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12:40 a.m. - 2005-08-01
O último afrancesado, por Mario Vargas Loosa

O Estado de São Paulo, 31 de julho de 2005
 
O último afrancesado
por Mario Vargas Llosa
(Tradução de Alexandre Moschella)

Eu o vi logo depois que entrei no La Hune, livraria do Boulevard St. Germains, escorrida a meio caminho entre La Flore e Les Deux Magots. Andava estrategicamente pelas estantes do fundo, onde era menos visível para os empregados do local, simulando olhar a mesa das novidades, mas na verdade lendo um livro. Reconheci-o imediatamente, mesmo sem vê-lo há pelo menos 20 anos. Já na última vez em que nos encontramos, lá pelos anos 1980, havia aperfeiçoado sua técnica de viver sem um centavo nem explorar ninguém, e, além disso, passar várias horas lendo o mesmo livro, indo de uma livraria para outra em Paris.

De acordo com os meus cálculos, deve ter uns 87 ou 88 anos, ainda que no seu passaporte, que por vaidade mandou suavizar para viver em eterna juventude, figura como se tivesse 20 anos menos. Observo-o discretamente e me surpreendo como se conserva bem. Esbelto, muito bem barbeado, está de short e sandálias e uma camiseta esportiva que deixa parte de seu peito e braços nus. Não há como saber se esses cabelos tão bem assentados fazem parte de um aplique. Uma das muitas lendas sobre ele que circulavam era que, uma vez, na praia de La Herradura, em Lima, uma grande onda que o pegou deixou-o calvo e assim o mundo soube que usava peruca. Se fosse verdade, ninguém diria: esse aplique do qual estamos falando já se fez carne de sua carne e pertence ao seu corpo tanto quanto seus ossos e seu nariz aquilino. Sua técnica para ler de boné é impecável. Está profundamente concentrado no livro que lê - mais tarde descobrirei que é um ensaio de Wittgentein - mas, ao mesmo tempo, a cada instante se movimenta um pouco para dissimular e sua mão livre finge se interessar por um dos títulos expostos sobre a mesa, e o movimenta e muda de lugar, com muito cuidado e equilíbrio.

Digamos que se chame Alejandro. Quando o conheci, nos anos 1960, aqui mesmo, em Paris, já era uma lenda viva. Creio que acabara de ser vítima do famoso seqüestro de depósitos bancários, em Lima, uma estafa descomunal em que muitos poupadores peruanos perderam até a camisa. Alejandro foi um deles. Era um engenheiro calculista, muito competente ao que parece, que trabalhava feito uma formiga para poder passar suas férias em Paris, indo ao teatro, à ópera, às exposições, aos concertos e comprando livros. Porque sempre foi um apaixonado pela França, em todas as suas manifestações culturais. Não um criador, mas um consumidor incansável e ávido de cultura francesa.

Quando perdeu até o último centavo no seqüestro das cadernetas de poupança, tomou uma decisão audaciosa: ficar para sempre em Paris, acreditando, sem dúvida, que se fosse inevitável morrer de fome, era preferível tirar o time de campo em sua amada Paris. Alugou, então, um quarto minúsculo no oitavo andar de um edifício sem elevador onde, segundo minhas informações, ainda vive. Talvez esses oito andares que sobe e desce pelo menos duas vezes por dia sejam o segredo de sua magreza e excelente saúde. Ninguém o ouviu se queixar da quebradeira econômica que fez dele um solene pobre. Ninguém jamais ouviu Alejandro se queixar da dureza que deve ser sobreviver meio século em Paris sem um centavo no bolso. Alejandro jamais pediu emprestado um centavo a nenhum mortal. Não acredito que alguém jamais tenha ouvido Alejandro se queixar de alguma coisa. Ao contrário, quem conversou com ele sentiu-se sempre contagiado com a sua alegria de viver, seu entusiasmo diante das coisas bonitas que oferece aos espíritos sensíveis sua encantadora Paris. E não há revista ou agência de turismo ou matre de hotel que possa, como Alejandro recomendar melhor o espetáculo, o filme, o recital, o restaurante, a boate, a passarela ou o concerto indispensável assistir, ouvir ou degustar se alguém passa por Paris, sob pena de lesa cultura.

Como faz para ver todas essas coisas e fazer tudo que faz? Graças a uma credencial de jornalista cultural que um jornal de Lima franqueou para ele e que já deve estar quase ilegível depois de tantas décadas de manuseio. Mas graças a ela, Alejandro recebe convites para todas as estréias, todas as inaugurações e assiste aos ensaios gerais das óperas e concertos, nos quais, além do mais, como crítico, sempre o presenteiam com os programas e o colocam em lugares privilegiados.

