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4:53 p.m. - 2006-04-18
O caminho de Los Angeles e Quando eu era o tal

O caminho de Los Angeles e Quando eu era o tal

Fabricio Muller

 

John Fante, escritor americano que influenciou decisivamente a geração beat, começou a escrever O caminho de Los Angeles (204 páginas, recentemente publicado pela José Olympio Editora) em 1933 e apenas três anos depois ele conseguiu finalizá-lo. O romance, que foi o primeiro que ele escreveu, já tem como personagem principal o seu alter ego, o personagem Arturo Bandini - que reaparece em Espere a primavera, Bandini  (de 1938), Pergunte ao Pó (1939) e Sonhos de Bunker Hill (1982). Provavelmente por causa de seu conteúdo excessivamente ácido para os anos 30, O caminho de Los Angeles acabou não sendo publicado na ocasião, e John Fante acabou não lançando o romance enquanto viveu:  foi somente após a sua morte, em 1983, que sua esposa descobriu o livro no meio de seus manuscritos, possibilitando a publicação póstuma.

 

Arturo Bandini conta a história em primeira pessoa. A sua família era pobre e seu pai faleceu prematuramente, fazendo com que ele tivesse que ajudar no sustento da família (mãe e irmã), trabalhando no porto de Los Angeles em empregos insalubres e mal remunerados. Mas Bandini não é um jovem pobre comum: ele tem grandes pretensões literárias. Ele lê Nietzsche e Schopenhauer, mesmo sem entender quase nada. Ele se vê como um grande escritor. Ele tem raiva de tradições burguesas como família e religião. Ele se acha um ser superior a toda a ralé que o cerca - e não pensa duas vezes antes de deixar isto bem claro a quem o cerca. Ele odeia - e aí é fácil de entender - os subempregos que arranjam para ele. Ele tem delírios de grandeza e acessos de profunda depressão. O pretensioso Arturo Bandini é garoto desequilibrado: entre outras atitudes estranhas, ele mata centenas de caranguejos se imaginando um imperador justiceiro, e tem uma relação de amor doentia com fotos de belas mulheres na frente das quais ele se masturba.

 

O caminho de Los Angeles é um livro cheio de fúria, que se lê com um misto de piedade - pela triste história de vida do personagem principal - e de humor - pelas várias situações ridículas em que ele se mete. De todo modo, tanto num caso como no outro, fica-se com uma sensação de desassossego: afinal de contas, por mais que se entenda o drama de Arturo Bandini, é muito difícil simpatizar com alguém tão louco e arrogante.

 

Se John Fante já era quase beat em meados dos anos 30, Quando eu era o tal - minha vida na Jack Kerouac School, de Sam Kashner (Planeta, 357 páginas) conta uma espécie de final do movimento: o livro, autobiográfico, conta os anos em que o autor viveu como aluno na escola fundada pelos escritores beats Allen Ginsberg e William Burroughs em Boulder, Colorado.

 

A Jack Kerouac School (cujo nome é uma homenagem ao escritor de On The road,  comentado pelo Bacana aqui < http://www.bacana.mus.br/edicao_mat.asp?mat=493&e=37 >) queria ser a “primeira escola budista” da América, e o seu curso de poesia mal tinha sido fundado quando Sam Kashner - rapaz sensível, culto, e filho de pais liberais - resolveu se matricular por lá. Para o autor de Quando eu era o tal esta era uma oportunidade simplesmente imperdível de conviver com seus escritores preferidos, os beats Ginsberg (autor do poema O grito), Burroughs (autor de Almoço Nu) e Gregory Corso. Chegando lá, Kashner descobre que ele era o único aluno matriculado: se isto, por um lado, era desagradável pela ausência de colegas, por outro foi fascinante porque permitiu que ele conhecesse profundamente os grandes escritores da geração beat.

 

Mas retrato humano dos autores beats que aparece no livro é arrasador: em Quando eu era o tal Ginsberg aparece como um homossexual promíscuo - tentou fazer amor com o heterossexual Kashner, inclusive -, inseguro - tinha necessidade quase permanente de ser bajulado por todos ao seu redor - e que tinha um namorado quase retardado mental. O grande autor de O Uivo, pelo menos, não aparece como uma pessoa má, ao contrário de William Burroughs. O homem que escreveu O almoço nu é mostrado por Kashner como um sujeito frio, sem compaixão, totalmente absorto em si mesmo e em suas absurdas teorias de conspiração - a maldade de Burroughs é evidenciada também pela carência afetiva de seu filho, viciado e sempre próximo do suicídio. O único dos professores que parece sinceramente se importar com o autor de Quando eu era o tal é Gregory Corso, um maluco freqüentemente agressivo e violento: de todo o modo, dada a frieza dos outros dois para com ele, não é de se admirar que Sam Kashner tivesse por este último uma predileção especial.

 

O livro é escrito com um humor sutil (pode-se aqui se falar em humor judaico, dada a origem do autor) e que se lê com prazer. E o que o deixa mais  interessante é que, mesmo percebendo todos os defeitos de seus ídolos, Sam Kashner não deixa em nenhum momento de admirá-los como escritores, e nem se arrepende de estar no meio de gente tão estranha. Apesar de demolidor, Quando eu era o tal é escrito com o carinho de um fã.

 

 

 

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