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4:34 p.m. - 2006-04-18
Asterix, Watchmen, Tico-Tico

Asterix, Watchmen, Tico-Tico

Fabricio Muller

 

 

Criada em 1961 por René Goscinny e Albert Uderzo, a série de livros de história em quadrinhos Asterix faz, até hoje, um imenso sucesso no mundo inteiro: além das HQs (traduzidas em mais de 100 idiomas e que já venderam mais de 120 milhões de exemplares) e filmes (de desenho animado e "normais"), até um parque temático nos moldes da Disneyworld foi construído nas imediações de Paris. As histórias da pequena aldeia gaulesa (a Gália se situava onde atualmente é a França) que resiste à dominação romana, pouco antes do início da Era Cristã, graças à poção mágica criada pelo druida Panoramix - que dá uma força sobrenatural a seus habitantes - continua fascinando crianças, jovens e adultos pelo mundo todo. Entre as maiores qualidades das histórias do baixinho e corajoso Asterix podem ser citados: o brilhante traço de Uderzo (que nitidamentente foi melhorando a cada nova história criada, até se estabelecer em sua plenitude por volta do episódio "Asterix entre os bretões", lançado em 1966); a esperteza e a inteligência do personagem principal; o conseqüente contraste com a obtusidade de seu melhor amigo Obelix (que caiu num caldeirão da poção mágica quando criança e que, por isto, conquistou uma força sobre-humana para o resto da vida); a sabedoria do druida; os engraçados personagens Abracurcix (o chefe da aldeia), Chatotorix (um bardo que canta insuportavelmente mal) e Ordenalfabetix (o vendedor de peixes que vive se pegando com o ferreiro Automatix) - e não se pode esquecer do charme adicional de histórias em que os não-poderosos (os gauleses, neste caso) sempre vencem os poderosos (aqui, os romanos). Mas sem dúvida nenhuma a qualidade que é a maior responsável pelo imenso sucesso de Asterix são os brilhantes roteiros assinados por René Goscinny, falecido em 1977 - e a morte deste foi uma perda insuperável para a qualidade das histórias do baixinho gaulês, o que se pode comprovar lendo "O dia em que o céu caiu”, HQ recentemente publicada lá fora e também por aqui (Record, 49  páginas). Quem assina o roteiro, como tem feito desde a morte de seu colega, é o desenhista da dupla, Albert Uderzo.

 

A história conta a chegada de duas naves extraterrenas na aldeia gaulesa, uma dos  walneydistianos, da estrela Walneydist, que são mais bonzinhos; a outra nave é dos nagmas, seres ambiciosos e sem escrúpulos vindos do planeta Gnama que querem conquistar o universo todo. O que estas duas expedições, de planetas rivais, querem na aldeia dos irredutíveis gauleses? Saber o segredo de sua força, claro, que já conquistou fama muito além do nosso planeta. E, a partir deste mote, muita coisa acontece na aldeia: luta de naves, vôos, desaparecimentos, toda a sorte de acontecimentos fantásticos.

 

Não que "O dia em que o céu caiu” seja ruim, não mesmo. A HQ tem brigas memoráveis entre Ordenalfabetix e Automatix, os "efeitos espaciais" são bem bolados - sem contar que é sempre um prazer ver o pessoal da aldeia em ação. Mas quando comparamos esta história bobinha com as brilhantes HQs com roteiro de Goscinny, como por exemplo a fábula sobre a luta entre a razão e a superstição rasteira “Asterix e o adivinho”, a profundamente melancólica “Asterix e o caldeirão”, o estudo sobre a ambição humana “Asterix e o domínio dos deuses” ou o enorme deboche sobre os dominadores de todos os tempos que é “Asterix e os louros de César”, ficamos pensando se realmente Asterix e Obelix mereciam este final de carreira tão melancólico.

 

Se, mesmo nos episódios mais dramáticos, as histórias do Asterix sempre foram bem humoradas, a praia de Watchmen é totalmente outra. A HQ lançada lá foram em 1985, criada pelo roteirista Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons é um pesadelo violento, onde não faltam brigas sangrentas, estupros, assassinatos, violência de todo o tipo. Considerada por muitos a melhor HQ de todos os tempos e lançada no Brasil pela primeira vez há dezesseis anos, o primeiro volume da série, englobando três capítulos (serão publicados mais tarde os seguintes três volumes, cada um com três capítulos) foi recentemente publicado pela Via Lettera (80 páginas).

 

A série se passa em 1985, mas num 1985 paralelo – no mundo dos Watchmen, super-heróis existiam de verdade, e nada mais eram do que justiceiros que usavam máscaras para combater o crime. Como aconteceria realmente num mundo em que pessoas mascaradas lutassem pela justiça, os super-heróis eram muitas vezes ridicularizados pelas roupas extravagantes, e tinham problemas práticos por causa delas – um destes justiceiros, por exemplo, morre baleado porque ficou sem ação quando sua capa ficou presa numa porta giratória de um banco. Outros problemas demasiado humanos pipocam o tempo todo: alguns dos mascarados caem no alcoolismo; outro tenta estuprar uma colega; insinua-se que outro pode ser um espião a serviço dos soviéticos – não se pode esquecer que a série se passa em 1985, e a Guerra Fria tem um papel importantíssimo na HQ: boa parte dos mascarados, inclusive, é de linha claramente direitista.

 

Neste primeiro volume, a trama gira em torno do violento super-herói Rorschach, que investiga o assassinato de Edward Blake, um de seus companheiros mascarados. Outro tema importante é a apresentação do Dr. Manhattan, um estranho sujeito azul que é o único ser de toda a série que tem realmente poderes extraordinários (e põe extraordinários nisto). Muito importante também é a transcrição dos diários de um dos mascarados, o Coruja: no total são vinte páginas de prosa – extremamente bem escrita, aliás – que finalizam cada um dos três capítulos da obra.

 

Watchmen é uma HQ extraordinária, que merece todos os entusiasmados elogios que tem recebido desde que foi publicada – tomara que a Via Lettera não demore muito em publicar os volumes restantes.

 

O Tico-Tico, publicado com grande sucesso entre 1905 e 1959, foi durante muitos anos a única publicação brasileira destinada exclusivamente às crianças – e a sua impressão, praticamente desde o início, foi feita em cores, o que demonstra o cuidado editorial. A revista, feita por vários escritores e cartunistas, se compunha de textos de conselhos às crianças, fábulas, e histórias em quadrinhos com diversos personagens. Para celebrar o centenário do início da publicação, a Via Lettera publicou uma edição comemorativa, preparada e apresentada por Ezequiel de Azevedo, com a historia d’O Tico-Tico e com vários símiles de páginas da revista.

 

Lendo a publicação, impressiona como O Tico-Tico ficou datado: as histórias em quadrinhos quase sempre têm função educativa e, principalmente, os personagens negros são sempre subalternos e com beiços enormes – numa incorreção política impensável nos dias de hoje. Os textos de Ezequiel de Azevedo são um tanto dispersivos e, apesar da apresentação bem-cuidada, muitos símiles têm letras tão pequenas que dificultam sobremaneira a leitura. De todo o modo, esta edição vale, e muito, pelo interesse histórico.

 

 

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