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10:48 p.m. - 2005-11-13
Caixa de DVDs do diretor Carl Dreyer - publicado no Estadão

CADERNO 2 O ESTADO DE S.PAULO

Domingo, 13 de Novembro de 2005
A transcendência de Dreyer
Selo Magnus Opus lança os principais filmes dirigidos pelo grande cineasta dinamarquês
 
Antonio Gonçalves Filho

 
Os filmes do cineasta dinamarquês Carl Theodor Dreyer (1889-1968) são aparições miraculosas. Na seqüência mais impressionante de A Palavra (Ordet, 1955), uma morta é ressuscitada pelo poder do verbo, por um homem que ficou louco de tanto estudar Kierkegaard e acredita ser Cristo reencarnado. Antes reservado às salas de cineclubes, o "milagre" de Dreyer está agora ao alcance de todos com o lançamento de duas caixas contendo seis filmes do diretor, lançadas pelo selo Magnus Opus. Elas trazem dois de seus filmes mudos (A Quarta Aliança da Sra. Margarida, O Martírio de Joana d'Arc) e quatro falados (Dias de Ira, Mikael, A Palavra, Gertrud), além de um curta-metragem e um documentário sobre o diretor que marcou o cinema europeu, de Bresson a Lars von Trier.
 
Ver todos esses filmes em conjunto permite, mais que uma experiência teofânica (ou hierofânica, que seja) uma oportuna reavaliação da postura moral de Dreyer. Numa época marcada por conflitos sociais e um temeroso apelo à "ordem" no continente europeu - como reação aos recentes distúrbios na França, Bélgica e Alemanha -, filmes como Dias de Ira e O Martírio de Joana d'Arc deveriam ser exibidos em praça pública. Ambos tratam do tema da intolerância (religiosa, política) ligada principalmente à repressão das liberdades individuais em nome da "salvação" e "pureza" de uma sociedade, de uma raça ou de uma cultura. Esse é o tema de Dreyer por excelência: a trajetória de seres independentes que escapam dos códigos morais de sua época e são punidos por sua desobediência.
 
Na maior parte dos 14 filmes de Dreyer, esses seres são mulheres, o que faz do diretor dinamarquês um protofeminista, ao eleger heroínas do tipo Joana d'Arc, queimada pela Igreja Católica como bruxa e depois canonizada pela mesma como santa. Ou a mulher casada de Gertrud, que abandona o marido para viver uma grande paixão adúltera. Ou, ainda, a mulher do velho pastor de Dias de Ira, acusada de praticar bruxaria para matar o marido e ficar com o enteado. Com temas como esse, surpreende que a crítica mais conservadora tenha imposto a Dreyer o estigma de cineasta a serviço do protestantismo.
 
Apesar de crente (filho de mãe solteira, Dreyer foi adotado por um rigoroso tipógrafo luterano), o cineasta forrou seus filmes de imagens sensuais, como a sugestiva cena do pastor de A Quarta Aliança da Sra. Margarida enfiando a mão num tear para apalpar os seios da tecelã (isso em 1920). Outra prova de resistência aos códigos morais de sua época é um filme menos conhecido, Mikael (1924), baseado na novela homônima de Herman Bang. Nunca lançado em vídeo, o filme ficou esquecido e ressurge, 81 anos depois, como uma ousada reflexão sobre o conflito artístico entre a academia (representada pelo velho pintor aristocrata Claude ) e a modernidade (seu aprendiz e amante Mikael), conflito esse agravado pela entrada de uma condessa russa no incômodo triângulo homoisósceles.
Em Gertrud (1964), que marca a despedida do cineasta, essa assimetria é ainda mais evidente. A conclusão de Dreyer sobre o significado da experiência amorosa leva, mais uma vez, ao beco emocional do indivíduo inábil para exprimir o que sente. Ao abandonar o marido, compreensivo e disposto a um "arranjo", Gertrud despede-se com um pequeno gesto, como se fosse o próprio Dreyer acenando para o espectador com a mensagem: siga seu sonho, aconteça o que acontecer. O destino da insatisfeita esposa, incapaz de se comunicar com o marido (eles nunca se olham) é o absoluto isolamento provocado pela falsa idéia de amor.

Esse tema já havia sido explorado de outra maneira em A Palavra (Ordet, 1955), sua obra mais radical, sobre a busca de uma verdade espiritual incapaz de ser percebida a não ser pelo amor. De alguém que já havia dirigido um filme como Páginas do Livro de Satã (1920), sobre os males causados pelo "demo" em diversos momentos históricos, fazer um filme sobre uma presença luminosa (e numinosa) exigia um ajuste da câmera a uma posição ética irreconciliável com o inferno da paixão. Dreyer rompe com a representação naturalista. Seus personagens se movem como se estivessem hipnotizados, paralisados pela própria rigidez. Em suma, com emoção contida.
 
