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3:27 p.m. - 2006-06-28
Socorro, Leitora!, de Gisela Rao e a coletânea de contos A visita

Fabricio Muller
publicado na Revista do Estado do Paraná

Depois de ficar dando conselhos a milhares de leitoras em revistas, livros e sites, a publicitária e escritora Gisela Rao resolveu criar, em "Socorro, Leitora!" (Matrix, 120 páginas), um novo estilo literário, o "auto ajude-me", que visa inverter a relação escritor/leitor: após contar detalhes de alguns de seus fracassados relacionamentos amorosos, a escritora dá o próprio e-mail para que aquelas (ou, até mesmo, aqueles) que lêem o seu livro lhe dêem conselhos, de modo que seus próximos namoros não acabem mal. Por motivos óbvios, nenhum dos três homens cujos namoros são descritos no livro tem seu nome verdadeiro relacionado.

Hurricane , o primeiro deles, tem treze anos menos que Gisela Rao. Ela foi atraída pelas seguintes características do perfil dele no Orkut (o maior site de relacionamentos pessoais da internet): além de ser árabe, numa foto era possível ver que ele tinha um "peito bronzeado e sem pêlos". Eles começaram a trocar e-mails, e Hurricane escrevia bem, além de ter uma "bela bagagem cultural" ("não confundia Blade Runner com uma academia para malhar"). Logo marcaram um encontro e, em pouco tempo, iniciaram um explosivo relacionamento amoroso, que não durou mais do que um mês. Hoje ela "dá graças a Deus" por não ter ficado mais tempo namorando, a cada vez que vê "uma mocinha deixar um post no blog dele com o coração partido". Afinal de contas, Hurricane "é um desses caras com a capacidade de arrasar uma artéria aorta em questão de segundos". Mas a autora não acha que ele faça isto por mal: tudo é "fruto de sua loucura e sua 'incapacidade' de assumir relacionamentos 'normais'". Ela chama isso - mesmo que talvez esta explicação faça Freud "arrancar a tampa do caixão" para enchê-la de tapas - de "'Síndrome de Mogli', homens de almas livres, que correm com os lobos".
 
Gumbo, o namorado que veio depois de Hurricane, era um sujeito piadista, o que às vezes "era um problema" no relacionamento deles, "porque eram 24 horas de piadas por dia". Gisela Rao não tem grandes queixas dele. O maior problema deste relacionamento se iniciou quando ela, que é publicitária, começou a trabalhar num núcleo novo na agência, o que a fez "transformar-se emocionalmente". O seu humor começou a mudar, e uma "agressividade medonha" instalou-se nela. Isto fez com que ela desse "patadas gratuitas" em Gumbo, e não só nele, o que lhe rendeu o apelido de "Monga, a mulher macaca". De todo o modo, este não parece ter sido assim um caso tão importante para autora: não só ela não se concentra muito nas características dele, como boa parte da parte do capítulo que lhe é dedicado descreve, em detalhes, uma viagem profissional até a cidade americana de New Orleans (antes do Katrina).

O caso que foi mais importante - o capítulo sobre ele ocupa mais da metade do livro - para Gisela Rao e que foi relatado em "Socorro, Leitora!" foi o de Sigmund, ou simplesmente C., um "cara realmente sério, intelectual, estudioso e, claro, psicólogo freudiano" (já se sabe, portanto, o porquê do apelido). Um amigo comum apresentou-os, e ela concluiu que ele era a sua "alma gêmea" quando soube que, além da sua profissão, que ela admira, ele era budista. Foi um namoro que foi "engatando devagarzinho, mesmo porque C. parecia que ia quebrar. Primeiro, porque estava saindo de uma crise de angústia das brabas; segundo, porque ele é magrinho, como um menino." Uma das grandes diferenças entre os dois era a velocidade: Gisela Rao é "rápida como um asteróide pegando fogo pelo espaço. Ele, totalmente slow movement" (movimento lento, em inglês no original). Outro problema que, aos poucos, foi afastando os dois é que ela sempre foi realizada profissionalmente enquanto que Sigmund passou boa parte do tempo, enquanto a namorou, desempregado. Por outro lado, a autora gostava do fato de ele ser sensível, e de ele ter dado um "upgrade" intelectual para ela. Os dois namoraram um longo tempo: juntos adotaram alguns gatos, foram em cerimônias budistas, leram. A separação foi melancólica, mas não violenta, e foi causada por alguns mal-entendidos, que possivelmente tiveram como causa principal a insatisfação profissional dele.

