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1:18 a.m. - 2006-06-16
Livros para ler no inverno

Relação de livros para ler no inverno - publicado na Revista dominical do jornal Estado do Paraná

por Fabricio Muller

 

Clássicos:

 

A Volta do Parafuso, de Henry James (Landmark, 160 páginas): Novela (obra mais longa que um conto, mais curta que um romance) sobrenatural publicada em 1898, conta a história de uma preceptora de um casal de irmãos, que começam a ver os fantasmas dos preceptores anteriores, já falecidos. Mesmo não sendo uma história típica do grande Henry James, este livro impressionante – que tem mais de uma interpretação possível - acabou se tornando um de seus mais famosos escritos.

 

Orgulho e preconceito, de Jane Austen (Martin Claret, 316 páginas): O mais famoso romance de Jane Austen, publicado em 1813, trata de paqueras, namoros e desencontros amorosos entre jovens que moravam em fazendas, na Inglaterra, entre o final do século XVIII e o início do século XIX. Pela descrição, parece o seriado Malhação – só que é incomparavelmente melhor.

 

Narrativas do espólio, de Franz Kafka (Companhia das Letras, 232 páginas): Mais conhecido por seus romances (O Castelo, O Processo) e novelas (Metamorfose, A Muralha da China), Kafka também foi um mestre extraordinário da narrativa curta. Esta coletânea,  que engloba os contos escritos por ele que não foram publicados enquanto estava vivo - daí o título, dado postumamente - é uma prova disso.

 

A Cartuxa de Parma, de Stendhal (Globo, 553 páginas): Publicado originalmente em 1839, este romance conta as histórias de amor, coragem e picuinhas políticas envolvendo o impulsivo nobre (tanto em termos de linhagem, como em termos de caráter) Fabrice del Dongo, sua tia apaixonada por ele, a Condessa Sanseverina, o amante desta, o Conde (e dirigente político) Mosca, e a nobre Clélia Conti, por quem Fabrice morre de amores. Repleto de peripécias e reviravoltas, Cartuxa de Parma é um livro de vida transbordante.

 

O Coração das Trevas, de Joseph Conrad (Ediouro, 111 páginas): Esta impressionante novela é uma das mais famosas obras de Conrad, e serviu de base para  clássico cinematográfico Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. O livro, publicado originalmente em 1902, conta a história da viagem de um homem chamado Charlie Marlow até uma floresta africana, onde um negociador belga chamado Kurtz criou um violento império particular.

 

Ficções, de Jorge Luis Borges (Globo, 200 páginas): Livro de contos publicado originalmente em 1944, Ficções é provavelmente o livro mais importante do escritor argentino e aquele que colocou Borges em primeiro plano na literatura argentina e mundial. Os contos são fruto de uma imaginação prodigiosa: entre outras coisas, Borges inventa países, planetas, bibliotecas infinitas e escritores que nunca existiram.

 

Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (Nova Fronteira, 608 páginas): Provavelmente o mais importante romance brasileiro do século passado, este clássico está fazendo 50 anos agora em 2006, e jornais e revistas de todo o país estão dando grande destaque à data, com a publicação de muitos (e profundos) ensaios. Uma excelente oportunidade para conhecer, ou reler, esta fantástica obra.

 

Memorial de Aires, de Machado de Assis (L & PM, 194 páginas): O último romance de Machado de Assis, publicado em 1908, é melancólico, tranqüilo e sereno. O livro conta a história de um velho casal sem filhos, Seu Aguiar e Dona Carmo, e dos jovens Tristão e Fidélia, tão amados pelos idosos que são quase seus "filhos adotivos". O enredo, claro, é importante, mas a maneira genial com a qual o personagem Conselheiro Aires - viúvo e também sem filhos - conta a história é que faz a diferença.

 

O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë (Record, 350 páginas): É muito raro que uma mesma família tenha dois escritores de gênio, e por isso o caso das três irmãs Brontë é tão impressionante: Anne, Emily e Charlotte - órfãs de mãe e filhas de um pastor anglicano não muito rico, e que viveram durante a conservadora Era Vitoriana na Inglaterra, no século XIX - escreveram extraordinários romances, muito lidos e publicados até hoje. Se o poderoso O Morro dos Ventos Uivantes, o único romance de Emily, é considerado o melhor dentre todos os livros publicados pelas irmãs Brontë, os de Charlotte e os da irmã menos famosa, Anne, não ficam muito atrás. Ler qualquer obra, de qualquer uma delas, é prazer garantido.

 

Mulherzinhas, de Louisa May Alcott  (Ediouro, 608 páginas): Este romance, publicado originalmente em 1869, conta a história de uma mãe e das suas quatro filhas que vivem com dificuldades financeiras, nos Estados Unidos, enquanto o chefe da casa vai lutar na Guerra da Secessão. O livro, que teve algumas versões para o cinema (a de 1994, com Winona Ryder, foi chamada no Brasil de Adoráveis Mulheres), poderia até ser melodramático e pueril se não contasse com personagens tão bem construídos e não fosse tão bem realizado.

