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1:54 a.m. - 2003-05-27
Said e Barenboim
Barenboim e Said, o equilíbrio no caos

Amizade entre o maestro israelense e o professor e músico palestino radicado nos Estados Unidos levou a um debate permanente sobre a arte, as divisões e os conflitos que marcam o Oriente Médio
SUZIE MACKENZIE
The Guardian

LONDRES - Foi nos anos 90, conta o maestro e pianista Daniel Barenboim, cerca de um ano após o encontro casual em Londres com Edward Said, escritor palestino e professor de literatura na Universidade de Columbia, que ele tomou a decisão, "como judeu e cidadão israelense", de ir à Cisjordânia ver o sofrimento dos palestinos. Por mais de 20 anos, o regente fora um crítico silencioso da política de Israel para os palestinos, desde a declaração de Golda Meir, em 1970, de que não há povo palestino. "Pensei então que não se pode dizer isso, não se pode virar a cara e dizer: eles não existem."

Barenboim diz que decidiu ir, não por empatia ou compaixão, mas porque a situação lhe parecia injusta. "Mesmo que a criação do Estado de Israel em 1948 tenha sido um ato de justiça universal, é preciso reconhecer que foi conseguido à custa do deslocamento, sofrimento e tragédia de outros. Não fomos capazes de percebê-lo em 48. Mas tornou-se necessidade percebermos hoje." A justiça, a ética forte, diz ele, é a base da história judaica. E foi nessa tradição judaica que o maestro viajou pela primeira vez e depois voltou duas vezes, em 1999 e em 2002, quando fez concerto em Ramallah que lhe rendeu ameaças de morte e a manchete no Jerusalem Post: "Com amigos como Barenboim, quem precisa de inimigos?" Assim, como crítico da ocupação israelense da Cisjordânia, ele passou a ser difamado como inimigo da terra que ama.

Isso pode ser uma definição de amizade? A verdadeira amizade consistiria apenas numa espécie de conivência, como insinua o Jerusalem Post? Barenboim foi fazer música, para uma audiência que poderia considerá-lo inimigo. Por esta definição, dele, a amizade no lado da justiça sempre carregará risco.

Há dois tipos de pessoas no mundo, diz Barenboim: "Aquelas que só gostam de conversar com quem concorda com elas e outras que têm curiosidade de ouvir outro ponto de vista." É uma das razões pelas quais ele ama regência. "Numa orquestra, você tem muitos instrumentistas, cada um criativo e com idéias próprias." Assim, uma orquestra é um modelo de democracia, "pois você tem de deixar espaço para os outros e não ter inibições para reivindicar um lugar para si próprio".

Em Ramallah, Barenboim reivindicou um lugar para si mesmo ao lado da Justiça, embora não pudesse prever a reação palestina. "Ocorreu-me que, pela primeira vez na vida, poderia encarar uma audiência hostil." Ficou quase amedrontado. Mas o medo, diz, é falta de conhecimento, "que traz a instabilidade e por isso é importante saber, não apenas como fazer algo, mas também por que você está fazendo algo". Foi aplaudido de pé, o que ele atribui tanto ao fato de ser um israelense "que estendeu a mão" quanto ao fato de ser um músico famoso. Ou talvez a mistura das duas coisas.

Foi a mesma coisa, conta Said, antes, quando Barenboim deu concerto em Jerusalém. "Eu estava lá. Na noite anterior, fomos jantar na casa de uma amiga na Cisjordânia cujo marido acabara de ser deportado." Ao fim do concerto, Barenboim agradeceu à amiga pela noite maravilhosa, denunciou a deportação e dedicou o primeiro bis a ela. Para Said, foi um ato extremamente generoso. "E nisto Daniel é único no mundo musical. Ele gosta de se envolver com a audiência." A felicidade, não a tristeza, é tagarela, escreveu a filósofa alemã Hannah Arendt. "E realmente o diálogo humano é diferente da mera conversa, pois é todo permeado pelo prazer da outra pessoa e pelo que ela diz. Está afinado no tom da felicidade." É uma idéia maravilhosa, na origem do livro de diálogos - Parallels & Paradoxes (pode ser encomendado na Livraria Cultura, tel. 0--11 3170-4033) - que Barenboim e Said publicaram. São conversações de cinco anos, que eles gravaram, em torno do assunto que para ambos é fonte de alegria: a música.

