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4:52 p.m. - 2006-04-18 Duas biografias de astros pop Fabricio Muller
Michael Jackson - a magia e a loucura é uma longa (670 páginas) biografia do astro, escrita pelo jornalista americano J. Randy Taraborreli, e que a Editora Globo colocou recentemente no mercado. Resultado de dezenas de anos de pesquisas e de centenas de entrevistas - muitas, inclusive, dadas pelo próprio Michael Jackson -, o livro impressiona pelo detalhismo e, aparentemente, pela fidelidade aos fatos - digo aparentemente porque a biografia é não-autorizada. Isto faz alguma diferença? É difícil responder a esta questão. É óbvio que a personalidade de Jackson é das mais esquisitas - senão a mais esquisita - entre os astros do showbizz internacional, assim como é óbvio que o cantor não é nada eloqüente em revelar fatos misteriosos de sua biografia. Por outro lado, é meio inevitável pensar em sensacionalismo quando se lê o termo não-autorizada - de todo o modo, o autor tenta ser, aparentemente, o mais preciso e sério possível. Em Michael Jackson - a magia e a loucura, J. Randy Taraborreli conta com grande riqueza de detalhes, entre outros assuntos, a infância pobre de Michael - cujo pai era um tirano que batia nos filhos -, a fantástica ascensão do Jackson Five (e, depois, a sua própria), os relacionamentos do cantor, os problemas com a justiça (até abril de 2004, quando o livro acaba), os discos, a criação dos filhos, os problemas com as drogas. Michael Jackson - a magia e a loucura, mesmo sendo uma biografia não-autorizada, é imprescindível para quem é fã ou quem quer saber os caminhos que levaram o menino prodígio negro, que estourou no Jackson Five no finalzinho dos anos 60, a ter se transformado nesta estranha figura branca que fez um grande número de operações plásticas e que usa máscara para sair na rua. Até porque ninguém considera seriamente a possibilidade de que Michael Jackson venha a contar com sinceridade todos os pontos obscuros de sua biografia. Já Anthony Kiedis, o vocalista do Red Hot Chilli Peppers, não tem receio de expor seu "lado ruim": Scar Tissue, lançado recentemente pela Ediouro (335 páginas) é uma autobiografia, escrita com auxílio de Larry Sloman, cheia de sexo, rock - e muitas, mas muitas drogas mesmo. Não é exagero dizer que a parte mais importante de Scar Tissue é o relacionamento do vocalista com as drogas. Kiedis começou a fumar maconha com onze anos - e as fotos de seu primeiro cigarro da substância são reproduzidas no livro. Depois disso ele continuou usando muitas drogas, e em grandes quantidades: em certa época da vida seu vício em heroína o estava destruindo de maneira tão avassaladora que, numa entrevista, o baixista Flea chegou a chorar porque estava com medo que o cantor dos Chilli Peppers morresse logo - esta é uma das muitas partes emocionantes do livro. Se, no difícil início de sua carreira, ele costumava roubar para consegui-las, depois do estouro dos Red Hot a maneira mais comum de Kiedis se afundar no vício era se hospedar num motel vagabundo de beira de estrada e se fechar sozinho com suas substâncias. Mas hoje o cantor está limpo, e é interessante notar que, da primeira vez em que ele ficou muito tempo (em torno de cinco anos) sem utilizar drogas pesadas ele não teve, praticamente, mais vontade de usá-las; agora, entretanto, por alguns momentos em praticamente todos os dias Kiedis sente vontade de se drogar de novo - e é esta luta constante contra seu desejo que o faz ficar mais forte. O segundo principal assunto do livro é o sexo: Anthony Kiedis transou com um número enorme de mulheres na vida, e teve alguns relacionamentos duradouros - normalmente perturbados, ou pelas drogas, ou pelas traições, ou pela personalidade dele e/ou da parceira. De qualquer modo, o cantor passa a imagem de alguém que não tem exatamente uma grande vontade de encontrar uma mulher viver junto de si o resto de seus dias. E, claro, o fã dos Red Hot Chilli Peppers deve estar se perguntando: e o rock'n'roll? Anthony Kiedis não faz muito mais do que dar a sua visão dele dos fatos que ocorreram durante as gravações e turnês. Comentários sobre assuntos como bandas que influenciaram o Red Hot, a sonoridade do grupo ou sua importância no panorama do rock mundial são reduzidos apenas a um mínimo necessário. Por outro lado, são um pouco mais freqüentes os comentários sobre as suas letras, sobre as fases de sucesso - ou fracasso - da banda, e sobre o relacionamento entre os membros do grupo. Anthony Kiedis mostra-se extremamente sincero e sua empatia com o leitor se dá de forma quase imediata. Ele escreve frases "esotéricas" como hoje bebo da fonte universal da criatividade e espiritualidade de maneira tão simples e honesta que consegue o respeito do leitor mais cético. O melhor de tudo é que você não precisa ser fã dos Red Hot Chilli Peppers para gostar de Scar Tissues: eu mesmo, que nunca gostei da banda, li a autobiografia de Anthony Kiedis com prazer - apesar de um ou outro momento menos interessante.
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