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8:45 a.m. - 2005-04-04 São Paulo, segunda-feira, 04 de abril de
2005
Momento pode expor
progressismo risível
LUIZ FELIPE PONDÉ ESPECIAL PARA A FOLHA Na América Latina é comum se dizer que o
pontificado de João Paulo 2º
estabeleceu uma desconstrução brutal da ala "progressista" da igreja, perseguindo os representantes da chamada Teologia da Libertação. É comum também apontar para uma crise na "qualidade intelectual" das camadas recém-chegadas ao clero, e muitos afirmam que essa "carência intelectual" serve à revolução conservadora estabelecida desde 1978. Em meio a escândalos de pedofilia e posturas intransigentes com relação a "evidentes avanços modernos" (direito ao aborto, ao uso de contraceptivos, ao casamento do clero, à "eutanásia carinhosa", à abertura para o outro, etc), a igreja estaria imersa num momento de escuridão. Muita gente bem intencionada e com razoável repertório cultural percebe que a Igreja Católica e seu oficialato está aquém das demandas de um mundo que se revira no abismo de mudanças vertiginosas, oferecendo nada mais além de variedades de "marxismo à la Cristo" ou de "aeróbicas de Jesus", fincada numa espiritualidade preocupada com o "marketing do contentamento". Valeria a pena acrescentar que a pobreza de espírito não parece ser patrimônio exclusivo dos oficiais católicos (talvez lhes falte apenas mais estilo), mas fato indesejável em qualquer das instituições oferecidas no mercado religioso, além de transbordar para instituições não-religiosas de vocação formadora que também barateiam tudo na esteira da grosseira e risível ideologia da felicidade: do metafísico ao psicoterapeuta e ao professor, todos querem agradar. É como se o árduo trabalho da inteligência estivesse órfão. Talvez fosse interessante pensar que o freio que parece ter significado este longo papado (na realidade, tudo que se refere a Igreja Católica e seus 2000 anos pede cuidado e lentidão na apreciação dos fatos) representa um excelente momento para nos indagarmos sobre algumas dessas "obviedades conservadoras", principalmente quando grande parte das atitudes "progressistas" fazem uso da mesma violência ideológica discriminatória no plano da militância. Crenças "corretas"
Por exemplo, critica-se o papa, mas não a cartilha do lobby "progressista". É muito comum nos sentirmos bem quando, entre iguais, reafirmamos nossas crenças "corretas", mesmo que essa reafirmação possa se dar em meio à mesma "carência intelectual", teorias teológicas (ou não) hermeneuticamente tendenciosas, exegeticamente parciais, confusas entre conteúdos sagrados e seculares, usando mediações falaciosas, do jovem oficialato conservador preparado para inviabilizar nossa agenda redentora. Não se trata de negar a dimensão trágica de muitas das dificuldades doutrinárias e práticas na qual se encontra a Igreja Católica. Vivemos de fato num mundo dramático, e muito disso se dá devido à adesão indiscriminada a uma prática de redenção infantilizada. É comum criticar a resistência desse pontificado ao fim do celibato, mas esse mesmo ocidental "progressista" acha facilmente chique o celibato entre lamas. Será que a sociologia "provou" que a igreja detém o monopólio da indústria da pedofilia e também "provou" que isso se dá devido ao celibato? Evidentemente é um grande risco combater o uso de ferramentas que nos ajudam a deter a Aids, mas não é proporcionalmente tão óbvio reconhecermos que as mediações pedagógicas utilizadas na formação dos mais jovens estão na realidade entregues a muitas teorias e pessoas (religiosas ou não) que não sabem o que fazer com a derrocada das práticas afetivas e sexuais, profissionais que muitas vezes se escondem atrás de frases de efeito feitas para agradar a auto-estima, produzidas por especialistas de plantão (também "carentes intelectualmente"). Na realidade, a redução de certas práticas no campo das relações interpessoais também não seria um mecanismo seguro no enfrentamento de riscos? Evidentemente que isso dá mais trabalho. O reconhecimento "alegre" da facilitação do aborto, regra básica de respeito aos casais que querem se libertar da mecânica reprodutiva (incomodamente) associada ao nosso prazer, é muito mais auto-evidente do que a percepção de que se há reificação do "humano" nas práticas capitalistas, por que não haveria na higiene cirúrgica que nos liberta do embrião? É claro que só uma metafísica materialista (ou má-fé) pode sustentar essa higiene sem dramas. Argumentos do tipo "continuam a existir abortos ilegais" são falaciosos se quisermos refletir com cuidado sobre o tema, uma vez que a continuada existência de assassinatos não é suficiente para a legalização do homicídio. Isso para não tocar em outros temas como nossa ambigüidade entre reificar embriões (e pacientes terminais) para nossa redenção científica e a dura percepção de que uma defesa irrestrita da existência biológica (ou da liberação mais rápida desta) é função da restrição da idéia de moral ao campo da ética secular e a necessária exclusão da noção de santidade (que nada tem a ver com essa coisa de contentamento, mas que acabamos, graças a uma teologia em crise de identidade que se fez humilde serva das ciências sociais, acreditando que de fato santidade é coisa só de manobras políticas e que "aqueles caras" nunca foram de nada mesmo). Affaire entre humanos
