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12:01 a.m. - 2006-05-25
3 coletâneas

Fabricio Muller - publicado na Revista do jornal O Estado do Paraná

 

Lançadas pela Editora Record e tendo o escritor paranaense Miguel Sanches Neto (autor de Um amor anarquista) como organizador, Contos para ler ouvindo música (167 páginas), Contos para ler em viagem (125 páginas) e Contos para ler na cama (139 páginas) são três pequenas coletâneas, em formato de bolso, que têm como participantes alguns dos mais importantes autores brasileiros da atualidade. Como o próprio nome delas diz, na primeira o assunto principal é música; na segunda, viagens; na terceira, o sexo.

 

A mais fraca é Contos para ler ouvindo música, em que apenas três contos chegam a empolgar: Composição I, de Sérgio Sant’Anna - que tem como ponto forte o contraponto entre uma família repressora e o amor incestuoso de dois irmãos pertencentes a ela - e os pungentes O violino, de Luiz Vilela - a história de uma velha tia que tenta, sem sucesso, recomeçar a carreira de violinista depois de muitos anos distante da música - e O moço do saxofone, de Ligia Fagundes Telles, sobre um marido que toca saxofone enquanto a esposa faz sexo com outros homens. Outros contos, infelizmente, tendem a deixar o leitor indiferente: caso de Educação pelo outono, de Daniel Piza, sobre uma garota e seus pretendentes, de Siempre en la barca para Paquetá, de Aldir Blanc, que conta o início do interesse de um garoto pelo sexo oposto, e de Inverno, 1968, onde Arthur Dapiève tenta adivinhar alguns diálogos entre Syd Barret e seus colegas do início do Pink Floyd.

 

Em Contos para ler em viagem a qualidade geral é bem maior. É até um pouco difícil destacar alguns deles, mas os melhores, provavelmente, são: O encalhe dos trezentos, de Domingos Pellegrini, sobre um gigantesco e duradouro engarrafamento, em uma estrada de terra totalmente enlameada, durante uma tempestade fora do comum; o pungente Os turistas secretos, de Moacyr Scliar, sobre um casal que finge viajar pelo mundo; e a forte história “gauchesca” Sesmarias do urutau mugidor, de Sergio Faraco. Os contos mais fracos da coletânea são Perfeito roteiro para Londres, de Ivan Lessa, que pode ter lá seu interesse para quem tem mais de sessenta anos, e o meio pedante A mulher-cobra, de Sérgio Sant’Anna.

 

O melhor dos trinta contos das três coletâneas organizadas por Miguel Sanches Neto está em Contos para ler na cama: trata-se de A vez quando Luiz Cuiúba comeu seis ou sete veranistas, do baiano João Ubaldo Ribeiro. É uma longa “conversa fiada” em que um morador da ilha de Itaparica discorre, de maneira deliciosamente pitoresca, sobre assuntos como turistas americanos, paulistas e cariocas, as características físicas e comportamentais dos ilhéus e, claro, sobre o mitológico dia em que o tal Luiz Cuiúba fez o que o título do conto diz. De chorar de rir.

 

E Contos para ler na cama ainda tem outros pontos altos: Fantasias de uma noite de verão, de Domingos Pellegrini, em que um marido não consegue dormir porque quer fazer sexo e sua esposa está para dar a luz; o complexo e intenso Primos, de Luiz Vilela, que narra uma história de atração mal-resolvida entre um primo e uma prima; e o sujo – e inesperado – Eu quero te comer, Sophia, que é uma carta obscena de um leitor para uma escritora. Se a média dos contos desta coletânea tem qualidade um pouco inferior à da coletânea de contos sobre viagens, apenas um dos Contos para ler na cama pode ser considerado fraco: o pretensioso e um tanto vulgar O animal dos motéis, de Márcia Denser.

 

 

 

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