Sendo uma alegoria sobre a fé (ou a falta dela), A Palavra testemunha um milagre cristão que salva uma família em crise. Pode o amor trazer de volta do mundo dos mortos uma pessoa querida? Dreyer transfere para o espectador a tarefa de responder tal pergunta, ao confrontar duas famílias - uma fundamentalista em sua fé, outra cética - e fazer com que o patriarca da primeira (religioso) deseje a morte da mulher grávida da segunda.
 
A Palavra epitomiza a ambigüidade dos inquisidores religiosos de Dias de Ira (Vredens Dag, 1943), que queimam uma velha bruxa em nome de Deus para que ela "conheça" o paraíso. Eles a punem no lugar de todas as mulheres que ousaram concretizar seus desejos, desprezando convenções sociais. Na substituta que fica, mulher de um velho pastor de quem deseja a morte, esse drama cresce em importância pela deserção do amante Martin. Pressionado pela família, ele rejeita o amor da madrasta, submetendo-se à ordem moral da comunidade, um claustrofóbico e arcaico vilarejo do século 17 esplendidamente fotografado por Karl Andersson. Há cenas que parecem saídas de uma tela de Rembrandt. Compreensível. A transcendência, em Dreyer, também passava pelo campo formal. O cineasta representou uma fronteira, que dividiu o cinema em antes e depois dele.
 
 

CADERNO 2 O ESTADO DE S.PAULO

Domingo, 13 de Novembro de 2005
'O Martírio de Joana d'Arc' não é ficção, é visão
Drama sobre a santa que foi queimada como bruxa pela Igreja comove qualquer espectador até as lágrimas

A câmera clarividente de Dreyer produziu uma obra-prima do cinema mudo lançada no pacote de Magnus Opus, O Martírio de Joana d'Arc (1928). É a mesma cópia lançada há algum tempo pela Criterion americana, achada em 1981 num hospital psiquiátrico norueguês e dada como perdida. A única original, aliás. Todas as cópias que circulavam antes dessa data em retrospectivas derivam de uma remontagem feita após a destruição num incêndio dos negativos do clássico de Dreyer. Não é uma cópia perfeita. Tem alguns saltos aqui e ali, mas eles não chegam a comprometer esse grande filme sobre a perseguição, o julgamento e a execução da mártir francesa do século 15, que lutou contra os ingleses e foi entregue aos inimigos por seus compatriotas da Igreja. Mais particularmente, pelo bispo Pierre Cauchon, imoral em sua busca de poder e influência junto aos ingleses.
 
Ao contrário do filme de Robert Bresson sobre o mesmo tema, O Processo de Joana d'Arc, que segue os passos do processo que condenou Joana e rejeita qualquer apelo emocional (sem, no entanto, ser frio), a obra de Dreyer foi marcada pela estética expressionista alemã e pelos vanguardistas russos (especialmente Eisenstein ). Pretendia, sim, envolver o espectador até as lágrimas. Para isso, Dreyer foi cruel com sua estrela Renée Falconetti (Joana), trancando-a num quarto escuro. Tudo para que seu olhar, na seqüência que precede sua execução, traduzisse uma visão epifânica. Falconetti, evoque-se, acabou seus dias louca, exatamente como o dramaturgo Antonin Artaud, que aparece no filme como um religioso.
Não satisfeito, Dreyer impinge ao espectador a dor de acompanhar o sofrimento de Joana na prisão e na fogueira, experimentando seu martírio. Não por acaso, Godard mostra Anna Karina, em Viver a Vida, chorando ao ver o rosto de Falconetti na tela, associando seu drama à via-crúcis da santa. Era a prova definitiva de que Dreyer, ao contar a tragédia da "bruxa" que depois vira santa, antecipou uma discussão feminista sobre atitude e uso do corpo.
 
Censurado na época pelo governo britânico, que acusou Dreyer de ter feito propaganda contra a Inglaterra, O Martírio de Joana d'Arc resistiu ao tempo. Sua modernidade é espantosa. A reprodução minimalista, propositalmente teatral da prisão, transmite ao espectador uma sensação de estranhamento. Coloca-o na posição de invasor, que, impotente, testemunha pelo buraco da fechadura um crime hediondo contra a humanidade. Joana não abdica de sua postura política e moral. O espectador indigna-se com as arbitrariedades do tribunal religioso, que recusa ilegalmente um apelo ao papa e renega o perdão, atributo maior do cristão. Isso explica, em parte, a atração que essa história sempre exerceu sobre autores protestantes (Bernard Shaw, entre eles). O Martírio de Joana d'Arc não permanece como o maior clássico de Dreyer sem justa razão. Ele é mais que um filme. É uma visão.
 
A.G.F.

 

 

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