 

 

Modernos:

 

Timoleon Vieta Volta para Casa, de Dan Rhodes (Rocco, 208 páginas):  Timoleon Vieta é o cachorro de Cockroft, um velho músico fracassado e homossexual que arranja um namorado mau-caráter que o faz abandonar o cãozinho a centenas de quilômetros de casa. A epopéia da volta de Timoleon para casa e as histórias tristes das pessoas que o encontram pelo caminho são os temas principais deste livro melancólico e delicado.

 

Cassino Hotel, de André Takeda (Rocco, 194 páginas): Jovem cantora pop, de futuro aparentemente promissor e ótimo background financeiro vindo do pai - um cantor de música sertaneja de sucesso -, mantém um tórrido romance às escondidas com o guitarrista de sua banda. Pressionado pelo “sogro”, ele foge para o litoral gaúcho e começa a se afundar cada vez mais nos conflitos com os fantasmas do passado, num livro intenso e emocional, que pode ser lido praticamente de um fôlego.

 

Memória de Minhas Putas Tristes, de Gabriel Garcia Marquez (Record, 132 páginas): Um solteirão tem um desejo insólito no seu aniversário de noventa anos: dar-se de presente uma “noite de amor com uma adolescente virgem”, e acaba se apaixonando por ela, numa relação para lá de insólita. O livro tem personagens extremamente bem construídos, um grande número de tiradas geniais e o estilo belíssimo de García Márquez.

 

Vernon God Little, de DBC Pierre (Record, 384 páginas): Este romance cínico e ácido, vencedor do Booker Prize de 2003, conta a história de um rapaz pouco inteligente e que é considerado culpado de um crime que, aparentemente, não cometeu. Parafraseando a famosa frase de William Shakespeare em Macbeth, Vernon God Little “é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria”.

 

Cinco Marias, de Fabrício Carpinejar (Bertrand Brasil, 123 páginas): Um jornal fictício, em sua edição de 31 de março de 2045, narra que uma mulher enterra o marido, morto de morte natural, no quintal de sua residência com a ajuda das quatro filhas. Todas elas afirmam que não era um ser humano que fora colocado embaixo da terra, mas sim a biblioteca da casa. Em suas investigações, a polícia encontra um diário na residência delas no qual, aleatoriamente, mãe e filhas colocavam novos textos sem assinar. Os intimistas, melancólicos e, principalmente, belíssimos poemas de Cinco Marias são estes "diários".

 

Sarah, de JT Leroy (Geração Editorial, 224 páginas): Esqueça toda a controvérsia a respeito de JT Leroy, que dizia que era um homem que se prostituíra para caminhoneiros quando garoto, mas que na verdade é o pseudônimo de uma mulher, Laura Albert. Seu livro de estréia - supostamente a autobiografia do próprio autor, que nunca existiu na realidade - é delirante, esquisito, violento... e excelente.

 

Menina de ouro, de F.X. Toole (Geração Editorial, 293 páginas): F.X. Toole é o pseudônimo Jerry Boyd, um obscuro treinador americano de boxe que tentou publicar durante décadas seus contos, todos relacionados àquele esporte, sem sucesso. Quando finalmente esta coletânea é lançada nos Estados Unidos em 2000, Toole já estava lutando contra o câncer que viria matá-lo pouco tempo depois. O conto Menina de ouro, que serviu de base para o premiadíssimo filme de mesmo nome, dirigido por Clint Eastwood, é uma das sete excelentes narrativas deste livro ótimo e com personagens notavelmente bem construídos.

 

Feriado de Mim Mesmo, de Santiago Nazarian (Planeta, 157 páginas): Rapaz solitário percebe, impotente, que um intruso está entrando em sua casa e tomando, aos poucos, conta de tudo. Claustrofóbico, angustiante, Feriado de Mim Mesmo vai ficando cada vez melhor e mais tenso à medida que vai chegando ao seu surpreendente final. Um thriller estranho e muito bem realizado.

 

Quando eu era o tal - minha vida na Jack Kerouac School, de Sam Kashner (Planeta, 344 páginas). Livro autobiográfico que descreve os anos em que o autor viveu como aluno na escola fundada pelos escritores beatnics Allen Ginsberg e William Burroughs em Boulder, Colorado. Na obra, Kashner descreve seus professores com grande franqueza, ironia e acidez: Ginsberg aparece como um homossexual promíscuo, Burroughs como um sujeito distante, sem compaixão e totalmente absorto em si mesmo e Gregory Corso é descrito como um maluco freqüentemente agressivo e violento. De todo o modo, ironicamente, o autor de Quando eu era o tal não consegue disfarçar o carinho e a admiração que sente por seus mestres.

 

Sábado, de Ian McEwan (Companhia das Letras, 344 páginas): Considerado por muitos críticos o livro mais importante lançado em 2005, Sábado conta a história de um dia na vida de um importante neurocirurgião, que vive um confronto com um delinqüente enquanto Londres é abalada por protestos contra a Guerra do Iraque.

 

 

 

 

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