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5:46 p.m. - 2003-07-13 Novela emblemática, na qual o autor antecipa questões centrais da arte moderna, é publicada com alentado posfácio de Teixeira Coelho, que discute a relação entre arte e vida (http://www.estadao.com.br) MARIA HIRSZMAN Em 1831, três anos antes de idealizar o grandioso projeto da Comédia Humana, Balzac recebeu uma encomenda de uma novela no estilo fantástico, à "maneira alemã", que viria a se tornar uma pequena pérola de sua vasta produção. Essa narrativa, publicada originalmente em dois capítulos - e que posteriormente foi retrabalhada pelo autor, ganhando um novo final -, extrapola as fronteiras da literatura e trata de maneira fascinante questões essenciais da criação artística, da relação entre a vida e a pintura, entre o indivíduo e o objeto de arte. Apontada por muitos como uma espécie de obra premonitória do modernismo, cultuada por figuras emblemáticas como Pablo Picasso e Paul Cézanne (que se identificava profundamente com o personagem principal da novela), A Obra-Prima Ignorada (144 págs, R$ 22) acaba de ganhar sua primeira edição independente no Brasil - até agora os leitores tinham de recorrer às obras completas de Balzac para lê-la. Além de trazer uma nova e cuidadosa tradução, assinada por José Teixeira Coelho, a edição que acaba de chegar às livrarias também traz um extenso e profundo posfácio de sua autoria. A publicação também marca o lançamento de uma nova editora, a Comunique Editorial. Trata-se de um lançamento inovador e um tanto provocativo. Afinal, além de promover um interessante diálogo entre uma obra clássica e a reflexão nacional, o livro também ousa ao trazer na capa as assinaturas de Balzac e Teixeira Coelho com uma dimensão bastante próxima, o que tem incomodado parte dos leitores. É impressionante como, num pequeno texto como esse, Balzac consegue lidar com questões tão essenciais da modernidade. A estrutura da obra é enxuta, com apenas quatro personagens: dois reais, os pintores François Porbus (1569-1622) e Nicolas Poussin (1594-1665), e dois imaginários, Frenhofer e Gilette, a bela amante de Poussin. Existe também uma quinta figura, Catherine Lescault, a modelo da grande tela misteriosa de Frenhofer, apelidada de "belle Noiseuse", expressão que Teixeira Coelho traduz de maneira um tanto inapropriada por "linda pentelha". Além de sua origem chula, o termo "pentelha" é por demais contemporâneo, a léguas de distância tanto da época em que se passa a história (século 17) quanto do período em que foi escrita (século 19). Além disso, o termo - bastante negativo - não tem a sutileza necessária ao personagem e esconde o caráter instigante, mesmo que incompreensível e incômodo, relacionado ao retrato de Lescault. A relação de profunda admiração dos dois pintores reais pelo mestre criado por Balzac é substituída pelo desprezo quando eles finalmente podem ver aquela que Frenhofer via como sua grande obra-prima. O mestre, capaz de pintar as imagens mais perfeitas e proferir grandes verdades, como "a missão da arte não é copiar a natureza porém expressá-la", ou explicar a grandeza de Rafael e o engodo e a impostura de Rubens, subitamente é "desmascarado". Sua grande obra, a pintura a qual se dedica de forma secreta há uma década, não passa de uma "zombaria". "Só estamos vendo cores confusamente espalhadas umas sobre as outras, contidas por uma multidão de linhas bizarras que formam uma muralha de pintura", afirma Porbus. Recepção estética - Esse conflito entre a paixão de Frenhofer por sua obra e a absoluta decepção dos dois outros personagens está na origem da nova tradução dada por Teixeira Coelho ao título da obra. A troca do termo "desconhecida" por "ignorada" aproximou-se muito mais da complexidade de seu conteúdo, ajudando a compor melhor a intrincada relação entre o artista, sua