2:27 p.m. - 2006-08-05
Ficção científica
À FRENTE DO NOSSO TEMPO
Augusto de
Almeida
A Guerra dos Mundos, H.G. Wells (Itatiaia, 171
páginas)
Em linhas gerais, podemos dizer que existem dois tipos de
histórias de invasão alienígena. Em um deles, o mais sutil, que geralmente ocupa
telas de cinema e televisão, os alienígenas dominam a Terra aos poucos, como um
vírus que se espalha lentamente, tomando mentes e corpos, usando tecnologia
avançada ou simplesmente recursos biológicos. Esse é o caso do filme "Invasores
de Corpos" (1956) e do seriado televisivo "Invasion" (2005). O segundo tipo,
muito mais antigo, foi fundado por H. G. Wells (1866 - 1946) em seu "A Guerra
dos Mundos" (1898) e trata da invasão militar por meio da força bruta. Os
alienígenas de Wells são inteligentes, frios e raivosos e pretendem transformar
a raça humana em animais de carga e de corte. Mas, mesmo tendo estudado a Terra
durante muito tempo, os marcianos são derrotados por um inimigo invisível: o
micróbio. Embora um clássico, vertido duas vezes para as telas do cinema e tendo
inspirado filmes desde o oportunista "Independence Day" (1996) até o sarcástico
"Marte Ataca!" (1996), sem falar na catastrófica adaptação radiofônica de Orson
Welles (1938), o final de "A Guerra dos Mundos" nada mais é do que um deus
ex-machina: quando tudo parece perdido, os micróbios descem dos céus e
resolvem a questão. Apesar disso, Wells deixou no ar também um final
alternativo, mesmo que somente como uma espécie de profecia pessimista de um
certo soldado da artilharia com o qual o narrador se encontra. Nesse final, os
marcianos se estabeleceriam na Terra e governariam os humanos por milênios,
passando a nos tratar da maneira gentil como tratamos os outros animais,
escravizando a maioria de nós e transformando alguns outros em animais de
estimação. Este é certamente um final mais provável, mas somente dentro do
universo improvável no qual uma raça super-avançada cruza o espaço
interplanetário somente para fazer churrasco.
Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley (Globo, 309
páginas)
No século XXVI, os habitantes de Londres são produzidos em
série, programados com auxílio de "hipnopédia" e controlados por meio de drogas,
de modo a desempenharem adequadamente seus papéis sociais (os "alfas" são
diretores e gerentes, os "betas" são trabalhadores qualificados, os "gamas" são
trabalhadores braçais e assim por diante até os níveis mais baixos). As guerras
e a pobreza não mais existem, pois as pessoas são controladas de maneira a não
desejarem nada capaz de colocar em risco a ordem social. O progresso também não
existe mais, pois a sociedade já atingiu o máximo desenvolvimento possível. Tudo
seria perfeito se não fossem, é claro, um ou dois detalhes. Nesse "Admirável
Mundo Novo" (1932) do britânico Aldous Huxley (1894 - 1966), a família foi
também eliminada, juntamente com a arte, a literatura, a ciência, a religião e
toda a diversidade cultural. Além disso, seres humanos normais (os "selvagens")
continuam existindo, vivendo em reservas fora dos limites das cidades. Quando o
mundo asséptico dos alfas, betas e gamas entra em contato com o mundo dos
selvagens, o conflito eclode e as diferenças são expostas.
É interessante notar que, para construir uma sociedade utopicamente
automatizada, Huxley tomou como base as linhas de produção de Henry Ford.
Contudo, por volta de 1932, quando o romance foi escrito, o modelo de produção
de Ford já estava em decadência, tendo sido substituído pelo modelo
diversificado e mais mercadológico de Alfred Sloan, da General Motors. Também é
curioso notar que Huxley não menciona o termo "engenharia genética", pois o DNA
só viria a ser descoberto na década de 50. Mas, mesmo que fosse projetada e
construída por meio da engenharia genética, a sociedade imaginada por Huxley
provavelmente seria tão instável quanto qualquer outra. A natureza humana é
incontrolável.