Há algum tempo o cristianismo vem se tornando um affaire unicamente entre humanos (e isso nada garante que sejamos menos violentos, porque se já se matou "em nome de Deus", não esqueçamos que o humano mata em seu próprio nome muito mais). Na realidade, a possibilidade de que um papa possa levar a sério a idéia desse "negócio de cristianismo" estar "para além do humano" (sem excluí-lo) nos parece de mau gosto. E, no fundo, dá medo: santidade implica a noção de distinção do comum, de descentramento do humano e suas manias narcísicas e de superação do amor por si mesmo. Religião só como cultura, e isso significa necessariamente que não seja levada a sério. E isso nos leva a mais uma faceta com relação às dificuldades teológicas e sociais desse papado: um diálogo inter-religioso que visaria nos levar ao Vaticano. A dificuldade é que num processo deste tipo, elementos definidores da identidade teológica dos sistemas religiosos são necessariamente postos em cheque (a não ser, por exemplo, que não discutamos exatamente os pontos que nos fazem ser o outro de alguém). É fácil falar em dialogar mantendo sua identidade teológica, o difícil é continuar o diálogo para além dos "eventos sociais para o diálogo". Evidentemente que qualquer pessoa razoavelmente culta em termos teológicos sabe da tendência das correntes monásticas para um monoteísmo livre de descrições positivas discriminatórias. O problema é como fazer discernimento sem incorrer em discriminação: a tendência é ficar na anomia ou no ecletismo retórico. Ou assumir que não dá para fazer diálogo só em festa. E isso nada tem a ver necessariamente com começar a brigar. Enfim, o pêndulo histórico-teológico que representou o papado de João Paulo 2º, com seu irritante (suposto) anacronismo, pode nos servir para elevar o nível da discussão, variar nossa cartilha, e perceber que, para João Paulo 2º, o cristianismo é religião, e não cultura. Quem sabe assim possamos deixar nus o conservador grosseiro e o progressista risível, amedrontados diante da impenetrabilidade do mundo. Luiz Felipe Pondé, filósofo, professor do
departamento de teologia da
PUC-SP, da faculdade de comunicação da FAAP e professor pesquisador convidado da Universidade de Marburg (Alemanha). São Paulo, segunda-feira, 04 de abril de 2005
CARLOS HEITOR CONY O homem chamado Karol RIO DE JANEIRO - Perde o mundo o seu personagem mais importante em termos de mídia e, paradoxalmente, o mais colorido, apesar de sua condição histórica de ícone branco do Ocidente. Não vem ao caso discutir a sua atuação como líder de um bilhão de crentes, tampouco seu ideário e sua pregação política e social. São, desde já, e serão por muito tempo ainda, uma questão para a história se preocupar, de qualquer forma definindo-o como um dos grandes vultos do século 20 e começo do atual século. No momento, o que importa registrar é o impacto de sua presença em nosso tempo, não apenas no largo período de sua exposição mundial, maior e mais profunda do que a de qualquer político ou pop star. Para isso contribuíram não apenas a força e a pertinácia de sua pregação religiosa mas a surpreendente e até certo ponto dolorosa transformação de sua imagem. A do operário polonês Karol Wojtyla em papa João Paulo 2º. Quando apareceu pela primeira vez na sacada da basílica de São Pedro, deu a impressão de ser um imenso, um poderoso jogador de rúgbi, afogado por equívoco nas vestes de pontífice recém-eleito, falando um italiano duvidoso, pedindo que o corrigissem toda vez que cometesse um erro de comunicação. Foi chamado pela imprensa do mundo inteiro de "atleta de Deus". E tivemos conhecimento de seu passado, de sua vocação tardia, de suas experiências de ator e de autor teatral, de sua vivência de "scholar" e de sua voz grave e até mesmo majestosa, cantando e gravando músicas folclóricas e religiosas. Nos últimos anos, o atleta se apresentava como o ancião combalido, obstinado em continuar homem, homem de Deus e papa. Conservador que herdou e defendeu uma tradição e uma doutrina de 2.000 anos, Karol Wojtyla abriu e fechou uma página que o credencia a ser um dos maiores papas da história e um nome, mas sobretudo um vulto branco que tão cedo não desaparecerá das retinas de todos nós.
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