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10:13 a.m. - 2006-01-22 Estado de São Paulo, 15 de janeiro de 2005
Os três pecados do biólogo ateu
Escritora inglesa responde, em artigo, ao programa de TV anti-religioso do cientista Richard Dawkins Madeleine Bunting * Nesta segunda-feira Richard Dawkins argumentará mais uma vez contra a fé religiosa no programa em duas partes do Channel 4 inglês, The Root of All Evil? (A Raiz de Todos os Males?). A voz dele é uma das mais altas no crescente e estridente coro de humanistas ateus - algo os deixou muito nervosos. Eles chegaram até mesmo a voltar suas inventivas amargas
contra Nárnia (As Crônicas de Nárnia - O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa,
filme de aventuras com criaturas mitológicas).
Sem dúvida, vamos ter um debate sério sobre a crença
religiosa, um dos fenômenos mais complexos e fascinantes do planeta, mas a
suspeita é de que não é isso que esse coro quer.
Por trás de afirmações não consubstanciadas, generalizações e
evidências anedóticas aleatórias, existe um inequívoco cheiro de pânico, pois
eles temem que a religião esteja em marcha novamente.
Há uma grande frustração pelo fato de eles terem sido
enganados pela História, pois por agora devíamos ser todos racionalistas ateus.
A secularização era para ser uma parte inseparável do progresso. Ainda mais
desagradável é o fato de a secularização vir sendo acompanhado do crescimento de
irracionalidades estranhas como os cristais e linhas de energia da Terra. Como
ressaltou G.K. Chesterton, o problema de as pessoas não acreditarem em Deus não
é não acreditarem em nada, mas sim em qualquer coisa.
Há uma angústia subjacente de que o ateísmo fracassou. Durante
o século 20, os regimes políticos ateus acumularam um assombroso e (sem
paralelos) recorde de violência. O humanismo ateu não gerou uma descrição de
eventos e uma ética populares convincentes do que é o ser humano e nosso lugar
no cosmo. Onde a religião recuou, o vácuo foi preenchido pelo consumismo, pelo
futebol e por uma absorção insensata em desejos passageiros. Não sabendo como
responder às grandes questões da vida, nós as colocamos na prateleira -
certamente não desenvolvemos uma admiração e reverência pelo mundo natural que
Dawkins gostaria. Portanto, os humanistas ateus foram traídos pela natureza
irracional e crédula dos seres humanos. Cada vez é mais evidente uma misantropia
na polêmica anti-religiosa de Dawkins e entre seus muitos
admiradores.
Esse é o único contexto capaz de explicar o programa de Dawkins, uma peça de polêmica intelectual ociosa indigna de um grande cientista. Ele usa sua autoridade como cientista para pretender uma certeza num campo em que ele próprio sabe muito bem que não existe nenhuma. Por exemplo, nosso senso de moralidade não pode ser explicado simplesmente como um produto de nossa luta genética pela vantagem evolucionária. O mais irritante é que ele não aplica à religião, o objeto de seus repetidos ataques, uma fração do rigor intelectual ou da curiosidade que tem aplicado à evolução (o que merece elogios). Onde está o entendimento das explanações sociológicas e antropológicas da centralidade da religião? Infelizmente, não há nenhuma evolução de pensamento na posição de Dawkins, pois há muito tempo ele vem dizendo mais ou menos a mesma coisa sobre religião. Há três aspectos do seu programa em que a falta de rigor é
mais evidente. Primeiro, Dawkins é apresentado em Jerusalém. Sua idéia é que a
religião provoca violência e a maioria dos conflitos mundiais pode ser remontada
à fé. Se ao menos eles não tivessem segregado a instrução em Israel e na
Palestina, então a paz poderia vir. Da mesma forma, na Irlanda do
Norte.
Vamos deixar que os cientistas políticos chamem a atenção para
a absurda simplificação dessas lutas políticas por causa de terras, direitos e
recursos, mas assumir um ponto de vista mais amplo. Os seres humanos desenvolvem
identidades coletiva, étnica, nacionalista, religiosa ou política e encontram
nelas uma sensação de pertencer a algo, uma sensação de identidade pessoal e
solidariedade. O problema é de que forma, a determinadas alturas de competição e
ameaça, essas identidades se inflamam numa horrenda violência. Atribuir toda a
culpa à religião é ignorar cegamente as evidências - a tragédia de Ruanda teve a
ver com etnia, o Holocausto foi relacionado com a ideologia política racista.
