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4:49 p.m. - 2006-04-18
Partidas de futebol e discos inesquecíveis

Partidas de futebol e discos inesquecíveis

Fabricio Muller

 

Um disco que "salva uma vida" é aquele disco que, num certo momento, faz o ouvinte deste dar uma guinada em sua existência: pode ser aquele primeiro disco de um estilo que seria o mais importante para a pessoa dali em diante, ou aquele que ajudou numa reconcialiação com um parceiro, ou mesmo aquele, religioso, que significou uma iluminação espiritual. São muitos e diversos, afinal, os motivos para que um disco tenha "salvo a vida" de alguém.

 

Já o disco para "levar para uma ilha deserta" é o melhor de todos, aquele que traz mais prazer para o ouvinte, aquele que será a melhor companhia contra a solidão representada pela hipotética ilha.

 

Os conceitos, é óbvio, são muito diferentes. O disco que "salvou a vida" normalmente foi importante num certo momento, e a pessoa pode até não gostar mais dele (mas nem por isso deixa de prestar o seu agradecimento) - o que é impossível no caso do tal disco da "ilha deserta".

 

Uma incoerência que salta aos olhos em "Noite passada um disco salvou minha vida" (título baseado em letras de duas canções da banda inglesa The Smiths), coletânea de textos de organizada pelo jornalista Alexandre Petillo publicada pela Geração Editorial (304 páginas), é que os depoimentos dos convidados, aleatoriamente e sem nenhum comentário a respeito da diferença entre os conceitos, tratam ou de "discos que salvaram a vida" ou de "discos para levar para uma ilha deserta".

 

No livro, mais de setenta pessoas – em sua maior parte músicos ou jornalistas – dão depoimentos individuais a respeito de seus discos marcantes. O tamanho do texto varia muito: o cantor Wander Wildner, por exemplo, utiliza apenas duas páginas para comentar sobre "Para iluminar a cidade", de Jorge Mautner, enquanto que o jornalista Alexandre Matias discorre sobre "Substance", da banda inglesa New Order, em quinze longas páginas. A grande maioria dos depoimentos versa sobre pop/rock, e a MPB está razoavelmente bem representada – por outro lado, outros estilos como jazz, blues, rap, metal e música clássica, são quase que ignorados.

 

Tanto a qualidade quanto o objetivo dos depoimentos - como não poderia deixar de ser numa coletânea com tantos participantes - são bastante variados. Enquanto que alguns analisam o seu disco sob um aspecto puramente jornalístico, outros se concentram apenas no lado pessoal da coisa.

 

Alguns dos textos são tão bons que podem ser lidos com prazer mesmo sem haver interesse na música do disco comentado: entre estes, pode-se citar: a “descoberta da alegria” de Pedro Alexandre Sanches ao conhecer a obra “A tábua de esmeralda”, de Jorge Ben; o brilhante texto do músico Rogério Skylab sobre “Clara Crocodilo”, de Arrigo Barnabé; a engraçada história dos muitos “Nevermind”, do Nirvana, comprados e perdidos por Odersides Almeida; a confissão de Lulu Santos de que esteve a um passo de se tornar um "artista maldito", no comentário sobre o disco de estréia de Gabriel, o Pensador; a experiência religiosa que é ouvir a Missa em Si Menor, de Bach, no texto de Alain de Botton; e a incrível história do músico gaúcho Hique Gomes, que relaciona seus quatro casamentos com a mesma mulher com o disco “Studio Tan”, de Frak Zappa.

 

O livro também tem uma boa quantidade de depoimentos apenas razoáveis, ou de textos que podem agradar apenas os leitores que tenham interesse no disco comentado – mas nenhum deles é tão irritante, indie e pretensioso quanto o de Simone do Valle sobre “Outubro ou nada”, da banda gaúcha Bidê ou Balde.

 

No todo, "Noite passada um disco salvou minha vida" é um disco agradável e interessante, embora, além dos defeitos já citados, precise arrumar outros aspectos em edições posteriores: erros de português pipocam aqui e ali; falta um índice remissivo; e os dados biográficos dos depoentes deveriam estar no início de cada texto respectivo: incomoda um pouco abrir as últimas páginas do livro a cada vez que se queira saber o que fazem da vida os autores.

 

É interessante comparar o livro acima com "Meu jogo inesquecível – 56 partidas emocionantes", coletânea também organizada por Alexandre Petillo, aqui com o auxílio de Odersides Almeida, Olacir Dias e Thomaz Rafael, publicada pela Contato Comunicação (158 páginas). Aqui, os 56 depoentes – em sua maior parte jornalistas e pessoas ligadas diretamente ao futebol - comentam o jogo de futebol mais marcante de suas vidas.

 

O primeiro aspecto que salta aos olhos na leitura desta coletânea é que o futebol é uma experiência vivenciada de maneira muito mais coletiva do que a música: enquanto que nos depoimentos sobre o "disco inesquecível" os depoentes se aprofundam em seus "próprios umbigos", nos jogos de futebol que marcaram é freqüente a participação fundamental de amigos e familiares. Além disso, em poucos dos textos de "Meu jogo inesquecível – 56 partidas emocionantes" - ao contrário do que é comum em textos sobre música - o autor tem a preocupação de se mostrar quase tão importante e/ou brilhante quanto o assunto comentado. Estas características de boa parte dos depoimentos fazem com que o livro sobre jogos inesquecíveis seja, de maneira geral, mais interessante para pessoas que não gostem de futebol do que "Noite passada um disco salvou minha vida" o é para pessoas que não são ligadas a pop/rock.

 

Os destaques do livro são inúmeros, e entre eles pode-se citar: o emocionante depoimento de Ricardo Kotscho sobre o próprio pai em "A tarde das garrafadas", que comenta um São Paulo x Corinthians de 1957; a agonia pela qual André Barcinski passou, em Nova Iorque, para saber como o seu Fluminense foi campeão carioca em 1995 no texto "Título pelo DDI"; a linda história de amor pelos filhos mostrada pelo jornalista Flávio Gomes em "Alexandre, o grande"; o ótimo retrato das características do Grêmio de Futebol Portoalegrense em "Calma!! Calma!!" do músico gaúcho Humberto Gessinger; o gigantesco e engraçado "mico" que o então jornalista esportivo Joelmir Bering "pagou" num clássico Palmeiras x Corinthians realizado em 1961; outro "mico", este de Juca Kfouri, na decisão do Campeonato Paulista de 1977; e a sensacional história de Max Gehringer, que conta como o Corinthians foi derrotado pelo Santos "pelo locutor" em uma partida de 1969.

 

Boa parte dos depoimentos mais fracos são de jogadores, como Marcelinho Carioca, Viola, Roberto Dinamite e Manoel Tobias – todos excessivamente auto-indulgentes. Além disso, algumas das falhas apresentadas no livro comentado acima também ocorrem aqui: falta de índices - neste caso remissivo e analítico - e erros de português. Pelo menos os dados biográficos de cada autor acompanham o seu texto.

 

E, por melhor que seja "Meu jogo inesquecível – 56 partidas emocionantes", fica a amarga impressão de que, para os organizadores, o futebol brasileiro se resume a São Paulo e Rio de Janeiro - e, em muito menor grau,  também a Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Lamentavelmente, o futebol paranaense – assim como o da grande maioria dos estados, aliás - é simplesmente ignorado pelo livro.

 

 

 

 

 

 

 

 

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