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4:55 p.m. - 2006-04-18 Pessoas do século passado Fabricio Muller
Não é nada promissor o início de Pessoas do século passado, do carioca Dodô Azevedo (Editora Rocco, 160 páginas): depois da introdução, escrita por Joel Rufino dos Santos, e de uma apresentação a cargo do próprio autor, o leitor cai num longo e redundante glossário explicativo de "palavras-chave". Não bastasse a chatice que normalmente é ler um glossário, Dodô Azevedo ainda cria verbetes para personalidade e temas para lá de conhecidos, como Madonna, Elis Regina, Getúlio Vargas e Orgasmo Feminino. Depois deste glossário vem um confuso capítulo chamado "Recebendo Mensagens", onde o leitor "vai conhecer um pouco dos personagens" do livro. Finalmente, na página 34 do livro o "espetáculo começa" (a definição, modesta como sempre, é do próprio autor): Pessoas do século passado é uma ficção composta por e-mails de personagens imaginários, todos vivendo num condomínio no bairro Santa Teresa, no Rio de Janeiro, que escrevem sobre o seu modo de vivenciar a passagem do século XX para o XXI. Neste ponto o leitor, teimosamente esperançoso, acha que finalmente o livro "vai engrenar". Doce ilusão. A primeira falha evidente no livro de Dodô Azevedo é que as 38 "personagens" que escrevem os e-mails parecem ser apenas quatro: uma é Eduarda Coutinho, que tem 7 anos e escreve um e-mail gracioso exatamente como uma menina de 7 anos escreveria - quer dizer, a não ser pelo português perfeito demais; a outra é Michael Bloom, um médico de 86 anos que conta sobre o grande amor de sua vida; a outra personagem é um homem, e a última personagem é uma mulher: este homem e esta mulher representam, portanto, as demais 84 personagens de Pessoas do século passado. Por que isto? É porque, com exceção das acima citadas Eduarda Coutinho e Michael Bloom, todas as outras personagens que escrevem e-mails no livro têm insights "originais", são "inteligentes" e, quase sempre, "descolados". É dificílimo saber a diferença entre uma e outra. Pouco importa se o sujeito é advogado, engenheiro, gerente de recursos humanos ou operador de VT: se você é personagem de Dodô Azevedo, sua imaginação vai voar como se você fosse um diretor teatral de vanguarda. Exemplos? Ana Cristina N. Agostinho é uma operadora de VT que analisa longamente as cantigas de roda populares sob um viés politicamente correto; Marina Sampaio Nogueira é uma engenharia-sanitarista que cita Rainer Maria Rilke, Dylan Thomas e Eric Satie; Roberto G. da Costa é um engenheiro que analisa a cultura popular atual e escreve a seguinte frase: "Mickey Mouse já está para Perséfone como o Superman está para Hércules"; Catarina Rossi é uma gerente de recursos humanos de 52 anos que deseja que "neste século esqueçamos o paraíso e passemos a procurar pistas sobre a existência do inferno. Talvez nele esncontremos esperança - e pistache". Não há no livro um engenheiro com jeito de engenheiro, um advogado com jeito de advogado, um arquivista com jeito de arquivista: todos parecem a mesma pessoa (e eu, claro, só dividi as já citadas 84 personagens em um homem e uma mulher prototípicos por motivos óbvios). Mas este, apesar deste ser o mais evidente, a incoerência das personagens nem é o maior defeito do livro: o pior mesmo é que Pessoas do século passado tem pouquíssimos momentos realmente interessantes ou de alguma intensidade narrativa. O livro, em sua quase totalidade, é um exercício de virtuosismo vazio.
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