Crucialmente, o programa fracassa em compreender o moderno fenômeno do
fundamentalismo e como a identidade religiosa é mobilizada numa tentativa de
criar posições de poder dentro de um mundo em rápido processo de globalização e
que esse tipo de violência religiosa é um produto político da célere mudança
econômica e social.
Segundo, Dawkins apresenta uma acusação de 'maus-tratos infantis' contra a educação religiosa, dizendo que esta manipula a mente das crianças, inculcando-lhes o terror do inferno e a danação eterna. Nesse argumento, estou com Dawkins, pois ele está certo no sentido de que muitas religiões têm o horrível hábito de usar o medo para reforçar sua autoridade. Mas isso é apenas parte da história - a religião pode também dar às crianças uma profunda sensação de confiança quando lhes ensina que cada uma delas é preciosa aos olhos de Deus, o respeito pelo dom da vida e posturas éticas. A conclusão dele é de que nenhuma criança deveria ser exposta
à religião até que tivesse idade suficiente para fazer uma escolha e que
qualquer outra coisa seria doutrinação. Mas isto é quixotesco, pois como elas
podem fazer uma escolha sem conhecimento e como podem ter conhecimento sem
tropeçar na acusação de Dawkins de doutrinação? Além disso, o conceito de uma
criança ser mantida como uma lousa em branco, livre da influência dos pais, é
absurdo - ou será que isso só se aplica à religião e, se for assim, por quê? O
que dizer das muitas maneiras pelas quais os pais moldam os filhos (dessa forma
restringindo muitas escolhas) tanto para o bem como para o mal? Não é verdade
que existe um ponto no qual as crianças devem ser encorajadas a desenvolver uma
mente inquisitiva, reflexiva e uma forte estrutura ética - que isso é possível
tanto com ou sem crença religiosa?
Por último, Dawkins volta à velha reclamação de que a religião
'elimina uma fonte de mistério'. Uma vez ele descreveu a visão medieval do cosmo
como 'pequena e confinada'. É um comentário revelador porque mostra uma notável
falta de empatia pela forma como as pessoas de outras épocas e culturas
imaginavam o mundo. Isso demonstra uma terrível pobreza de imaginação. Pense
apenas: quando o raio de experiência da maioria das pessoas era de uns poucos
quilômetros, o mundo deve ter parecido uma entidade vasta e profundamente
misteriosa.
Essa falta de empatia também está por trás da referência de Dawkins a um 'processo de não-pensamento chamado fé'. Durante milhares de anos a crença religiosa tem sido acompanhada pelo pensamento e pela descoberta intelectual, seja a astronomia islâmica, seja a Renascença. Mas seu menosprezo é tão profundo que ele nem se importa em descobrir (numa entrevista ele descartou a teologia cristã exatamente nesses termos). Se isso não é a 'certeza obstinadamente tacanha' de que ele acusa aqueles que têm fé, não sei o que é. Vamos ser claros: está absolutamento certo que a religião deva
ser submetida a uma análise rigorosa, mas tenhamos uma análise que não perca
tempo derrubando argumentos facilmente refutáveis. Também está certo que a
religião conceda espaço para a ciência explicar os processos naturais, mas, ao
mesmo tempo, a ciência tem de admitir que, a despeito dos enormes avanços, ainda
é incapaz de responder a perguntas sobre a natureza do universo - como, por
exemplo, se somos aberrações da evolução num cosmo indiferente. (Nos seus
programas, Dawkins acaba reconhecendo esse ponto.) Dawkins parece querer fazer
uma mágica para a religião desaparecer. É um engano tolo comparável ao de um
grande pensador humanista ateu, J.S. Mill. Ele queria uma mágica para fazer
desaparecer outra parte inescapável da experiência humana - o sexo -, usando um
argumento não diferente do de Dawkins. Ressaltou a violência e o sofrimento
provocado pelo desejo sexual e sonhou com um dia em que todos os seres humanos
não seriam mais infantilizados pela necessidade de satisfação sexual e seria
encontrada uma via alternativa para a reprodução da espécie humana. É tão
verdadeiro para Mill como é para Dawkins: continue sonhando.
* Madeleine Bunting é escritora e colunista do The
Guardian
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