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4:51 p.m. - 2006-04-18 Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez Fabricio Muller
O personagem principal e narrador de Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez (Editora Record, 127 páginas), de quem acabamos sem saber o nome, tem um desejo insólito no seu aniversário de noventa anos: dar-se de presente uma “noite de amor com uma adolescente virgem”. Ao pedir uma jovem neste estado para a dona do bordel da cidade onde mora (o autor também não revela que cidade é esta, apenas se sabe que ela se situa na Colômbia), esta lhe responde: “Virgem sobrando neste mundo só as do seu signo, nascidas em agosto”. Mas Rosa Cabarcas, a dona da “casa clandestina, que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha uma novidade disponível” acaba arrumando uma garota virgem de catorze anos, a quem ele acaba apelidando de Delgadina, para satisfazer o desejo do ancião. Na noite em que ia fazer o tal “amor louco” com o narrador da história, a menina fica extremamente nervosa. Para acalmá-la, Rosa Cabarcas lhe dá uma beberagem de valeriana com brometo. Resultado: quando ele chega no quarto do bordel a menina, nua, dorme profundamente na cama - acrescente-se que a ela também tinha um outro trabalho, de “pregar botões”, durante o dia. Ele fica com pena de acordá-la e, às cinco da manhã, o velho volta para casa frustrado porque Delgadina não havia acordado. Ainda pensando na oportunidade perdida, o narrador acaba ligando novamente para a dona do bordel no intuito de conseguir mais uma noite com a menina. Chegando lá, Rosa Cabarcas lhe aconselha a “tratar a menina com cuidado, pois ela ainda sentia um resto de susto da primeira vez”. E ainda tinha mais: “a própria solenidade do ritual havia agravado o medo e tinha sido preciso aumentar a dose de valeriana”, pois a menina dormia com tal placidez que, segundo o ancião, “teria sido uma pena despertá-la sem arrulhos”. Resultado: novamente o narrador volta para casa às cinco da manhã sem fazer amor com Delgadina. Mas desta vez a frustração fora menor: secar o suor da menina enquanto ele cantava para ela tinha sido “um prazer sem limites, pois ela tornava a suar por um lado” quando ele “acabava de secá-la pelo outro, para que a canção não terminasse nunca”. Naquele mesmo dia, o ancião, ao entardecer, enfrenta em casa uma tempestade de curta duração e de enorme intensidade que faz um cano arrebentar e quase destrói seus livros. Durante esta tempestade, o prazer que ele tinha começado a sentir ao lado de Delgadina toma forma de uma maneira quase mágica - é o quando o realista Memória de minhas putas tristes tem tangencia o vagamente fantástico (nunca é demais lembrar que o primeiro grande sucesso de Gabriel García Márquez foi a obra-prima de realismo mágico Cem anos de solidão): “Quando o aguaceiro passou eu continuava com a sensação de que não estava sozinho na casa. Minha única explicação é que da mesma forma que os fatos reais são esquecidos, também alguns que nunca aconteceram podem estar na lembrança como se tivessem acontecido. Pois se evocava a emergência do aguaceiro não me via a mim sozinho na casa, mas sempre acompanhado por Delgadina. Eu a havia sentido tão perto durante a noite que sentia o rumor de seu respirar no quarto de dormir, e a pulsação de sua face em meu travesseiro. Só assim entendi que tivéssemos podido fazer tanto em tão pouco tempo. Eu me lembrava de ter subido no escabelo da biblioteca e a recordava desperta com seu vestidinho de flores recebendo os livros para colocá-los a salvo. Via como ela corria de um lado a outro na casa batalhando com a tormenta, empapada de chuva e com água nos tornozelos. Recordava como preparou no dia seguinte o café da manhã que nunca houve, e que pôs a mesa enquanto secava o chão e punha ordem no naufrágio da casa. Nunca esqueci seu olhar sombrio enquanto tomávamos café da manhã: Por que você me conheceu tão velho? Respondi com a verdade: A idade não é a que a gente tem, mas a que a gente sente. Desde então a tive na memória com tamanha nitidez que fazia dela o que queria.(...)” A partir de então, o narrador passa a freqüentar com grande assiduidade o quarto de Delgadina no bordel de Rosa Cabarcas. Ele começa a decorá-lo, lê histórias para a menina, começa a levar extremamente a sério a relação. E a menina continua, sempre, nua e dormindo quando da estada dele. Qualquer reação da pele dela era suficiente para que ele sentisse amado pela jovem:
