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4:39 p.m. - 2006-04-18 Maus e No bunker de Hitler Fabricio Muller
Comandados por Hitler, os alemães assassinaram friamente - fora do campo de batalha - cerca 6 milhões de judeus, 500 mil ciganos e milhões de pessoas de outras nacionalidades, principalmente do Leste Europeu. Isto sem mencionar a escravização de quantidades enormes de eslavos, do assassinato em massa de prisioneiros de guerra na frente russa, dos maus tratos às populações conquistadas, e por aí vai. A lista de atrocidades é gigantesca, absurda, difícil até de conceber - principalmente levando-se em conta que a Alemanha era (e é, ainda) um dos países mais civilizados, tecnológica e culturalmente, do mundo. Por causa de tudo isso, sessenta anos depois do término do Terceiro Reich ainda é enorme a quantidade de publicações tentando descrever, interpretar - e, quem sabe, até mesmo entender - o fenômeno "Nacional-Socialismo" (o nome do qual "nazismo" é uma abreviação). Por aqui, dois importantes lançamentos chegaram recentemente nas livrarias: "Maus", de Art Spiegelmann, história em quadrinhos vencedora do Prêmio Pulitzer de 1992 (Companhia das Letras, 298 páginas) e "No bunker de Hitler - os últimos dias do Terceiro Reich", de Joachim Fest (Objetiva, 192 páginas), livro que ajudou a inspirar o recente e polêmico filme alemão "A queda", com Bruno Ganz numa muito elogiada interpretação de Hitler. "Maus" conta a história real do autor, Art Spiegelmann, entrevistando o próprio pai nos tempos atuais nos Estados Unidos. Vladek Spiegelmann era casado com uma rica herdeira judia e estava em ótima situação financeira quando Hitler invadiu metade da Polônia (a outra metade ficara com Stalin em 1939) e, aos poucos, foi tirando toda a possibilidade de subsistência para os judeus. "Maus" conta como os familiares de Vladek foram, inicialmente, perdendo seus empregos; depois, suas propriedades; o passo seguinte foi o amontoamento em guetos; e, finalmente, a morte em Auschwitz. O pai do autor de "Maus" acabou perdendo, graças ao à fúria assassina do ditador nazista, os pais, os sogros, seu único filho na época, Richieu, e a maior parte de seus tios e primos. Vladek e sua mulher, Alma, conseguiram se manter vivos e escapar de Auschwitz graças, principalmente, a uma espantosa seqüência de lances de sorte - e também a uma notável tenacidade. Tendo passado por tudo isto Vladek Spiegelmann acabou maníaco, sovina, neurótico, insuportável: conviver com ele era tão difícil que Alma não suportou a pressão e acabou por se suicidar nos Estados Unidos, décadas depois do final da guerra. "Maus", que já havia sido lançado em versões separadas pela Ed. Brasiliense em 1986 (Maus I) e 1995 (Maus II) - a edição da Companhia das Letras, em um tomo só, contém as duas partes -, é uma longa história em quadrinhos, extremamente bem realizada e com desenhos muito expressivos. Além disto, há no livro uma metáfora óbvia, mas muito eficiente: os judeus são sempre mostrados como ratos, os alemães como gatos e os americanos como cachorros ("Maus", inclusive, significa "rato" em alemão). Mas, provavelmente, a maior qualidade de "Maus" esteja no fato de que ele foge totalmente do estereótipo "alemão malvado x judeu vítima e bonzinho" mostrando, como mencionado acima, um Vladek Spiegelmann intolerável - aliás, a coragem do autor em mostrar tão cruamente a própria família também deve ser ressaltada. Como o jornalista do The Times escreveu na citação que está na orelha da edição brasileira, mesmo que todos os personagens de "Maus" estejam na pele de animais, eles são "terrivelmente humanos". Já "No bunker de Hitler - os últimos dias do Terceiro Reich", do respeitadíssimo historiador Joachim Fest (autor da mais famosa e mais respeitada biografia do ditador nazista, a qual aliás teve recentemente relançado seu primeiro volume no Brasil, pela Nova Fronteira), conta os últimos dias na vida do Führer, em 1945, enclausurado no bunker no subsolo do Edifício da Chancelaria em Berlim - enquanto os russos tomavam a cidade numa sangrenta batalha, rua a rua, casa a casa. O Hitler que emerge do livro, segundo o próprio Fest, é um verdadeiro "líder de gangue". Levando seu darwinismo social às últimas conseqüências, o Führer pouco se preocupava com o destino de seu próprio povo. Se os alemães fossem derrotados, pensava ele, então não mereceriam viver: no final da guerra, Hitler inclusive chegou a ordenar a seu superministro e confidente Albert Speer a destruição total da infraestrutura da Alemanha (no que não foi obedecido, aliás: e o fato de Speer não ter sofrido nenhuma represália por sua desobediência é um fato que até hoje intriga os estudiosos). Segundo Fest, esta mentalidade de "líder de gangue" era tão entranhada no ditador nazista que ele mal sabia o que fazer com as terras conquistadas: o que lhe interessava sobretudo era conquistar terras - de preferência com grande derramamento de sangue. Apesar de descrever com precisão e brilhantismo a atmosfera opressiva e deprimente do bunker, além de mostrar o ditador nazista tendo momentos de euforia ensandecida , de ódio violento ou de simples fatalismo, "No bunker de Hitler" é muito mais um registro histórico que psicológico - e é por isto que a tão comentada "gentileza" do ditador com as secretárias, mostrada no filme "A queda", simplesmente não é citada no livro de Fest. A ausência deste aspecto "positivo" de Hitler simplesmente não faz a menor falta neste livro impressionante.
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