana’: segundo filme da trilogia sobre a Cavalaria Há pelo menos mais um filme para espectadores - cinéfilos - interessados em formar uma devedeteca básica sobre John Ford. É Depois do Vendaval (The Quiet Man), o mais irlandês dos filmes do autor, o mais representativo do seu universo, mesmo que não seja realmente a obra-prima de Ford. Nascido Sean Aloysius O'Feeney - no Maine, em 1895 -, Ford viu a luz com o cinema. Morreu em 1973, aos 78 anos, envolto na majestade do mito que fez dele o Homero de Hollywood. Descendente de irlandeses, criou uma Irlanda que talvez existisse só na sua cabeça ou nas tradições familiares responsáveis pela sua formação humana e artística. Um admirador, o cineasta Robert Parrish, que foi seu assistente, dizia que Ford fazia parte daquele seleto grupo de diretores que não mudaram nada com o passar dos anos. Nada foi capaz de abalar suas convicções. Outro admirador, o crítico e também cineasta Peter Bogdanovich, acrescenta que Ford foi, de certa forma, o continuador de David W. Griffith. Um construiu a saga americana no cinema silencioso. O outro prosseguiu-a no cinema sonoro. Mas se Griffith pode ser acusado de racismo em O Nascimento de Uma Nação, de 1915, Ford, ajudando a construir os mitos da América, introduziu neles, como uma marca, a sua dúvida. Até pela definição de ter sido o Homero do cinema hollywoodiano clássico, Ford revelou, ao longo de sua carreira, uma acentuada predileção pelas epopéias de grupos nômades. Pioneiros, pistoleiros, índios, a todos contemplou com a justeza de seu olhar. Às vezes, nem é um grupo, mas um só homem, como o pungente Hank Worden de Rastros de Ódio, que sonha com uma cadeira de balanço, transformada em símbolo do seu desejo de criar raízes na vastidão da América que rumava para o Oeste. Ford contou a história do tiroteio do OK Corral como afirmava havê-la ouvido do próprio Wyatt Earp em Paixão dos Fortes (My Darling Clementine), de 1946. Mais tarde, descobriu-se que a saga não havia sido tão heróica assim e o próprio cinema encarregou-se de desmistificar o célebre episódio. O filme de Ford não perdeu por isso sua condição de clássico. A recriação da vida em Tombstone, que o cineasta faz, garante a Paixão dos Fortes sua perenidade entre as emoções inesquecíveis do cinema. Dois anos mais tarde, foi dos primeiros a investir contra o mito do general George Armstrong Custer, mostrando Henry Fonda como um militar belicista que prega o genocídio dos índios em Sangue de Heróis (Forte Apache). Para o cineasta que contou tantas epopéias de grupos, é no mínimo curioso que seu maior filme trate da tragédia de um solitário, o Ethan Edwards de Rastros de Ódio. E se ele matou mais índios do que Custer em seus westerns, reabilitou-se (ou reabilitou-os) em Crepúsculo de Uma Raça, seu último bangue-bangue, em 1964. Ford exaltou a América, mas nunca foi muito atraído pela figura dos vitoriosos. Preferiu expressar, no cinema, a glória e grandeza dos derrotados. Todos esses westerns que se encontram disponíveis em DVD são interpretados pelo mais fordiano dos atores, o lendário John Wayne. Jean-Luc Godard dizia odiar o homem reacionário que apoiava a linha política mais às direita do Partido Republicano, mas amava Wayne quando ele acolhia em seu braços a jovem Natalie Wood no desfecho de Rastros de Ódio. Em No Tempo das Diligências, ele é o pistoleiro Ringo Kid, marginalizado - como a prostituta Dallas (Claire Trevor - pelos passageiros de uma diligência que atravessa Monument Valley, perseguida pelos índios. Em O Céu Mandou Alguém é o rei mago que leva até o fim a missão que assumiu. E em Legião Invencível, o segundo filme da trilogia sobre a Cavalaria - intermediário entre Sangue de Heróis e Rio Grande -, é esse militar que adia quanto pode a aposentadoria, tentando ampliar o tempo da última missão. São obras magníficas de um grande artista. Sem Ford, o cinema americano clássico não teria sido tão bom. (obtido em http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/05/14/cad032.html)
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