|
4:46 p.m. - 2006-04-18 E-mail, de Matt Beaumont Fabricio Muller
É muito raro conversar com algum funcionário (ou ex-funcionário) de uma grande empresa e não ouvir pelo menos uma história sórdida sobre o que acontece lá dentro: entre muitos exemplos, podemos citar alguns, clássicos: o chefe que se apropria de uma boa idéia de um funcionário não dando nenhum crédito para o seu verdadeiro criador; o superior que tem especial prazer em humilhar, sem motivo, seus subordinados; o patrão que assedia sexualmente suas funcionárias (ou funcionários); o colega que sai espalhando mentiras sobre seus companheiros de trabalho, apenas para tirar vantagens da situação; a secretária que mantém relações sexuais com o patrão para subir na hierarquia da empresa; viagens a trabalho que são apenas fachadas para orgias envolvendo sexo, drogas e álcool. Na verdade, o mau-caratismo humano tem sempre inúmeras maneiras de se manifestar, e uma grande empresa, por sempre envolver muitos interesses, acaba, freqüentemente, sendo um enorme depositário para todo o tipo de defeitos de personalidade. Escancarar com grande cinismo, humor e corrosão as falhas de caráter numa empresa de grande porte é a principal virtude – e mote – de e-mail, romance do inglês Matt Beaumont (388 páginas, Bertrand Brasil). A história do livro é toda contada através de e-mails entre funcionários da sede inglesa, localizada em Londres, da empresa de publicidade Miller Shanks. Este tipo de narrativa é semelhante ao estilo "epistolar" de clássicos da literatura como Memórias de duas jovens casadas, de Honoré de Balzac, e Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos (a qual, diga-se de passagem, assim como e-mail também pega pesado em aspectos sórdidos da personalidade humana): obviamente, como no tempo de Laclos e Balzac não existia internet, os seus livros foram compostos apenas por cartas. De todo o modo, o objetivo de Matt Beaumont ao escrever e-mail não parece ter sido o de escrever uma obra-prima como Ligações Perigosas: ele quer mesmo é fazer rir com o ridículo do comportamento humano, e isto ele consegue com maestria: e-mail é engraçadíssimo. A história se passa em praticamente um mês, no início do ano de 2000. As duas principais atividades da sede inglesa da Miller Shanks neste período são vencer uma concorrência da Coca-Cola e gravar um comercial, nas Ilhas Maurício, para a LOVE, um canal de vídeos eróticos. A quantidade de confusões, erros de planejamento e "puxadas de tapete" em que os funcionários da empresa se envolvem neste relativamente curto período de tempo é simplesmente gigantesca. Alguns exemplos: David Crutton, o funcionário mais graduado de todos, mal sabe como utilizar o computador e manda, sem querer, cópias de diversas de suas mensagens para a sede finlandesa da Miller Shanks; o maior mau-caráter de todos, o diretor de criação Simon Horne, além de praticamente não trabalhar, copia uma idéia publicitária de duas candidatas a estágio, e vai até as Ilhas Maurício apenas para aproveitar o luxo de um hotel de cinco estrelas; também nestas ilhas, um funcionário da LOVE, por engano, assedia sexualmente a famosa Ivana Trump – e, para a piorar a situação os publicitários da Miller Shanks Vince Douglas e Brett Topowlski, bêbados e drogados, falam mal da LOVE (sua cliente, no caso) para um jornalista do sensacionalista The Sun, que publica tudo e mais um pouco, causando um escândalo tremendo; e isto sem contar o grande número de relações sexuais e assédios que aparecem a todo o momento em e-mail. Mas nem tudo é maldade em e-mail: alguns funcionários, principalmente a publicitária Pinki Fallon, são realmente éticos e escrupulosos. Com isto, Matt Beaumont parece querer dizer que nem tudo está perdido.
|