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3:41 p.m. - 2006-06-28 Fabricio Muller
publicado na Revista do Estado do Paraná
Segundo o dicionário Houaiss, aforismo é um texto curto e sucinto,
fundamento de um estilo fragmentário e assistemático na escrita filosófica,
geralmente relacionado a uma reflexão de natureza prática ou moral. Este
tipo de sentença, bastante utilizado por filósofos alemães como Nietzsche, é
utilizado extensivamente no livro "Estilhaços: Minigâncias, Digressões e
Batocaços", do escritor, crítico literário gaúcho Marcelo Backes(Record, 173
páginas, R$ 28,90 em média). Outra forma bastante usada pelo autor é a da
epigrama, que, segundo uma das definições do mesmo Houaiss, é uma composição
poética, breve e satírica, que expressa, de forma incisiva, um pensamento ou um
conceito malicioso. Backes quer que seus aforismos sejam "guerrilheiros na
batalha da língua", que provoquem "tumulto onde reina a calma", e cavem
"trincheiras no terreno das opiniões". Já suas epigramas pretendem ser
"bofetadas na forma de beijo" e "a lírica da cólera". Como se pode ver, o
escritor não está para brincadeira.
Quem são as principais vítimas da escrita corrosiva do autor? A sua
enxaqueca: "a maldita enxaqueca é o lúcifer feito dor". As religiões e a
espiritualidade de modo geral: "escritores que acreditam mais no parentesco dos
homens com os anjos do que com os macacos não deveriam tomar assento à mesa da
literatura". A situação do panorama literário nacional: "chamando a literatura
brasileira às falas, fica claro que a inexistência de crítica e a falta de
combatividade literária nos trópicos é até formal". Os orientadores de sua tese
de doutorado feita na Alemanha, sobre o escritor Heinrich Heine: "o brasileiro –
o artista, o dançarino – jamais deve se esquecer de que o alemão – o cientista,
o sedentário – é duro e inflexível, normativo e curvado à norma". Seus desafetos
literários: "espero que entendam por que jamais discuti publicamente com eles.
Quem com esterco se mete..." Para os livros ruins (embora nenhum seja citado em
seu livro) que sua atividade de crítico obriga a ler, Backes recomenda o
seguinte: "Banheiro público! Vaso esmerdeado! Fazer pontaria! Mijar em cima!
Acertar em cheio! Deixar tudo limpo! Serviço prestado! Sensação de alívio com a
bexiga vazia! Puxar a descarga..."
Nem todos os aforismos e epigramas de Backes são assim tão agressivos. Há
também aqueles que versam sobre diversos assuntos, como sexo, seus escritores
preferidos, suas recordações. De todo o modo, o melhor de "Estilhaços" está em
dois engraçados capítulos em forma de dicionário: um com as biografias
corrosivas de pessoas de Anharetã, pequena cidade fictícia baseada naquela que o
autor viveu na infância e adolescência, Paca Norte, e outro em que relaciona os
termos futebolísticos utilizados no interior gaúcho.
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Segundo o ex-jogador e atual comentarista Tostão, "o grande craque é o que
simplifica, define logo a jogada. Antes da bola chegar, já sabe o que vai fazer
com ela. Não perde tempo com detalhes inúteis. Assim é também o cartunista,
desenhista e contador de histórias em quadrinhos. O desenho e as poucas palavras
- ou nenhuma – informam, analisam e nos divertem".
O trecho acima foi retirado do prefácio da coletânea de quadrinhos, de
vários autores, "Dez na Área, um na Banheira e Ninguém no Gol – Volume 1" (Via
Lettera, 112 páginas, R$ 42,00 em média). Todas as dez pequenas histórias, boa
parte delas sem título, contidas no livro têm como assunto principal o futebol –
tema, obviamente, mais do que em voga nestes tempos de Copa do Mundo.
