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12:07 a.m. - 2006-05-25
Uma longa queda, de Nick Hornby

Fabricio Muller - publicado na Revista do jornal O Estado do Paraná

 

Nos três primeiros romances do inglês escritor inglês Nick Hornby - Febre de bola (publicado em 1992 e que serviu de base para um filme com o mesmo nome, lançado em 1997), Alta fidelidade (de 1995, e também filmado, em 2000) e Um grande garoto (de 1998) - os personagens principais, como o próprio autor, são homens de mais de 30 anos fanáticos por futebol e/ou por música pop e que, de certo modo, se recusam a abandonar a adolescência. Como ser legal (de 2003) representa uma certa mudança de rumos na carreira de Hornby, já que tem uma protagonista mulher e um tema um pouco mais soturno: Katie Carr é uma médica de meia idade querendo mudar de vida, nem que para isso precise largar marido e filhos. O quinto romance de Hornby, o recém-lançado Uma longa queda (Editora  Rocco, 301 páginas) aprofunda um pouco mais as mudanças na literatura do autor: agora os personagens principais são dois homens e duas mulheres (o livro é escrito em primeira pessoa, alternadamente, pelos quatro) e o tema é ainda mais sombrio: o suicídio – só que, assim como em todos os seus romances anteriores, o humor e o sarcasmo têm papel importante no desenrolar da trama.

 

É sabido que datas festivas, como Natal e Dia dos Namorados, tendem a deixar pessoas com tendências à depressão em estado ainda pior do que o normal, já que elas se sentem mais deslocadas em relação ao restante da população do que em dias comuns. E é este o mote inicial de Uma longa queda: em uma noite de Ano-Novo, quatro pessoas resolvem se atirar do Toppers' House - um prédio famoso em Londres por causa das pessoas que se suicidam jogando-se lá de cima – e acabam se encontrando no terraço do edifício. Depois de uma série de mal-entendidos, eles - que não se conheciam antes - decidem desistir, por hora, de se jogar e resolvem procurar o ex-namorado de Jess, a caçula do grupo. Dali em diante eles passam por um bom número de confusões, incluindo aí manchetes em jornais sensacionalistas, entrevistas posteriores em que mentem ter visto um anjo no terraço do prédio, agitadas férias no Caribe e uma tentativa esquisita de reconciliação com os seus familiares e amigos.

 

Um aspecto que acaba deixando o livro mais interessante são os contratempos criados pela absoluta falta de pontos em comum entre seus quatro protagonistas, que praticamente só combinam mesmo na vontade de se suicidar. Martin era um apresentador de sucesso na TV inglesa e vivia relativamente tranqüilo com a esposa e duas filhas, até que teve relações sexuais com uma garota de quinze e caiu nas garras da justiça e da imprensa sensacionalista, o que fez com que sua vida piorasse, e muito: foi preso, divorciou-se e perdeu o seu bom emprego - passou, então, a apresentar um programa num canal a cabo de quinta categoria. Maureen é uma mulher de pouco mais de cinqüenta anos, conservadora e tradicionalista, e mãe solteira de um garoto que, em quase duas décadas de vida, nunca saiu do estado de coma - ela quis se jogar do topo do Toppers' House porque já não agüentava mais cuidar dele. Jess é uma garota recém-saída da adolescência que odeia qualquer coisa que lembre, mesmo que remotamente, cultura ou sofisticação; além disso ela é grosseira, usuária de drogas e não admite nenhum tipo de limite (seja este imposto por seus pais ou pela sociedade). Além de sofrer por causa de uma irmã desaparecida, a quase insana Jess quis se matar porque levou um fora de um rapaz com quem fez sexo apenas uma vez . Finalmente, JJ é um americano de pouco mais de vinte anos, bem apessoado, culto e amante de música pop: é o personagem que lembra um pouco os protagonistas dos primeiros livros de Hornby. O motivo que o faz querer se matar é que, quando ainda estava nos Estados Unidos, foi largado pela namorada e sua banda de rock - na qual apostava todas as fichas - acabou num fracasso retumbante. Agora, em Londres, ele tenta sobreviver entregando pizzas.

 

Como não poderia deixar de ser com um tema espinhoso desses, Uma longa queda tem lá seus momentos tristes - mas a maestria de Hornby em escrever frases de efeito e a enorme quantidade de confusões em que os personagens se metem deixam o clima do livro mais para o divertido do que para o depressivo. E é interessante observar que Hornby - famoso por seus protagonistas homens - tenha criado duas personagens femininas, Jess e Maureen, mais interessantes que os seus correspondentes masculinos, Martin e JJ.

 

No todo, Uma longa queda é um livro que se lê com grande prazer, e você ainda vai ver que nele vem embutida uma sutil - mas certeira - mensagem de esperança.

 

 

 

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