O que impressiona nos dois amigos é quão diferentes eles são. Não porque um seja israelense, o outro, palestino. Eles estão, enquanto indivíduos, em extremos opostos de temperamento: um sociável, expansivo; o outro, Said, mais cauteloso, apesar da sinceridade.
Biscoitos - Barenboim abre a porta de sua suíte de hotel, em Londres, com um lenço enfiado na camisa. Faz um gesto amplo com a mão. "É tudo grandioso, estou com medo", diz o regente, sem soar nem um pouco pesaroso, e continua o café da manhã, uma tigela de mingau. Barenboim fica feliz por eu ter pedido chá, pois com ele virão biscoitos. Duas coisas o deixam nervoso: não comer e não dormir. Assim, ele come pontualmente e tira uma soneca toda tarde.

A música é sua vida desde quando ele se lembra. "Havia música antes de eu saber falar. Meus pais eram professores de piano." Em sua infância, quando alguém visitava seu apartamento em Buenos Aires, onde ele nasceu em 1942, "era para ter uma aula de piano, eu pensava que o mundo inteiro tocava piano". Filho único, ele deu seu primeiro recital aos 7 anos. Tem se apresentado a vida toda. E seu modo de falar, metade arrogante/autoritária, metade autodepreciativa/nem tão autoritária, em frases elegantes que parecem sair prontas de sua boca, confere-lhe uma confiança cômica.

Ele espera ser ouvido e, embora negue, espera agradar. "Como regente, você tem de abrir mão da esperança de ser querido." Ele acharia que, por ser filho único, por sempre saber de alguma maneira quem ele era, tornou-se fechado? "Acho que não. Há pessoas que só enxergam a si mesmas. Mas ser fechado também pode significar que, seja o que for que você veja, ouça, experimente, você encontra algo para si naquilo."

E, claro, Barenboim é passional. Quando pergunto por que sentiu necessidade de tomar uma posição - por que ir a Ramallah? "Do que você acha que a música trata? Há mil anos, as pessoas amavam, odiavam. Não inventamos a natureza humana. Você espera que eu fique sentado em casa e seja apenas um músico?

Isto não seria fazer música. Seria apenas tocar uma seleção de notas." A música, diz ele, é uma metáfora da vida, "no sentido de que a música está num estado constante de vir a ser, está fazendo conexões, entre os sons, com coisas efêmeras".

Toda a História, e toda a sua história, tem demonstrado isso. Quando imigrou da Argentina para Israel em 1952, aos 10 anos, Israel estava num estado de vir a ser. "Era um Estado socialista, no melhor sentido da palavra. O grande problema do socialismo é que você é levado a sentir que trabalha apenas para o Estado, não para o indivíduo. Mas se não existe Estado e você está trabalhando para criar um, o socialismo tem aspecto totalmente diferente."

Foi a partir dali que seu instinto da conexão entre individual e coletivo se forjou. E a regência, continua ele, é a apoteose desse processo. "Qualquer regente pode fazer uma orquestra tocar da maneira que ele quiser. Mas isso não é música. Música é quando regente e orquestra respiram juntos, como se usassem um pulmão coletivo."

É justo dizer que Barenboim, apesar de sua confiança, não é tirano. Tudo se resume a equilíbrio, diz. E equilíbrio é uma definição de amizade. Notas diferentes tocadas num acorde - harmonia. É por isso que chama Said de amigo. "Edward e eu temos narrativas diferentes, por isso nossa interpretação do passado é diferente. Mas, sobre o presente, estamos mais ou menos em concordância e, sobre o futuro, essencialmente temos a mesma opinião: deve haver uma maneira de viver lado a lado, cada um em seu país, mas com contato aberto." Como israelense, Barenboim está situado no lado do poder. Ele diz: "Nós, judeus, quando falamos sobre os outros, temos de entender que falamos daqueles que dependem de nós, cujo território ocupamos." Said fala em nome dos desapropriados, caracteristicamente, uma posição menos negociável.