Contato, Carl Sagan (Companhia das Letras, 416
páginas)
O astrônomo Carl Sagan (1934 - 1996) ficou conhecido do
grande público por meio da série televisiva de divulgação científica "Cosmos"
(1980), na qual o cientista discute uma série de problemas relacionados ao
universo e à vida. Em 1985, Sagan publicou "Contato", seu primeiro e único
romance, que descreve as aventuras da astrônoma Eleanor "Ellie" Arroway,
alter-ego de Sagan, em busca de inteligência extraterrestre. O romance gira em
torno da construção da "Máquina", uma espécie de nave espacial de propósito
desconhecido, cujo projeto havia sido enviado para os terráqueos por supostas
criaturas extraterrestres super-inteligentes. Após construir a nave, Ellie e uma
equipe internacional de cientistas embarcam em uma jornada rumo ao desconhecido,
no final da qual se encontram com os projetistas da "Máquina". Os
extraterrestres aparecem, decepcionantemente, com a aparência dos entes queridos
de cada um dos tripulantes, não revelam grandes mistérios universais e
declaram-se paternalmente preocupados com a raça humana ("aqueles nazistas aos
berros deixaram claro que vocês estavam em apuros, mas a música de Beethoven nos
mostrou que ainda havia esperança").
Sagan usa "Contato" como cenário para expor suas idéias a respeito de seus
assuntos prediletos, como a busca por inteligência extraterrestre, religião,
ateísmo, ceticismo, astronomia e ciência em geral. É curioso que Sagan, um dos
grandes divulgadores do ceticismo científico, tenha escrito um romance tão
repleto de significado religioso. Em vez de buscar a um Deus abramânico,
onisciente e onipotente, Sagan busca contato com seres extraterrestres altamente
evoluídos, capazes de viagens interestelares, telepatia e experiências em
galactogênese artificial. Talvez os psicanalistas estejam certos quando dizem
que o ser humano só consegue se definir e se identificar quando em contato com o
outro. E, nessa era de crescente globalização, em que todas as pessoas começam a
se tornar muito parecidas e quando não existem mais civilizações misteriosas a
serem descobertas, é possível que os extraterrestres sejam o "derradeiro outro".
A busca por eles é, portanto, a busca por nós mesmos.
Parque dos Dinossauros, Michael Crichton (Best Seller, 473
páginas)
Michael Crichton (n. 1942) é freqüentemente considerado
como o criador do techno-thriller, gênero literário que mistura ação,
guerra (conforme o caso) e ficção científica, com grande profusão de detalhes
técnicos. Em "Parque dos Dinossauros" (1990), Crichton conta a história de
um parque temático no qual dinossauros foram recriados a partir de DNA fóssil.
Antes da abertura ao público, as empresas de seguro exigem que uma equipe de
cientistas (dois paleontólogos e um matemático especializado em teoria do caos)
faça uma auditoria das instalações. Durante a visita, os dinossauros fogem ao
controle e provocam muita destruição e morte. Embora freqüentemente use seus
livros para apresentar novas descobertas científicas, Crichton sempre envolve
suas histórias em uma aura de "complexo de Frankenstein", aquele pressuposto
segundo o qual a criatura se volta contra o criador. Apesar disso, o livro abriu
um debate científico sobre as reais possibilidades de se clonar seres extintos,
além de apresentar ao grande público a teoria de que os dinossauros teriam sido
criaturas de sangue quente e muito bem adaptados ao meio-ambiente ancestral.
2001: Uma Odisséia no Espaço, Arthur C.
Clarke
"2001: Uma Odisséia no Espaço" (2001: A Space Odyssey,
1968) foi escrito por Arthur C. Clarke (n. 1917) concomitantemente com o roteiro
da versão cinematográfica de Stanley Kubrick. A história começa quando uma
antiga raça alienígena, na África, há três milhões de anos, usa uma espécie de
monolito para ensinar alguns hominídeos a construir armas e começar a comer
carne. Posteriormente, já em 1999, o monolito reaparece na Lua, onde é
descoberto por uma expedição. Dois anos depois, entra em cena a espaçonave
Discovery, tripulada por David Bowman, Frank Poole, três astronautas em animação
suspensa e pelo computador HAL. A nave está em missão a Japeto, lua de Júpiter.