devoção à arte e sua relação com o público. Como Teixeira Coelho indica com precisão, não se trata de um desconhecimento, mas de uma incapacidade de compreensão, de recepção estética. Em seu ensaio, Teixeira Coelho vai desdobrando uma série de questões, revelando pouco a pouco por que essa obra vem sendo tão reverenciada ao longo do tempo, mesclando o ensaio geral com pequenas digressões acerca dos temas tratados. Dentre os aspectos mais interessantes levantados por ele está o fato de que essa pequena obra - com suas contraposições entre vida e arte, entre a existência real e a representação artística - tem um caráter extremamente romântico. A saída aberta pelo escritor ao sonhador Frenhofer que, com sua morte, reafirma o sentido de sua arte, nos coloca diante de um momento de "passagem para um estado de coisas em que o artista conquista, de modo definitivo, sua liberdade, diante de uma larga série de condicionantes, a passagem para um estado em que a arte pode assumir infinitas formas, pode ser várias coisas, uma vez que quem diz que alguma coisa é arte passa a ser o artista que a faz". Jacques Rivette em busca do absoluto da arte Diretor francês adaptou as poucas páginas de Balzac para um filme de 4 horas LUIZ ZANIN ORICCHIO Quando virou filme, o original de Balzac tornou-se La Belle Noiseuse, em francês, e A Bela Intrigante na versão brasileira para o longa-metragem de Jacques-Rivette. Longa? Longuíssima-metragem, poderia-se dizer: são quatro horas de projeção que - console-se, leitor - passam a jato. Rivette, um cineasta tido como contemplativo, dá à sua versão o tom de um thriller artístico, característica que o original literário não tem. Essa novela de Balzac, na verdade, é muito mais reflexiva do que o filme. Várias páginas são dedicadas a algo que poderíamos chamar de "filosofia da arte" quando discute, exatamente, se a função da arte seria registrar o real tão fielmente quanto possível ou se isso seria insuficiente, e se deveria ir além, muito além, registrando na tela alguma coisa mais adiante do horizonte do visível. São esses os diálogos travados entre Frenhofer, Porbus e Poussin. O pintor imaginário Frenhofer disserta aos outros dois suas concepções sobre a arte - o que faz de A Obra-Prima Ignorada (tradução de Teixeira Coelho para Le Chef d'Oeuvre Inconnu) uma novela de idéias. Isto é, algumas teses contrastantes são colocadas na boca dos personagens e debatidas sob a forma de diálogos. No limite, o que se discute é o hipotético absoluto da obra de arte. Discute-se, nesse limite, uma possível transcendência da obra, seu caráter misterioso, irredutível, talvez vagamente fáustico, capaz de levar à loucura quem a ela se entrega de maneira total - como acontece, no texto (mas não no filme), com Frenhofer. No filme, o velho Édouard Frenhofer é vivido por Michel Piccoli. Toda a "ação" é centrada sobre seu relacionamento com a modelo, Emmanuelle Béart. São cenas muitas vezes em tempo real, com Frenhofer tentando extrair, daquele corpo, alguma coisa além dele mesmo. Há um capricho adicional de filmagem: as mãos de Frenfoher, que desenham incontáveis esboços da modelo, são "interpretadas" pelas mãos de um artista de verdade, Bernard Dufur. O enredo proposto pelo filme é diferente do da novela: A Bela Intrigante é o nome do quadro que Frenhofer tinha começado a pintar, usando como modelo sua mulher, Liz (Jane Birkin). Os motivos da interrupção do trabalho não ficam claros no início, mas o espectador atento verá que, apesar de muito mais jovem que o marido, Liz já não apresenta aquele frescor de modelo perfeito para um certo ideal de beleza. Talvez seja isso, mas nada é muito claro. O fato é que Frenhofer decide continuar a obra quando recebe a visita de um casal, o pintor iniciante Nicolas (David Bursztein) e sua mulher, a deslumbrante Marianne (Emmanuelle Béart). O