E como faz, Alejandro, além de alimentar seu espírito dessa maneira engenhosa, para aplacar também, quem sabe minimamente, os pedidos de fome de seu estômago? A julgar por sua invejável magreza - desde que entrei na La Hune, eu o vi se locomover, bem devagar, por meia livraria, sem tirar os olhos do livro que está lendo -, deve ser um homem frugal, um asceta. Antes, os peruanos que passavam por Paris, a quem conduzia pelos museus e teatros, para quem tirava entradas, fazia reservas e ajudava a comprar bons livros e quadros valiosos, o convidavam. Nunca ninguém se atreveu a oferecer dinheiro para esse cavalheiro incorruptível, mas, em contrapartida, todos sabiam que aceitava de bom grado ser convidado para ir a um restaurante de luxo, no qual, além disso, escolheria o vinho e passearia, com o gosto de um extraordinário gourmet, entre os manjares do menu. Talvez, como os camelos, Alejandro tenha aperfeiçoado a arte de conservar no estômago parte daqueles banquetes, para ruminar essas reservas em tempos de vacas magras.

Mas a maior parte desses amigos bem de vida que o convidavam já morreram ou são ruínas humanas incapazes de viajar, de modo que, imagino, Alejandro depende agora, principalmente para manter as calorias indispensáveis, dos convites das amizades que foi costurando neste meio século de vida picaresca parisiense que tem nas costas. Eu o vejo muito bem percorrendo uma série de casas de relíquias vivas, em Passy ou Meuilly, onde é recebido com entusiasmo na hora do chá por causa de sua conversa amena e sofisticada.

Nunca conheci seu "chambre de bonne", mas imagino esse cômodo pequeno e alto tão imaculadamente asseado e ordenado como a sua pessoa. Não há dúvida que ele mesmo passa suas roupas. Quem o faria, senão ele? O short e a camiseta que está vestindo não têm uma mancha, nem um amassado, parecem ter sido retirados agora dessas lavanderias para milionários, que além de lavar, passar e pendurar a roupa, a perfumam e a engomam.

Será que uma pessoa tão solitária como Alejandro já teve medo da morte? Coloco minhas mãos no fogo que nunca, jamais. Aposto que a espera com tranqüila indiferença de quem sabe que é uma estupidez rebelar-se contra o irremediável. Além disso, sei também que há quatro décadas leva consigo umas pastilhas que evitarão o que para ele, que é um cavalheiro e um esteta, o horroriza: não a morte, mas uma agonia indigna, babona e gagá. Para isso, carrega essas pastilhas, que engolirá com um copo d'água assim que a decadência se avizinhe, sem o menor tremor no pulso, o que garantirá a ele uma passagem rápida, tranqüila e elegante. O problema, se bem me recordo, era que essas pastilhas tinham data de validade e cada vez que venciam, custava mais trabalho obter a receita médica necessária para renová-las. Mas tenho certeza de que sua ilimitada inteligência também resolveu esse problema.

Por que Alejandro prefere ler nas livrarias, arriscando-se que lhe chamem a atenção ou expulsem, em vez de fazê-lo nas bibliotecas públicas, que costumam ser gratuitas? Talvez porque esse risco o agrade tanto quanto os livros, talvez porque esse perigo acrescente um pouco de condimento a suas leituras, ou talvez mais rasteiramente porque Alejandro gosta de ler livros de atualidade, recém-saídos do prelo, sem esperar que passem meses ou anos que as novidades demoram para chegar às estantes das bibliotecas públicas. Quando, afinal, decido interromper sua leitura para cumprimentá-lo, me reconhece imediatamente. Estende a mão caloroso, pergunta da minha família e do meu trabalho e lembra a distância do país de onde viemos. Sorri, com a amabilidade de sempre, e recomenda o ensaio sobre Wittgenstein que está lendo. "Ainda que pelo tema não pareça, está cheio de humor", precisa ele. E, é verdade, eu o vi rir várias vezes, divertido, enquanto o espiava. Já havia dado uma volta quase completa na La Hune, de modos que provavelmente não terminará de ler este livro ainda hoje. Talvez vá terminá-lo na FNAC, que está próxima, na rue de Rennes, ou guarde a curiosidade até amanhã. Porque Alejandro lê os livros por capítulos, como os outros vêem as telenovelas.

Se houvesse justiça neste mundo, o Estado francês deveria condecorar Alejandro e concedê-lo uma pensão vitalícia em agradecimento pelos serviços prestados à cultura francesa. Ninguém manteve tanto quanto ele, a custa de tantos esforços, o mito de que Paris é a capital cultural universal, o faro do espírito, o Partenón moderno das idéias e das artes. Fez ao longo de toda sua vida, com total desinteresse e sem custar nada aos contribuintes franceses, por puro amor à France eternelle, a de seus pensadores, poetas e artistas. E deveria fazê-lo, além de tudo, porque, do jeito que vão as coisas, temo que não existam muitos de sua estirpe, que talvez Alejandro seja o último afrancesado.

 

 

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