É bem possível que alguma leitora (ou, quem sabe, algum leitor) se identifique com os casos de Gisela Rao, mas, provavelmente, para a maioria das pessoas a leitura de "Socorro, Leitora!" não trará nada de tão interessante. A idéia de escrever um livro de "auto ajude-me" é interessante e engraçada, mas o resultado é, de modo geral, decepcionante. A autora não se aprofunda verdadeiramente em nenhum assunto, e percebe-se que ela não fica nem um pouco à vontade quando cita outros autores ou referências - ela mesma reconhece que nunca gostou muito de ler, característica que vai ficando clara na medida que se avança nas páginas do seu livro. Gisela Rao passa com rapidez, que acaba se tornando incômoda, por assuntos e pontos de vista totalmente díspares: análises psicológicas rasteiras, análises astrológicas, descrições de viagens que nada têm a ver com o objetivo da obra, reproduções de antigos contos eróticos (que já tinham sido publicados em outros veículos)... Tudo resultando num amontoado de informações de pouca, ou nenhuma, consistência.

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A editora Barracuda convidou treze escritores para a sua primeira antologia temática de contos, e os resultados da empreitada podem ser conferidos no ótimo "A visita" (170 páginas). Como se poderia esperar, os visitantes que aparecem no livro são de diversos tipos. As dimensões das histórias também são bastante variadas: enquanto o compositor, músico e escritor Fausto Fawcett utilizou 41 páginas para o seu "Menina veneno", - interessante fantasia sobre um futuro violento como o de "Laranja mecânica" (livro de Anthony Burgess filmado com grande sucesso por Stanley Kubrick) e com tecnologias malucas como as de "Neuromancer" (romance de William Gibson) -, Rodrigo Naves nem chegou a completar uma página para o seu ótimo "Tango", onde uma visita inesperada aparece para incomodar uma mulher casada.

Além dos já citados, o livro tem muitos outros pontos altos. Em "Visitas dominicais", de Ivana Arruda Leite, um garoto órfão, vivendo no interior, não consegue corresponder às expectativas criadas quanto ao seu futuro. Alexandre Soares Silva cria, em "O rosto", um personagem que passa o tempo todo tentando se lembrar das feições de uma pessoa com quem teve um caso amoroso. "Enquanto isso", de Jorge Viveiros de Castro, emociona descrevendo as visitas de um parente inválido. Uma velha cega espera a chegada do marido, mas não é ele que chega, no interessante "Silêncio", de Fabio Danesi Rossi. "Até quando, Marco Jr., abusará de nossa paciência", de Marcelo Ferlin Assami, é uma ágil história de intrigas e maquinações estudantis. Estranho e assustador, "Manhã", de Beatriz Bracher, tem estupros e pedofilia. Sobre um casal residente em Londres, "O percurso", de Michel Laub, tem um interessante final em aberto. "Anna O", de Ricardo Lísias, tenta imaginar o que passou pela cabeça do psiquiatra que assinou o laudo que concluiu que o ex-ditador chileno General Pinochet "não tinha boas condições mentais", quando de um rumoroso processo contra ele.

Com tantos destaques, fica até difícil apontar o melhor dos contos de "A visita". De todo o modo, este provavelmente seja "Travessias de horizonte e maré brava", de Bruno Zeni, pela pungência e extrema sensibilidade ao tratar da história de um filho que faz uma viagem de quatrocentos quilômetros para visitar os pais, que moram em outra cidade.

 

 

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