HAL começa a apresentar certos defeitos (identificados por alguns como uma
espécie de paranóia cibernética) e passa a acreditar que os astronautas estão
colocando a missão em risco. Após matar os astronautas em hibernação, arremessar
Poole ao espaço e quase matar Bowman, HAL é finalmente desligado pelo astronauta
sobrevivente. Sem condições de retornar à Terra, Bowman continua se aproximando
de Japeto. Ao embarcar em atividade extra-veicular para investigar o monolito
recém-descoberto em órbita da lua, Bowman é engolido por ele, transformando-se
em um ser imortal, capaz de viajar pelas estrelas: a "criança estelar". Tanto o
livro quanto o filme levantam mais perguntas do que as respondem, tocando em
assuntos que transitam entre a evolução humana, contato com seres
extraterrestres, inteligência artificial e os perigos da tecnologia e da
exploração espacial. As relações entre a humanidade e os construtores dos
monolitos ficam mais claras nos livros seguintes: "2010: Odyssey Two" (1982),
"2061: Odyssey III" (1988) e "3001: Final Odyssey" (1997). Ao leitor que
porventura pense que os alienígenas da serie "Odisséia" são místicos ou
espirituais demais, fica o recado da terceira lei de Clarke: "qualquer
tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia".
O Guia do Mochileiro das Galáxias, Douglas Adams (Sextante,
em quatro volumes: O Guia do Mochileiro das Galáxias - vol. 1 ; O Restaurante no
Fim do Universo - vol. 2 ; A Vida, o Universo e Tudo Mais - vol. 3 ; Até Mais, e
Obrigado Pelos Peixes! - vol. 4)
Em uma bela manhã inglesa, o inglês
Arthur Dent descobre que sua casa inglesa será demolida para dar passagem a uma
nova rodovia. Pior do que isso, pouco depois ele descobre que seu amigo Ford
Prefect é na verdade um alienígena nascido em um pequeno planeta na vizinhança
de Betelgeuse. Muito pior ainda, ele descobre que em breve a Terra será
destruída pelos vogons, alienígenas emburrados, para dar passagem a uma nova
rodovia hiperespacial. Pegando carona em uma nave vogon e com auxílio do Guia do
Mochileiro das Galáxias, Prefect e Dent iniciam uma viagem pelo universo,
visitam o lendário planeta Magrathea, onde há muito vicejou uma indústria de
construção de planetas, e descobrem que a Terra era um supercomputador
construído por uma raça de seres pan-dimensionais, conhecidos por aqui como
"camundongos", com o objetivo de responder à pergunta definitiva sobre a vida, o
universo e tudo mais. Contudo, os vogons destruíram a Terra cinco minutos antes
da finalização do programa que estava rodando há 10 milhões de anos!
Com sua prosa sarcástica e repleta de nonsense, Douglas Adams (1952 - 2001)
conta uma história absurda, com personagens absurdos vivendo situações absurdas.
Contudo, o que é mais absurdo: destruir um planeta para construir uma rodovia
hiperespacial, ou destruir um país inteiro para resgatar um ou dois soldados? O
humor de Adams agrada a muitos, pois os alienígenas retratados por ele são
humanos, muito humanos, e desagrada a outros tantos, provavelmente pela mesma
razão. Para felicidade dos fãs, Adams continuou sua sátira em "O Restaurante no
Fim do Universo" (1980), "A Vida, o Universo e Tudo Mais" (1982) e "Até mais, e
Obrigado pelos Peixes!" (1984). O quinto livro da série, Mostly Harmless (1992),
ainda não foi lançado no Brasil. A pergunta sobre a vida, o universo e tudo mais
foi finalmente respondida, mas até o momento ninguém entendeu a resposta.