O tipo de enfoque dos quadrinistas para com o mais popular esporte do mundo
varia bastante de um caso para outro. Num cartum ufanista e sem graça, assinada
por Osvaldo Pavanelli e Emílio Damiani, e dedicada ao Mestre Ziza (apelido de
Zizinho, famoso craque que jogou nas décadas de 40 e 50), os jogadores de 1982
aparecem flutuando acima do chão, enquanto que aqueles da Copa de 1994 são
desenhados como jogadores de pebolim: é a velha e desgastada apologia do futebol
arte se fazendo presente – como se poderia esperar, os jogadores de 58, 62 e 70
aparecem quase como super-heróis. Mas esta é a única história em que jogadores
famosos aparecem: nas outras nove, a crítica, as recordações dos autores ou a
fantasia dão o tom.
Lelis compôs uma ótima, debochada e corrosiva HQ em que o futebol dos
presídios de segurança máxima é narrado como se fosse realizado fora das grades,
ou de modo profissional: por exemplo, enquanto a narração fala em torcida
soltando "fogos de artifício", o desenho mostra presidiários atirando com seus
revólveres para o alto; quando o comentário é a respeito da "comovente"
capacidade de improvisação do brasileiro, que usa "qualquer coisa" como bola, o
desenho mostra os jogadores disputando uma partida chutando um crânio humano;
quando a narração fala de um centroavante "matador", o leitor já pode imaginar o
tipo de meliante que ele é... Outra história diretamente ligada com a violência,
mas de tom bem mais sério, é a de Samuel Casal, que mostra os sonhos e
desilusões de um garoto, relacionados ao futebol e à sua sobrevivência na favela
onde mora.
Outros cartuns contam a péssima relação de pessoas com o mundo da bola. Em
"Tudo o que é redondo me é estranho", Maringoni mostra como foi difícil, para o
personagem principal (seria o próprio autor?), começar a ter costumes
essencialmente masculinos para conseguir amigos homens: com este objetivo ele
aprendeu a olhar e a tratar as mulheres como simples objetos sexuais, a falar
com conhecimento de causa sobre carros modernos e partidas de futebol
importantes e insignificantes, além de passar ter modos grosseiros. Já a
declaradamente autobiográfica história de Allan Sieber mostra as aproximações e
distanciamentos do autor com o mundo da bola.
Boa parte dos cartuns tem a fantasia como característica principal. Em
"Harmonia das Esferas", de Spacca, o tom é onírico, numa história esquisita e
não muito bem realizada, que relaciona uma partida de futebol com astrologia. Já
Custódio mistura humor com sobrenatural, contando o caso de um excelente
goleiro, Juvêncio, que toma um frango inacreditável numa final, e que faz sua
equipe perder um título há muito. "Jogada", de Fábio Moon e Gabriel Bá,
apresenta um craque absoluto da bola – mas que é apenas fruto da imaginação de
um gari. "Mesa redonda sexo-futebol debate!", de Caco Galhardo, como o próprio
nome diz, apresenta um esquisitíssimo debate futebolístico em que as perguntas
são sobre sexo, e as respostas são as típicas de jogadores de futebol quando
falam de suas partidas. O delirante "Deu-se o diabo na terra do futebol", de
Leonardo, mostra a estranha partida de futebol que o dirigente "Eununco Meganha"
(baseado, obviamente, no presidente do Vasco, Eurico Miranda) marcou com o dono
de uma equipe de quinta categoria para ganhar votos: corrupção, violência, e
delírios de todos os tipos são os principais aspectos da HQ.
Mas a melhor de todas as histórias é "Yukio Miura", de Zimbres, que utiliza
com brilhantismo a terminologia da crítica de artes visuais para analisar a
carreira de um jogador e teórico do futebol, cujo nome dá o título ao cartum,
durante uma estranha década de 2050. Para que se tenha uma idéia, seguem alguns
exemplos da magistral – e engraçadíssima - prosa de Zimbres: "Essa jogada está
muito dura. Falta organicidade. Ninguém está pensando na superfície como um
todo." "Ah, o Garrincha, outro gênio! Ser como ele! Ser futebol, flutuar no
gramado como um santo, imolado pelo pensamento cartesiano, se oferecendo em
sacrifício à torcida e à arte." "E, com esta jogada, Romário rompe
definitivamente com o neo-realismo e inaugura sua fase situacionista." "Não é
isso que importa. A face feia da ordem mecânica não nos assusta. O 4-5-1 do
(time de futebol) Apolo S.A. é o desenho do medo humano frente às
forças incontroláveis da luz".
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