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12:04 a.m. - 2006-05-25
Educação de um bandido

Fabricio Muller - publicado na Revista do jornal O Estado do Paraná

 

Desde a véspera do Ano-Novo de 1933, quando nasceu, até 1975, quando saiu definitivamente da prisão, o escritor Edward Bunker passou encarcerado dezoito anos, em três temporadas diferentes. O ambiente familiar desagregado – ele era filho de uma corista e de um assistente de palco que tiveram um casamento totalmente fracassado – só explica em parte a sua revolta e a sua violência: como o próprio Bunker confessa, o pai se sacrificou para mantê-lo em bons colégios, mas a sua sede de liberdade e de aventuras era muito maior do que o seu desejo de ter uma vida regrada. Esta e muitas outras revelações podem ser lidas na autobiografia do escritor (autor, entre outros, do romance Cão como cão e do roteiro do filme Expresso para o Inferno), "Educação de um bandido" (381 páginas), lançada pela Editora Barracuda.

 

Já em uma de suas primeiras estadias em reformatórios, Bunker descobriu, num teste, que tinha um QI muito acima de normal. A mistura de inteligência aguçada com um absoluto desprezo por qualquer tipo de autoridade acabou resultando em atitudes aparentemente díspares: cedo ele começou a assaltar e a se envolver em todo o tipo de encrenca, ao mesmo tempo em que lia de maneira intensa e desordenada – e, como não tinha educação formal, Bunker devorava qualquer livro que aparecesse pela frente (com o tempo, obviamente, suas leituras passaram a ser mais bem selecionadas).

 

Principalmente no início de sua carreira de fora-da-lei, o escritor tinha uma coragem quase suicida: diversas vezes ele não se assustava, desafiava e arremetia contra diversos seguranças e guardas ao mesmo tempo - com conseqüências, obviamente, sempre graves para o seu lado. Em uma passagem impressionante de "Educação de um bandido", Bunker, que já era o detento mais jovem de San Quentin (uma das prisões mais famosas dos Estados Unidos), dá uma facada em homossexual violento e perigoso que costumava exigir préstimos sexuais dos novos presos da cadeia. Com o passar dos anos, para sobreviver nos diversos presídios por onde passou, o escritor foi se tornando mais ardiloso e menos agressivo: um ditado comum entre presidiários que ele cita, inclusive, diz que "o cemitério está cheio de homens corajosos".

 

Muitas outras passagens na autobiografia de Bunker grudam na memória do leitor: entre outros exemplos, o aumento de tensão racial nos presídios, da relativa harmonia dos anos cinqüenta à situação totalmente insustentável e irracional nos agitados anos sessenta; a tentativa infrutífera da riquíssima Louise, esposa de Hall Wallis - o importante produtor de cinema responsável por "Casablanca" – de dar uma vida regrada para Bunker em um de seus períodos de liberdade antes da libertação definitiva ocorrida em 1975; a malandragem e esperteza nos jogos de pôquer na cadeia; e a relação de respeito – conseguida graças a uma série de atitudes coerentes com a "moral de presídio" - que o escritor sempre conseguiu manter com grande parte dos presos.

 

Literalmente, a literatura salvou a vida de Edward Bunker: afinal de contas, ele conseguiu a liberdade provisória por conta de um texto sobre a crise racial nas prisões americanas para a revista Harper’s Magazine e da publicação do romance "Nem os mais ferozes". Depois disso, antes de falecer em 2005, ele foi casado por mais de duas décadas com Jennifer Steele, com quem teve um filho, Brendan – que o escritor considerava "o seu maior" feito e para quem dedicou sua autobiografia.

 

Apesar de literariamente muito bem realizado – o livro é notavelmente bem escrito, com um estilo seco e incisivo e sem nenhuma autopiedade – e do final de vida sossegado e tranqüilo de Bunker, "Educação de um bandido" está longe de ser um livro edificante: o escritor não se arrepende em nenhum momento de tudo o que fez e descreve todos os seus atos com uma frieza quase distante. Além disso, ele declara com todas as letras que, se não tivesse sucesso como escritor, voltaria à vida do crime: viver com o salário de um emprego honesto, mas mal remunerado, definitivamente não era com ele.

 

 

 

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