|
4:58 p.m. - 2006-04-18 Screwjack, Lolita Pille, Gossip Girl Fabricio Muller
“Screwjack” é um livrinho de 78 páginas que se lê numa sentada, lançado recentemente pela Conrad Editora no mercado brasileiro. Seu autor é Hunter Thompson, que se suicidou no início deste ano e que foi o criador do estilo jornalístico batizado de gonzo - aonde o repórter descreve os fatos de modo totalmente particular e em primeira pessoa, de maneira que ele acaba sendo, também, personagem da história (o Bacana comenta mais a respeito dele aqui ). O primeiro, e melhor, dos textos do livro chama-se M.E.S.C.A.L.I.T.O e descreve os efeitos no corpo e na mente de Thompson devido ao efeito de drogas como dexedrina, anfetamina, ritalina e, claro, mescalina. O texto impressiona porque o jornalista descreve os sintomas devido ao uso destas substâncias enquanto ele os está sentindo. Para isto, ele se fechou solitário num hotel de luxo em Los Angeles durante três dias em fevereiro de 1969 acompanhado de sua máquina de escrever - além, é claro, de suas drogas. O texto seguinte chama-se M.O.R.T.E D.E U.M P.O.E.T.A, uma estranha história - com um final violento e assustador - da visita do autor a um amigo que perde uma fortuna numa aposta. Para que se tenha uma idéia da coisa, este amigo é esquisitíssimo, mora num terreno baldio e enlameado que acabou se transformando em camping de trailers, e costuma espancar tanto sua mulher de verdade quanto algumas mulheres infláveis. A terceira e última história do livro chama-se S.C.R.E.W.J.A.C.K, e conta a inclassificável e agressiva relação do autor com um gato, o chamado “Sr. Screwjack”. Paranóico, esquisito, violento, o livro fascina o leitor da primeira à última linha, pelo inusitado das histórias e, principalmente, pelo enorme talento narrativo de Hunter Thompson. Paranóia é o que não falta, também, nos livros da escritora francesa Lolita Pille. Depois do gigantesco sucesso mundial de “Hell - Paris - 75016” (que o Bacana analisou aqui < http://www.bacana.mus.br/edicao_mat.asp?e=23&mat=285 >), a Intrinseca está lançando o seu segundo romance, “Bubblegum” (272 páginas). Se, por um lado, o novo livro de Lolita Pille continua a enfocar personagens riquíssimos que vivem uma vida agitada, sem limites quanto a sexo, álcool ou drogas, por outro agora aparece a primeira personagem central pobre da autora: Manon, uma garota de uma pequena cidade do interior da França que vive infeliz com a sua condição, e que sonha com uma vida como grande atriz de cinema, cheia de riqueza e luxo. Para atingir seu objetivo, Manon larga o pai, que a criou, sozinho na cidadezinha do interior: ela sequer se despede, e não volta a entrar em contato com ele. Depois de um tempo penando como garçonete, ela começa a namorar com o ricaço Derek Delano, herdeiro de uma companhia petrolífera na Venezuela: é quando seus sonhos começam a se realizar. Logo Manon se transforma numa modelo requisitadíssima, capa das mais melhores revistas da Europa e Estados Unidos, e acaba realizando seu grande sonho: ser a atriz principal de um filme importante. Agora nada mais segura a garota do interior, que passa a ter praticamente a mesma vida dissoluta da personagem principal do romance anterior de Lolita Pille, a jovem Ella - e é neste ponto que uma série de acontecimentos surpreendentes, que não serão descritos aqui para não estragar a surpresa, mudam de maneira radical esta situação. Mais ainda que em “Hell - Paris - 75016”, em seu novo livro Lolita Pille não consegue mostrar nenhum ato de bondade no ser humano: suas personagens continuam frias, calculistas, capazes de literalmente qualquer coisa por dinheiro ou diversão. De qualquer maneira, é inegável que a francesa escreve bem; de maneira geral, inclusive, o seu segundo romance é um pouco superior ao anterior - apesar da reviravolta forçada e um tanto absurda do final de “Bubblegum”. A grande maioria das personagens
dos livros da série “Gossip Girl” (lançada no Brasil pela Editora
Record), da escritora americana Cecily von Ziegesar, têm em comum com as de
Lolita Pille o fato de serem riquíssimas, mas as diferenças vão muito além da
simples distância geográfica (as histórias da francesa se passam em Paris e as
da americana, em Nova Iorque): em Gossip Girl as personagens são mais jovens -
ainda adolescentes - e mais comportadas: sua vida sexual está apenas no início e
a única droga ilegal que aparece - e pouco, ainda por cima - é a maconha,
significativamente mais leve que a onipresente cocaína dos livros de Lolita
Pille. Além disso, o tom geral da série americana é descontraído e bem humorado,
ao contrário do baixo-astral paranóico dos romances da escritora
francesa. Os três livros da série publicados até agora, “As delícias da fofoca” (253 páginas), “Você sabe que me ama” (286 páginas) e “Eu quero tudo!” (288 páginas) mostram os conflitos que acontecem num grupo de adolescentes: namoros, fofocas, brigas, perda da virgindade. Embora alguns dos caracteres sejam demasiadamente esquemáticos - como o melancólico e sonhador Dan ou o babaca Chuck - as duas principais personagens da série, a despreocupada e bom-caráter Serena, e a fofoqueira e irritadiça Blair, são muito bem construídas e nuançadas. No geral, embora não sejam exatamente obras-primas, os livros da série Gossip Girl são bem escritos e interessantes. Gostosamente despretensiosos, eu poderia acrescentar.
|