Eu, Robô, Isaac Asimov (Ediouro, 320 páginas)
Em
"Eu, Robô" (1950), Isaac Asimov (1920 - 1992) nos apresenta nove contos
publicados nas pulp magazines Super Science Stories e Astounding Science Fiction
entre os anos 40 e 50. Os contos são entrelaçados por meio de uma
entrevista dada pela Dra. Susan Calvin, primeira robô-psicóloga da história, a
um repórter, e cobrem desde o aparecimento dos primeiros robôs positrônicos na
Terra até o advento das viagens hiperespaciais, desenvolvidas com auxílio de
cérebros positrônicos. Asimov cria um conjunto de "leis da robótica" e usa seus
robôs humanóides para testar situações nas quais as leis entram em conflito. Em
dada altura, um robô é fabricado com um defeito que lhe confere a capacidade de
ler mentes humanas. Ninguém sabe qual o defeito, exceto o robô. O conflito
aparece quando a Dra. Calvin ordena que o robô lhe conte como reproduzir tal
defeito. Caso não obedeça, o robô entrará em conflito com a segunda lei ("um
robô deve obedecer às ordens dadas pelos humanos, a não ser naquelas situações
em que tais ordens entrem em conflito com a primeira lei"). Contudo, podendo ler
a mente da Dra. Calvin, o robô sabe que ela ficará desapontada quando descobrir
que ele é capaz de saber algo sobre os cérebros positrônicos que ela não sabe.
Assim, caso obedeça à ordem, ele causará mal a um ser humano e entrará em
conflito com a primeira lei ("um robô não pode causar mal a um ser humano, ou,
por inação, permitir que um ser humano sofra um mal"). Como resultado, o pobre
robô entra em um dilema deôntico e coloca sua existência em risco, entrando em
conflito com a terceira lei ("um robô deve proteger sua própria existência,
desde que tal proteção não entre em conflito com a primeira e a segunda
leis").
Asimov domina com maestria essas situações de conflito envolvendo as leis da
robótica, mesmo que elas não passem de conflitos humanos simplificados. Não
sendo um grande construtor de personagens humanos, Asimov tornou-se um grande
construtor de personagens robóticos. Antes dele, os robôs já existiam na ficção
científica, mas eram vistos como meros servos ou então como ameaça no estilo
"Frankenstein". É curioso que Asimov tenha passado à historia como o escritor
que conseguiu humanizar os robôs, ao mesmo tempo em que robotizou os personagens
humanos.
Solaris, Stanislaw Lem (Relume Dumará, 272
páginas)
Em "Solaris" (1961), Slanislaw Lem (1921 - 2006) aborda o
tema do encontro entre seres humanos e uma criatura alienígena não humanóide. Em
vez de se dedicar a uma gosma esverdeada fantasmagórica flutuante, Lem nos
apresenta o planeta Solaris, cujo oceano é um único organismo vivo, com
demonstrações de inteligência e consciência, embora em um sentido completamente
alienígena. Enquanto todas as tentativas de comunicação falham, o oceano de
Solaris parece se divertir com os humanos, vasculhando-lhes o inconsciente e
tirando deles lembranças dolorosas do passado, as quais são materializadas em
forma de pessoas e apresentadas aos pesquisadores. Kris Kelvin, o protagonista,
é enviado ao planeta e emerge inadvertidamente em meio à confusão. Rapidamente
Kelvin passa a receber a visita de sua ex-mulher Rheya, que havia cometido
suicídio depois de se separar dele. Diferentemente do final ameno na recente
adaptação para o cinema, Lem não nos oferece soluções definitivas para os
conflitos emocionais que se instauram na mente de Kelvin e na da mulher
sintética, recriada à perfeição pelo Oceano. Em vez disso, Lem deixa claro que
nosso antropomorfismo ocidental, segundo o qual o homem é a medida de todas as
coisas, é irrelevante em termos universais. Se o homem sempre se projeta no
universo, em Solaris é o universo que se projeta no homem. E isso é insuportável
para nossos cérebros ego-centrados.
