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12:07 a.m. - 2006-05-06 Pornô, de Irvine Welch Fabricio Muller (publicado na Revista do jornal O Estado do Paraná)
Marc Renton, ou simplesmente “Rents”, é o sujeito de personalidade complexa: mesmo viciado em heroína e aplicador de golpes aqui e ali, é universitário, culto e tem seu próprio - e quase justificável - senso de justiça. Begbie quer distância de heroína e é fiel às suas amizades, mas é um psicopata violento que arrebenta praticamente qualquer um por motivos insignificantes. Sick Boy é um viciado almofadinha, frio, calculista e manipulador - e fã de James Bond. Já Spud é um perdedor, um derrotado, que sustenta seu vício em heroína com pequenos golpes e com o dinheiro da Assistência Social - mas é cara legal e, somando tudo, o melhor caráter dos quatro. Estes amigos de Edimburgo, capital da Escócia, são os principais personagens de Trainspotting, do autor escocês Irvine Welsh, romance publicado originalmente em 1993 e que teve uma versão cinematográfica lançada em 1996, a qual foi um cult de enorme sucesso - e que catapultou as carreiras do diretor Danny Boyle e do ator Ewan McGregor. Lançado recentemente no Brasil, Pornô (Rocco, 565 páginas) é a continuação daquele livro e conta o que aconteceu com os personagens citados acima - e mais alguns novos - cerca de uma década depois (Trainspotting se passa no final da década de 80). Em Pornô, praticamente ninguém mais usa heroína: só mesmo Spud, e muito de vez em quando. Isto não quer dizer, contudo, que os personagens tenham se transformado em exemplares e responsáveis pais-de-família: Renton abriu, com sucesso, algumas boates na capital holandesa e vive um casamento em crise; Spud agora tem um filho pequeno, e uma mulher, a Ally: tudo estaria muito bem se ele não continuasse totalmente perdido, sem emprego, sem ocupação, e dando pequenos golpes para arranjar algum dinheiro para drogas e bebidas; Sick Boy morou em Londres um bom tempo, e agora está de volta em Edimburgo, onde abriu um pub: ele não admite mais ser chamado pelo antigo e humilhante apelido (literalmente, Garoto Doente), e agora quer ser chamado pelo seu nome verdadeiro, Simon David Williamson. Ele está mais mau-caráter e manipulador do que nunca, e é o verdadeiro personagem principal de Pornô - diferentemente de Trainspotting, que tinha Marc Renton como personagem mais importante; Begbie passou uma temporada na cadeia depois de ter assassinado um sujeito e agora está à solta, mais insano, alucinado e violento do que nunca. Em Pornô, Sick Boy resolve patrocinar um filme pornográfico e namora a inglesa Nikki Fuller-Smith, a única nova personagem com importância similar, dentro do romance, aos quatro já citados: jovem, bonita, inteligente e extremamente liberada em relação ao sexo, Nikki faz massagens em homens numa sauna para ajudar a custear seus estudos na Universidade de Edimburgo. Ela não pensa duas vezes antes de aceitar um dos papéis principais no filme que Sick Boy está produzindo: seu desejo é que o filme pornô lhe abra as portas para um mundo rico e glamouroso. Para ajudar na produção do seu filme, Sick Boy (ou Simon) chama Marc Renton, seu antigo desafeto: quem leu (ou assistiu Trainspotting) deve se lembrar que Rents fugiu de Edimburgo com o todo o dinheiro, fruto de uma grande venda de heroína, que deveria ser dividido entre os quatro amigos, mais outro personagem chamado Segundo Lugar (mais tarde, ele devolve apenas a parte de Spud, deixando Sick Boy, Begbie e Segundo Lugar a ver navios). Por causa deste golpe, Marc quer distância de Edimburgo, por medo da vingança do violento Begbie - que não achou muito legal, é óbvio, ser passado para trás na história da negociação da droga. Tendo como aspectos mais
importantes as manipulações regadas a muita cocaína de Simon, o medo – e a
astúcia – de Rents, as derrotas de Spud, a insanidade de Begbie e a quase
ninfomania de Nikki, Pornô é um livro
bem amarrado e bem escrito, e que não perde o pique em praticamente nenhum
momento. E, enquanto Transpotting é
quase depressivo, em Pornô o tom mais
freqüente é o de farsa: afinal de contas, se é triste ver jovens se acabando por
causa de heroína, adultos que se recusam a crescer não deixam de ter o seu quê
de ridículo.
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