“Na noite do seu aniversário (...) beijei-a por todo o corpo até ficar sem respiração: a espinha dorsal, vértebra por vértebra, até as nádegas lânguidas, o lado da pinta, o de seu coração inesgotável. À medida que a beijava aumentava o calor de seu corpo e ela exalava uma fragrância de montanha. Ela me respondeu com vibrações novas em cada polegada de sua pele, e em cada uma encontrei um calor diferente, um sabor próprio, um gemido novo, e ela inteira ressoou por dentro com um arpejo, e seus mamilos se abriram em flor sem ser tocados”. O ancião começa a ficar apaixonado. Mais do que uma paixão em idade avançada, este estranho amor com uma menina dormindo é a primeira paixão da vida dele. O narrador, afinal de contas, morava sozinho e nunca se deitou “com mulher alguma sem pagar”. Lá pelos vinte anos ele começou a fazer “um registro com o nome, a idade, o lugar e um breve recordatório das circunstâncias e do estilo”. Segundo estas contas, até os cinqüenta anos tinham sido quinhentas e e catorze mulheres com as quais ele tinha estado “pelo menos uma vez” - depois disso ele parou de registrá-las porque o “corpo já não dava mais para tantas e podia continuar as contas sem precisar de papel”. Os motivos iniciais que fizeram o narrador sempre escolher o amor pago ao invés do usual foram a sua fealdade e, também, seus parcos recursos: seus pais eram ricos, mas a família empobreceu - só o que restou dos tempos de bonança foi a grande casa em que ele morava. Durante toda a vida ele sobreviveu modestamente graças às aulas que ministrava e, bem menos, graças às crônicas dominicais e a algumas críticas de música clássica que escrevia no jornal local. Mas só isto, claro, não explica por que ele nunca quis se casar: é com grande maestria que García Márquez vai mostrando, aos poucos, como seu personagem era uma pessoa praticamente sem sentimentos, capaz de deixar uma noiva com quem tinha o casamento marcado esperando em vão sua chegada na igreja: o narrador desistir de casar para continuar com suas prostitutas. E este homem, outrora frio, vai se envolvendo cada vez mais neste amor louco: “Havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética. Naquela tarde (...) comprovei que não apenas era possível, mas que eu mesmo, velho e sem ninguém, estava morrendo de amor. E também percebi que era válida a verdade contrária: não trocaria por nada neste mundo as delícias do meu desassossego. Havia perdido mais de quinze anos tratando de traduzir os cantos de Leopardi, e só naquela tarde os senti a fundo: Ai de mim, se for amor, como atormenta.” Não faz sentido continuar relatando o que acontece daqui por diante, para não estragar a surpresa. Por mais que seja inevitável comparar Memórias de minhas putas tristes com romances como Lolita, de Nabokov, o tema principal deste livro extraordinário de Gabriel García Márquez não é o amor de um senhor idoso por uma ninfeta - tema repisado até mesmo pela atual novela das oito, América. Não, o interesse do autor colombiano, prêmio Nobel de 1982, está muito mais no despertar do amor por um homem que sempre fechara as portas para ele. García Márquez parece estar dizendo que a paixão é sempre a mesma, não importa a idade. Mas isto não parece uma “lição de vida” meio simplória para um autor como García Márquez? O livro até poderia ser visto sob este ponto de vista um pouco desfavorável... se os personagens não fossem tão bem construídos (mesmo uma personagem secundária como a empregada do narrador, Damiana, tem uma força expressiva imensa); se a história não fosse tão maravilhosamente insólita; se uma obra tão curta não tivesse tantas tiradas geniais e, last but not least, se García Márquez não escrevesse tão extraordinariamente bem: espero que os trechos que reproduzidos acima dêem ao leitor uma idéia, mesmo que vaga, do fantástico estilo do autor.
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