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4:54 p.m. - 2006-04-18 O Cerco Fabricio Muller
Na pequena, pacata e monótona cidade de São Felipe, no Rio de Janeiro, os jovens, sorrateiramente, planejam algo. Eles se reúnem nos grêmios escolares e nos ginásios, debatem, discutem, definem estratégias. Com o dinheiro da mesada eles começam a comprar todo o tipo de armamento: revólveres, escopetas, metralhadoras. No dia planejado - um domingo monótono como todos os domingos em São Felipe - eles saem atirando em quem passasse pela frente. A cidade vira o caos: nada escapa à fúria assassina dos jovens da pequena cidade, que matam pais, mães, parentes, padres, jornalistas, guardas. Só escapam os que conseguem fugir e os reféns da turba juvenil enfurecida. Basicamente esta é a história (vou omitir o final, obviamente) de O Cerco, de Daniel Frazão (Editora Rocco, 306 páginas), jovem escritor de 26 anos que mora em Friburgo desde os cinco. O livro tem a óbvia qualidade de fugir do lugar-comum em termos de jovens escritores nacionais: ele não tem nenhuma influência da chamada "cultura pop", está muito distante da auto-indulgência dos escritores que começaram como blogueiros e, sobretudo, arrisca: a história, como se pode perceber no primeiro parágrafo, é paradoxal, absurda mesmo. O problema reside na maneira como esta história é contada. Daniel Frazão tende a ser simplista demais em sua descrições: o livro já começa com "Era um final de ano como todo fim de ano costuma ser. Pessoas inundadas por aquele sentimento natalino tão típico dos meses que antecedem dezembro. (...) Famílias felizes programavam as férias (...)": na verdade, para cada pessoa, cada Natal é diferente do outro e cada sentimento natalino em um ano é diverso daquele do ano seguinte: o escritor deve, sim, entrar neste tipo de particularidade para que a história seja crível. Este tipo de simplificação não se concentra apenas na primeira página (se não nem seria citada aqui): descrevendo a cidade antes do ataque dos jovens assassinos, Frazão conta que "Tudo estava tranqüilo, todos estavam calmos. Ninguém se importava com o mormaço. Nada destruía a felicidade daquele domingo, se é que se podia nomear de felicidade aquela sensação anestésica das tardes dominicais.". De novo o simplismo, e os exemplos deste tipo de lugar-comum no livro são muito numerosos. O Cerco tenta mostrar um vasto painel das personagens que vivem os acontecimentos terríveis contados acima, descrevendo as atitudes tomadas por um grande número de pessoas. E aqui, novamente, ele se atrapalha com o excesso de esquematismo: um é o "hippie da praça", o outro é o "intelectual da cidade", a outra é a "dona-de-casa submissa", o outro é o "yuppie que mora na cidade e que praticamente abandona os pais no interior", e por aí vai. Frazão não deixa muito espaço para a imaginação do leitor quando descreve suas personagens, e isto torna a leitura cansativa. Mas nem tudo são espinhos: o narrador da história, apesar de todo o simplismo, tenta ser sempre impessoal, o que melhora a qualidade literária do texto. Além disto Daniel Frazão acerta ao não tentar explicar por que os jovens de uma cidade pacata resolvem fazer coisas tão horríveis: o máximo que ele faz é tentar mostrar que a sociedade de São Felipe também é plena de falsidades, mas nada disso fica muito claro. Uma história kafkiana destas não pode ser facilmente justificada. Neste aspecto Frazão não tenta subestimar a inteligência do leitor, e O Cerco ganha muito com isto.
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