|
4:32 p.m. - 2006-04-18 Sarah, O Círculo Fechado, Menina de Ouro Fabricio Muller
Chegaram recentemente às livrarias três traduções de livros de sucesso lá fora. Sarah (Geração Editorial, 155 páginas) é o romance de estréia de JT Leroy, autor americano de aproximadamente 25 anos cheio de esquisitices, admirado por estrelas do mundo pop como o diretor Gus Van Sant e a cantora Madonna, e que viveu até os 14 anos nas ruas. Seu livro, com um certo fundo autobiográfico, conta a história de um rapaz que desde cedo é vestido de mulher pela mãe - a Sarah do título - para que se prostitua com caminhoneiros gays. Ele vive feliz como prostituto de beira de estrada sob as ordens de Glad Grateful, um cafetão protetor que não hesita em envenenar quem tenta prejudicar suas “moças”. Um dia, porém, ele resolve ir pedir ajuda ao Santo Jackalope, um cervo empalhado que segundo uma lenda ajudava as prostitutas a arranjar mais e melhores clientes. No restaurante onde fica o animal o personagem principal do livro conhece Leloup, cafetão concorrente de Glad que acaba convencendo o rapaz a ir trabalhar com ele. O que acontece dali em diante é uma sucessão de fatos insólitos – como o rapaz ser tido como uma santa (o pessoal de Leloup não sabia que ele era homem) – ou angustiantes – as sucessivas tentativas do rapaz em voltar para Glad. A narrativa de JT Leroy é freqüentemente confusa e desconexa, e o texto - escrito em primeira pessoa pelo personagem principal - não poucas vezes mistura fato e imaginação, dificultando o trabalho do leitor. Mas isto é plenamente justificável dentro do contexto do romance, já que este trata de personagens sem escolaridade, extremamente supersticiosos e que tomam como verdade absoluta qualquer delírio contado por seus pares. E é exatamente esta delirante atmosfera de superstições que é a maior qualidade de Sarah: às vezes o leitor se sente entrando num universo paralelo, onde cervos empalhados têm poderes para ajudar prostitutas, e onde milagres ocorrem a cada esquina. O Círculo Fechado, do escritor inglês Jonathan Coe (Editora Record, 495 páginas) é a esperada continuação de Bem-vindo ao clube, que o Bacana comentou aqui < http://www.bacana.mus.br/edicao_mat.asp?mat=466&e=36 >. Se no livro anterior os acontecimentos políticos na Grã-Bretanha dos anos 70 eram vistos segundo a perspectiva de alguns personagens, em O Círculo Fechado estes mesmos personagens estão vinte anos mais velhos, no começo do século XXI. Em Bem-vindo ao clube o sindicalismo trabalhista inglês está vivendo o início do seu ocaso e o IRA está no auge de suas ações terroristas. Já no livro recém-lançado Tony Blair é o primeiro-ministro do Partido Trabalhista – mas ele é tão ou mais conservador que Margareth Thatcher. Mais do que isto, O círculo fechado mostra a dramática decisão inglesa de se aliar aos Estados Unidos na invasão do Iraque comandada por George W. Bush. Quanto aos personagens, o garoto Paul Trotter, insuportável no primeiro livro, se torna um deputado trabalhista da ala conservadora vinte anos depois. Seu irmão Ben, que nos anos 70 era um jovem sensível, promissor e bom aluno, torna-se um perdedor egocêntrico, trabalhando numa função burocrática e incapaz de terminar seu “grande romance”. Doug Anderton, jovem idealista e socialista em Bem-vindo ao clube, torna-se um jornalista de caráter complexo: mesmo defendendo os mais pobres, mostra-se ambicioso e, às vezes, de poucos escrúpulos. Algo se perdeu de Bem-vindo ao clube para O círculo fechado. A melancolia de Jonathan Coe, assim como o seu estilo limpo e seus personagens bem construídos, continuam lá. Mas a leitura de seu novo livro é bem mais fastidiosa e menos recompensadora do que a do anterior. Deve ser porque em O Círculo fechado não existam mais ilusões. Não só seus personagens não têm mais nenhum tipo de fantasia quanto ao futuro, como o romance como um todo parece querer dizer: “a direita acabou com a Inglaterra, não há mais o que fazer”. Uma conclusão partidária demais para uma obra de arte que se preze, pode-se facilmente contra-argumentar. O melhor fica para o fim: Menina de ouro, livro de contos de F.X. Toole (Editora Geração Editorial, 293 páginas). O autor, falecido em 2002 com mais de setenta anos, era um obscuro técnico de boxe profissional que tentara durante décadas, sem sucesso, publicar suas histórias. Quando finalmente esta coletânea é lançada nos Estados Unidos em 2000, F.X. Toole (que na verdade se chamava Jerry Boyd) já estava lutando contra o câncer que viria matá-lo pouco tempo depois. De todo o modo, o autor pôde acompanhar o enorme sucesso de seus contos e, mesmo sem ter tido tempo de apreciar o resultado final, auxiliou Clint Eastwood na elaboração do filme Menina de ouro, baseado em um de seus contos - e que, como se sabe, posteriormente venceu vários Oscars. Os sete contos do livro tratam de histórias ligadas ao boxe. Eles têm temas como a malandragem, em autodefesa, de um auxiliar de córner que estanca o sangue de boxeadores em lutas; um lutador que vence um combate em que estava programado para perder - e outro que é derrotado apenas por causa da corrupção dos juízes; um deficiente mental que achava que era um grande lutador; a violência das ruas de Los Angeles influindo no esporte. Para F.X. Toole, o boxe é um mundo mágico, intenso, cheio de pessoas com péssimas intenções - mas também repleto de pessoas bondosas e de grande caráter. Menina de ouro é um livro extraordinário: suas histórias são poderosas e envolventes e seus personagens - mesmo quando rapidamente apresentados - são notavelmente bem construídos. E, dentre as sete obras-primas que compõem o livro, uma está acima das outras: é praticamente impossível não se emocionar com Gelo na garrafa.
|