Diálogo revela o aspecto político da música
Palestinos aplaudiram o maestro israelense que provocou polêmica sobre Wagner em seu país
SUZIE MACKENZIE
The Guardian

LONDRES - Edward Said é mais dissonante que o amigo Daniel Barenboim, menos à vontade consigo mesmo, não menos falante, mas mais cuidadoso com as palavras. O que não surpreende num professor de literatura consciente das armas da linguagem. Encontramo-nos no escritório de seu editor em Londres, onde ele aceita um café. Said parece cansado, dorme pouco, "três horas por noite".

Barenboim o descreveu como "o último homem do Renascimento" - um acadêmico, um exímio pianista. Até os 20 anos, Said alimentou a esperança de se tornar um músico profissional. "No fim, eu não era bom o suficiente." E ele é, claramente, o mais apaixonado, mais articulado e, no Ocidente, mais visível defensor do povo palestino. Diferentemente de Barenboim, Said levou 40 anos para encontrar sua verdadeira voz. Foi em 1973, depois da guerra do Yom Kippur, que ele escreveu seu primeiro artigo político, para o New York Times. E pode-se sentir nele a timidez de um homem que se construiu de fora para dentro.

Nos últimos anos, Said somou à sua "luta" a batalha contra o câncer - sua leucemia foi diagnosticada em 1991 e ele começou o tratamento em 1994. Ele aponta para uma grande saliência no lugar do estômago e pergunta se parece gordo - seu pai costumava provocá-lo com comentários sobre seu físico. O inchaço é um tumor. O câncer, diz ele, o mudou: "Você aprecia mais cada dia."

E ele hoje acha difícil viajar longas distâncias. "Eu não poderia, por exemplo, ir até a Palestina. Sempre penso em voltar lá, mas estou muito doente." Mas Said dá palestras e aulas e acredita, não com arrogância e sim com sinceridade, na utilidade delas. Acredita que no reino público há lugar "para a voz que não é o padrão, para a voz alternativa". Três coisas convergiram na vida de Said no início dos anos 90. Sua doença, seu encontro com Barenboim e sua volta à Palestina em 1992. Em 1994, ele começou a trabalhar em suas memórias, Out of Place, um esforço para recuperar o "primeiro eu" que ele havia deixado para trás e entender a confusão, as inconsistência, contradições, presentes na formação de seu caráter.

Said nasceu em Jerusalém em 1935, numa família rica e bem educada, seu pai era dono de uma papelaria com franquias na Palestina e no Cairo. Ele passou grande parte da juventude no Egito, freqüentando escolas britânicas. Sempre quis ser um bom filho, embora, do pai aos professores, todas as figuras com autoridade o repreendessem. Said escreve com emoção sobre como sua sensibilidade rebelde se formou. Seu pai era um tirano e sua mãe, às vezes opressora, às vezes fria. Desgraça, medo e punição parecem ter sido norma em sua infância. Ele contou que, quando foi para os EUA, em 1951, como calouro da Universidade de Princeton e depois pós-graduando em Harvard, decidiu deixar o passado para trás.

Há algo comovente na amizade entre Said e Barenboim: poucos anos depois de a família de Said deixar Jerusalém para sempre, em 1947, a família de Barenboim chegou. Duas trajetórias opostas, uma rumo à casa, outra a expulsão dela. Mas, ao contrário de Barenboim, Said não veio de um lugar seguro. E, talvez mais significativamente, Said não veio de um mundo de confiança. Barenboim descreve em sua biografia como, ao ser convidado pelo regente Wilhelm Furtwängler para tocar com a Filarmônica de Berlim em 1954, seu pai disse não. A guerra acabara havia muito pouco tempo para que um judeu viajasse de Israel à Alemanha. Numa história paralela no fim de suas memórias, Said conta como foi traído por seu pai, que o fez assinar um contrato de negócios ilegal que o deixou banido do Cairo por 15 anos.