casal é apresentado a Frenhofer pelo marchand Forbus - no texto de Balzac, Forbus também é artista. Os três homens fazem um acordo. Frenhofer recomeçará seu quadro. Nicolas "cede" sua mulher como modelo e em troca exige ver a tela. Forbus comprará o produto final e ganhará dinheiro lançando-o no mercado. Tudo assume a forma de um arranjo conveniente para todas as partes, com a mulher como objeto de troca. Mas o embate real - e esse é o encanto do filme - se passa entre quatro paredes, lá dentro do ateliê, entre o pintor e sua modelo, Frenhofer e Marianne. Lá onde a novela silencia, Rivette faz a festa. Há algo de suplicial na maneira como Marianne entrega seu corpo ao olhar do pintor. Mas, claro, esses encontros passam a ter uma conotação sexual que nunca flerta com o vulgar. Há uma sensualidade na arte, que lhe é própria. Às vezes, ela se traduz de forma verbal. Em sessões que se assemelham a verdadeiras torturas, Frenhoher diz a Marianne: "Eu quero o sangue, o fogo, o gelo, tudo o que existe dentro de você". Ele quer mais do que a aparência, embora só possa contar com a aparência para ir além dela. Esse, o paradoxo fértil da arte. Há muitos filmes sobre pintores. A Bela Intrigante é um raro filme sobre a pintura. O fascínio de 'O Amor Mascarado' Novela foi publicada em Paris apenas em 1911, mais de 60 anos depois da morte do autor (http://www.estadao.com.br) O Amor Mascarado é uma novela de Balzac não incluída nas obras completas do autor da Comédia Humana. Está sendo agora publicada em português pela Bom Texto (143 págs., R$ 30). Informa a editora que o texto foi escrito como presente de Balzac à duquesa de Dino, onde ficara hospedado. A novela foi publicada em 1911 pela Editora La Renaissance du Livre, de Paris. A versão brasileira é de Carlos Ancêde Nougué. A apresentação caprichada inclui a transcrição integral do prefácio da primeira edição francesa e um posfácio de Antonio Olinto. O Amor Mascarado (título original: L'Amour Masqué ou Imprudence et Bonheur) traz uma história curiosa. Um oficial de cavalaria, Léon de Préval, conhece uma jovem mascarada num baile do Opéra. Sente-se atraído e tenta conquistá-la. Depois de muitos rodeios ela marca um encontro para o dia seguinte. Ele concorda em deixar-se levar até lugar desconhecido, com os olhos vendados. A aventura é ponto de partida para uma série de infortúnios do protagonista. Ele tentará por todos os meios descobrir quem é essa desconhecida que lhe deu uma inesquecível noite de amor. Para o leitor brasileiro, é interessante notar que se encontram ecos de O Amor Mascarado no livro de um ficcionista bissexto, Paulo Emílio Salles Gomes, o grande ensaísta do cinema brasileiro. No fim da vida, Paulo Emílio lançou um volume chamado Três Mulheres para Três PPPs, contendo três novelas. Duas Vezes com Helena é o nome de delas. Foi filmada por Paulo César Saraceni e muitos anos depois por Mauro Farias. Como no texto de Balzac, fala de uma mulher misteriosa, que precisa de um homem apenas por uma noite, para ter um filho. Os motivos das duas mulheres divergem. Mas a Helena de Paulo Emílio é tão intrigante quanto a Elinor de Roselis de Balzac. A literatura mantém esse tipo de diálogo interno, ao longo de gerações, ou talvez tudo não passe de coincidência. Para o leitor de Balzac fica aquela sensação de engenho na construção da trama que caracteriza o autor. No início tudo parece muito simples. Simples demais, romanesco, folhetinesco, com aquele tipo de coincidência forçada, forçada. No entanto, a trama vai atingindo grau de complexidade surpreendente. Há um momento de confusão de identidades, quando Léon declara-se a Elinor sem saber que ela é a mascarada da festa. Nessa passagem, alguma coisa da natureza do ciúme e do enamoramento desvela-se ao leitor. Genial. (L.Z.O.)
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