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5:13 p.m. - 2006-06-06 Publicado na Revista do Estado do Paraná
Jack Kerouac
é o autor do romance mais importante da geração beat, famoso
movimento de caráter artístico e social dos anos 50 que foi de uma importância
fundamental para todas as correntes libertárias que se desenvolveram nas décadas
seguintes: On the
road (em português, “Pé
na estrada”), que conta basicamente a história das
viagens alucinadas, no final dos anos 40 e início dos 50, pelos Estados Unidos,
de dois amigos: Sal Paradise, personagem baseado no próprio escritor, e Dean
Moriarti. Por
toda a vida, Kerouac (que nasceu em 1922, no estado americano do Massachusetts,
e faleceu em 1969, na Flórida) carregava consigo durante grande parte do tempo
um caderno onde anotava acontecimentos, poemas e pensamentos de toda a ordem.
Uma pequena parte deste gigantesco material foi editada e selecionada pelo
historiador norte-americano Douglas Brinkley, e o seu trabalho resultou no livro
Diários de Jack Keruac –
1947-1954, cuja tradução
brasileira foi
publicada recentemente pela Editora L&PM (359 páginas). Os textos desta
edição são partes escolhidas dos diários do escritor durante o período em que o
autor estava elaborando os seus dois primeiros livros, a saga familiar – que
teve pouco sucesso - The town and the city (literalmente, algo como “A
cidade e o município”), e On the road.
A
publicação de diários de escritores importantes falecidos é, muitas vezes,
temerária: afinal de contas, se o próprio autor confiasse na importância
literária destes textos, ele mesmo tê-los-ia publicado. Este é o tipo de
pensamento que vem à baila freqüentemente durante a leitura dos Diários
de Jack Kerouac, já que muitos de seus trechos são redundantes, confusos
e/ou desprovidos de maior interesse. Por outro lado, o livro é praticamente
obrigatório para quem é interessado no movimento beat: a partir dele, por
exemplo, pode-se saber que, ao contrário do que Kerouac sempre dizia, ele
utilizou um longo tempo para preparar e escrever On the road. Além disso,
seus Diários apresentam suas opiniões, muitas vezes contraditórias, sobre
outros beats importantes, como Allen Ginsberg, Neal Cassady e William S.
Burroughs, e mostram suas principais influências literárias: Céline, Dostoiévski
e Mark Twain – Kerouac acreditava numa literatura que fosse escrita de maneira
objetiva e direta, e se queixava de escritores “excessivamente sutis” como
Marcel Proust. Outros aspectos importantes nos Diários são o capítulo
final, originado do caderno de diários chamado “Chuvas e rios” - com descrições
de muitas viagens de Kerouac que acabaram aparecendo em sua obra-prima - e a
mostra de como foi fundamental para o autor ter uma mãe forte e compreensiva
que, com grande dificuldade, “segurou as pontas” em casa enquanto ele não tinha
nenhuma fonte de renda. Mas o
que mais impressiona – e, porque não dizer, apaixona - na leitura dos
Diários é a personalidade do próprio Kerouac: o grande autor da geração
beat tinha uma grande fé mística em Jesus Cristo, era atormentado – com
freqüentes alterações de humor, passando rapidamente da euforia à depressão -,
bastante esperançoso em se tornar um escritor importante, e profundamente
preocupado em entender o sentido da vida: são muitos os trechos, com linguagem
poética, em que ele tenta – de maneira muitas vezes confusa – atingir este
objetivo. Se
Diários de Jack Kerouac é um livro autobiográfico que não foi escrito com
a finalidade de ser publicado, a situação de Maldito Coração, o segundo
livro escrito por JT Leroy (Geração Editorial, 213 páginas) é ironicamente
oposta: o livro era supostamente autobiográfico, mas é o produto de uma farsa -
foi escrito apenas para ser publicado, portanto. Ele conta a história do início
da vida de Jeremiah, um rapaz que foi transformado em um travesti prostituto
pela própria mãe, a também prostituta Sarah. Só que, na verdade, este JT Leroy –
que supostamente era o Jeremiah - não existe: descobriu-se recentemente
que ele é a criação de uma roqueira fracassada, Laura Albert - e quem circulou
pelo mundo interpretando o seu papel é a mocinha Savannah Knoop, meia irmã do
companheiro de Laura, Geoffrey Knoop (atualmente brigando com a ex-mulher na
justiça pelos direitos autorais do autor inexistente). É claro que já não é mais
a mesma coisa ler os livros de JT Leroy sabendo que aquilo tudo é apenas fruto
da imaginação de uma autora, e não histórias baseadas em acontecimentos reais -
de todo o modo, o que continua mais importante é saber se eles têm, ou não,
valor literário. O primeiro
romance lançado por JT Leroy, Sarah – comentado recentemente aqui na
Revista do Estado do Paraná – contava a adolescência do garoto Jeremiah e tinha,
como principal qualidade, uma delirante atmosfera de superstições que
fazia com que, às vezes, o leitor se sentisse entrando num universo paralelo -
onde cervos empalhados têm poderes para ajudar prostitutas, e onde milagres
ocorrem a cada esquina. Apesar de ter sido publicado posteriormente, Maldito
Coração – que teve uma versão cinematográfica, a cargo da diretora Asia
Argento - conta a história do início da vida de Jeremiah (antes dos
acontecimentos narrados em Sarah, portanto). O novo romance tem
características gerais de narrativa semelhantes às do anterior – narrativa
propositadamente confusa (o que é coerente com a pouca instrução do personagem
que conta a história), em primeira pessoa e no tempo presente – só que, no lugar
da atmosfera ricamente delirante de Sarah, Maldito Coração pega
pesado nos acontecimentos sórdidos. No livro, o pequeno Jeremiah tinha pais adotivos de um
bom nível financeiro, carinhosos e compreensivos. Só que a Sarah, sua insana mãe
biológica, resolve querer seu filho de volta e, para isso, ela apela para o pai
dela, um pastor protestante rico e extremamente rígido: como ela sabia de algum
“esqueleto no armário” (que o livro não conta qual é) do avô de Jeremiah, este
compra juízes para que ela recupere a guarda do filho. A partir daí, a as
violências físicas e psicológicas a que ela submete o garoto são de revoltar o
estômago: abandonos por semanas ou meses, ameaças verbais horrendas e absurdas,
surras homéricas, uso de drogas pesadas diante dele, violência sexual (por parte
dela e de seus namorados), transformação do menino num travesti. De tempos em
tempos o avô de Jeremiah consegue a guarda dele, mas os espancamentos a que este
fanático religioso submete o garoto não tornam a sua situação muito
melhor. Com o decorrer de Maldito Coração, vai ficando claro que a
Sarah é uma doente mental que, no fundo e apesar de tudo, realmente gosta de
Jeremiah – o qual, à medida que vai ficando mais velho, começa, morbidamente, a
gostar de sofrer violências. Um final de impacto, espantoso mesmo, para um livro
repulsivo - inferior certamente a Sarah - mas que exerce uma estranha
atenção no leitor desavisado.
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