Liberdade - A partir do momento em que os dois se encontraram, diz Said, "nós não paramos de conversar". "Ambos sentimos que nossa identidade vem de um lugar onde não mais vivemos, e isso nos dá uma relativa liberdade. Mesmo assim, nos sentimos ligados a esse lugar." Foi Said quem apresentou Barenboim a seus amigos palestinos. "Acho que ele, quando crescia em Israel, nunca encontrou um palestino, era como se eles estivessem na Lua." Said impressionou-se com a franqueza de Barenboim. E foi este quem ajudou Said a encontrar um novo foco musical.

Em 1999, eles formaram uma orquestra, The East West Divan, convidando músicos do Oriente Médio para ir tocar juntos em Weimar. A idéia, diz Said, "era promover um encontro simbólico no mundo das idéias e da música, não encontrar uma solução, e sim fornecer uma metáfora bem afastada da política". A música então se tornou a moldura comum, a linguagem abstrata da harmonia. "Ambos concordamos com a supremacia da estética, ambos nos interessamos em saber como lidar com a estética no mundo."

É claro que isso soa impressionante - essa busca por um sistema mútuo, harmonia a partir da discórdia. Mas Said e Barenboim também têm em comum uma certa intransigência diante do mundo, uma falta de compromisso. Ambos fizeram gestos grandiloqüentes - Said na política, Barenboim na música - que causaram controvérsia e, pode-se dizer, trabalham na direção oposta da concordância.

Said, é claro, é um crítico de Arafat e do processo de paz de Oslo. "Reconheço a grande conquista de Arafat depois de 1968, construindo uma identidade palestina", afirma ele, mantendo-se irredutível quanto a Oslo: "Arafat lhes deu tudo só para manter seu poder. Foi o Versalhes palestino. Nunca o perdoei." A posição de Barenboim sobre Oslo é mais inconclusiva: "Não importa o que você pensa sobre o acordo de Oslo. Ele perdeu todas as chances de sucesso quando a velocidade de seu avanço tornou-se tão lenta."

No livro, Said e Barenboim argumentam que há uma falta de compromisso artístico. Mas no mundo político, os críticos de Said poderiam dizer, ele pôs em risco o melhor que poderia ter sido obtido - Oslo - em nome de uma espécie de perfeccionismo, um bem ideal. E pode haver alguns que nunca o perdoarão.

O mesmo poderia ser dito sobre a decisão de Barenboim de tocar Wagner em Jerusalém. Isto foi um gesto grandiloqüente, mais propenso a ofender do que a defender o princípio de liberdade artística, de tocar o que ele quiser, onde ele quiser. "Não tenho de tocar Wagner em Jerusalém, posso tocar meu Wagner em qualquer lugar." Então, por que ele o fez? " É claro que entendo que, para alguns, Wagner evoca associações insuportáveis." Aqueles que não querem ouvir, diz ele, têm a opção de ficar longe. "Não aceito o fato de alguém em casa sofrer porque Wagner está sendo tocado em algum outro lugar."

É um argumento justo, mas que ignora a sensibilidade que consideraria Wagner não um cúmplice do Holocausto, mas um cúmplice da cultura que produziu o nazismo. Na História, pode-se dizer, uma pessoa não se torna inocente só porque está morta, não existe posição neutra.

A questão da motivação determinará como o livro será visto. Se cinicamente, como a verborragia de dois intelectuais privilegiados. Ou otimisticamente, como a boa intenção de duas pessoas. Em qualquer conflito, haverá pessoas de boa e má vontade. No fim das contas, a maneira como seu diálogo e sua amizade improvável forem recebidos dirá muito mais sobre nós do que sobre eles. (Tradução de Alexandre Moschella)

(obtidos em http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/05/25/cad036.html e http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/05/25/cad033.html )

 

 

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