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8:34 p.m. - 2003-06-03 Winston Churchill, o visionário
(obtido em: http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/06/01/cad038.html) Ex-primeiro-ministro inglês, cujo papel na 2.ª
Guerra Mundial foi decisivo, estimulou o historiador John Lukacs a estudar
detalhes pouco conhecidos de sua relação com Stálin, Roosevelt e Eisenhower e a
pesquisar a inspiração que seus atos ainda representam para estadistas atuais
UBIRATAN BRASIL
Em junho de 1940, quando os nazistas estavam prestes a invadir a Grã-Bretanha, o então primeiro-ministro inglês Winston Churchill fez um eloqüente discurso no Parlamento, pregando uma corajosa reação. As palavras, pronunciadas com sua voz penetrante, dicção perfeita e tom emotivo, tornaram-se um clássico da retórica da resistência - em outubro de 2001, quando Nova York ainda vivia o trauma do ataque terrorista de 11 de setembro, o então prefeito Rudolph Giuliani utilizou as mesmas expressões de Churchill para revigorar o espírito de uma nação atacada. "A diferença é que Churchill se agiganta em contraste com as muitas mediocridades que ocupam a cena mundial desde seu desaparecimento", observou o historiador americano John Lukacs, que aprofundou suas pesquisas sobre a 2.ª Guerra Mundial e escreveu Churchill: Visionário, Estadista, Historiador (180 páginas, R$ 25), recentemente lançado pela Jorge Zahar Editor. A obra, em que é analisada a relação de Churchill com Stálin, Roosevelt e Eisenhower, além de sua capacidade visionária (antes de todos, ele percebeu, nos anos 20, que Hitler forjava uma temível unidade do povo alemão), foi publicada nos Estados Unidos no ano passado, quando a reputação de Churchill já estava em alta conta: de George W. Bush a Tony Blair, os grandes líderes mundiais adotaram o 'churchillianismo' para mobilizar o Ocidente em suas novas cruzadas, ou seja, não pactuar com o que julgam a fonte do terrorismo mundial, não aceitar negativas e ainda rebater as críticas com uma ardente eloqüência. Winston Churchill (1874-1965) foi o homem que, em 1940, se pôs no caminho da vitória de Hitler, que, segundo especialistas militares, teria vencido a guerra se tivesse mandado um pequeno exército alemão para a Inglaterra. Ciente do perigo, o primeiro-ministro não esmoreceu e, apesar da inclinação cautelosa do Parlamento em aceitar uma negociação com Hitler, impôs sua vontade. "Assim, enquanto Churchill governou a Grã-Bretanha, Hitler não conseguiu vencer a sua guerra", afirma Lukacs. "E isso não tem relação com o que os líderes atuais estão falando." O historiador, que conversou com o Estado por telefone desde a Filadélfia, faz, em sua obra, uma detalhada análise da relação de Churchill com os grandes estadistas de sua época. Com Stálin, foi uma relação tumultuada, mas ele conseguiu salvar a Grécia do modelo comunista e, se o mesmo não se passou com a Polônia, o país ao menos não foi anexado à União Soviética. Já Roosevelt, apesar da inveja pela vivacidade mental de Churchill, compreendeu que ele era o homem que não cederia a Hitler e, portanto, não perderia a guerra. E Eisenhower era um ideólogo que, na sua luta constante contra o comunismo, chocou-se muitas vezes com o estadista Churchill. "Ele tinha seus defeitos (tolerava, por exemplo, bajuladores e oportunistas), mas sua maior virtude era a magnanimidade. Churchill perdoou muitos, muito e com facilidade." Estado - Nas semanas seguintes aos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 aos Estados Unidos, o então prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, foi descrito como um político "churchilliano" pelo grande envolvimento que ele teve com a cidade. O que o sr. pensa disso? John Lukacs - Isso foi um tanto engraçado. Assisti a uma reportagem de um telejornal, depois do ataque terrorista, em que mostrava um de meus livros, Cinco Dias em Londres, na mesa de Giuliani. Isso provocou inevitáveis comparações feitas pela imprensa americana, mas foi um equívoco, pois Londres não foi bombardeada na 2.ª Guerra da maneira declarada por Giuliani, que provou não ter entendido o livro. Mas não posso reclamar, pois aquela rápida exposição fez com que o livro vendesse muito mais exemplares. Estado - Se não tivesse acontecido a 2.ª Guerra Mundial, como Churchill seria lembrado hoje? Lukacs - Acredito que, sem Hitler na história da Grã-Bretanha, Churchill teria sido uma figura interessante, mas sem dúvida secundária. Mas a verdade é que ainda hoje ele tem uma ótima reputação. A razão é que ele se manteve em pé nos momentos mais cruciais da guerra, especialmente no período entre 1940 e 1941, quando Hitler chegou muito perto de vencê-la. Estado - Como é essa reputação hoje? Lukacs - Além de suas qualidades naturais, Churchill ainda desponta como um exemplo de herói de guerra, principalmente se comparado com os líderes mundiais que surgiram desde aquela época até hoje. Estado - O sr. já tratou Churchill como um visionário. Tratava-se de um dom natural ou ele foi se aperfeiçoando com o tempo? Lukacs - Ele tinha uma surpreendente antevisão da situação mundial, o que a história provou como verdadeira. Bismarck dizia que um grande político podia prever, na melhor das hipóteses, os acontecimentos de cinco anos à sua frente - Churchill comprovou isso. Acredito que ele tanto tinha um dom visionário como também maturou sua percepção com o tempo. Churchill disse coisas proféticas em seus primeiros livros, o que revelava um tremendo conhecimento da história, especialmente a européia. E não podemos esquecer que ele escreveu sua primeira obra aos 23 anos, ou seja, em 1897. Estado - O sr. acredita que Churchill sabia a posição que ocuparia na história do mundo? Lukacs - Não sei dizer. Em geral, todo homem é vaidoso, mas eu não diria que Churchill era particularmente vaidoso. Veja bem: ao final da guerra, quando as pessoas em Londres gritavam seu nome com entusiasmo, colocando-o no céu, ele disse: "Não, a vitória não foi graças a mim, mas graças a vocês." Estado - Como se pode explicar as diferentes visões históricas atuais sobre a atuação de Churchill? Lukacs - Isso acontece sempre, pois a natureza do historiador é ser sempre revisionista. Assim, não é porque tenho uma posição favorável em relação à sua trajetória que vou rejeitar as contrárias. Churchill, é evidente, cometeu muitos erros, mas o que deve prevalecer é uma compreensão da sua complexidade. Estado - Qual outro político do século 20 se equipararia a Churchill? Lukacs - Para mim, foi o general francês Charles de Gaulle que, embora de uma bem forma diferente, teve a mesma visão e coragem e, quando da derrota francesa de 1940, ele recusou o armistício.
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