As Crônicas Marcianas, Ray Bradbury (Globo, 304
páginas)
"As Crônicas Marcianas" (1950) formam um conjunto de contos
publicados por Ray Bradbury (n. 1920) nos anos 40, apenas levemente costuradas
em forma de livro e nem sempre pertencentes ao mesmo universo ficcional. Esqueça
tudo o que você sabe sobre Marte. Esqueça as descobertas atuais e esqueça o
pouco que se sabia sobre esse planeta na década de 40. Em vez de um planeta
frio, árido e de atmosfera tênue, Bradbury nos apresenta um Marte que só poderia
existir em um universo paralelo: quente, respirável, repleto de canais
construídos por uma civilização antiga, habitado por marcianos românticos e
sonhadores. Fugindo de uma Terra tumultuada, os seres humanos começam a ocupar
Marte lentamente, chegando com seus foguetes, construindo cidades humanas e
fazendo piqueniques humanos. O futuro da Terra é incerto e a esperança parece
residir em outro planeta. Bradbury, o poeta da ficção científica, escrevendo no
início da Guerra Fria, aproveita para expor suas preocupações acerca do
progresso tecnológico, imperialismo, poluição, censura, guerra nuclear e valores
familiares. "As pessoas me pedem para prever o futuro, quando tudo que eu quero
é preveni-lo", diz ele.
O Homem de Dois Mundos, Frank Herbert e Brian
Herbert
Frank Herbert (1920 - 1966) é mais conhecido como autor dos
livros da série "Duna". Em "O Homem de Dois Mundos" (1986), ele se une ao seu
filho Brian para contar a história do encontro entre os dreens e os seres
humanos. Os dreens, os seres mais poderosos do universo, vivem no distante
planeta Dreenor. Tudo que existe no universo, vivo ou inanimado, é fruto da
imaginação dos dreens, ou melhor, da "idmaginação". Em um canto escuro da
galáxia, entretanto, franceses e chineses lutam pelo domínio do planeta Vênus e
estão prestes a descobrir o segredo das viagens interestelares. Se essa espécie
primitiva e beligerante chegar até Dreenor, será o fim do universo. Os anciãos
de Dreenor resolvem então destruir a Terra. Antes que isso aconteça, um
adolescente dreen, chamado Ryll, embarca em uma viagem não autorizada até a
Terra. Ao colidir com uma nave terrestre, Ryll sofre ferimentos graves e é
forçado a se fundir a Lutt, um humano. Um só corpo e duas mentes: um alienígena
ingênuo e um terráqueo agressivo. Se alguma coisa acontecer a Dreenor, restará a
Ryll, e a apenas outro dreen, a tarefa de manter o universo no lugar, com um
agravante: os dreens ficam chapados com manjericão, planta da qual a Terra está
cheia! As inquietações existenciais de Frank, temperadas pelo humor e cinismo de
Brian Herbert, produziram um misto sem igual de fantasia e ficção
científica.
1984, George Orwell (Nacional, 302
páginas)
"1984", de George Orwell (1903 - 1950) é provavelmente uma
distopia mais conhecida do que "Admirável Mundo Novo". Uma das razões talvez
seja a crença de que os eventos descritos por Orwell tinham data marcada para
acontecer e, de fato, por volta de 1984 houve muita agitação em torno do livro.
Contudo, acredita-se que o título do livro, que originalmente se chamava "O
Último Homem na Europa", venha de uma simples troca dos últimos dígitos do ano
em que Orwell acabou de escrevê-lo: 1948. Outra razão é que a sociedade de
"1984" é mais verossímel do que a de "Admirável Mundo Novo". Nunca existiu na
Terra uma sociedade cientificamente planejada e controlada como a de Huxley, mas
todos presenciamos tentativas de construção de sociedades totalitárias como a de
Orwell. Referências ao "Grande Irmão" nos apavoram, pouquíssimos de nós apreciam
a opressão maciça e nosso amor pela liberdade de expressão é grande a ponto do
governo cubano nunca ter repelido hordas de norte-americanos cruzando o mar rumo
a Havana. Se Huxley retrata uma sociedade que retira a liberdade de seus
cidadãos por meio de drogas, engenharia social e lavagem cerebral, Orwell
retrata uma sociedade que retira a liberdade por meio da opressão, da violência
e da instauração do temor coletivo. Difícil decidir qual a mais aterradora.
A Mão Esquerda da Escuridão, Ursula Le Guin
Ursula Le Guin já foi definida como uma escritora de ficção
científica para quem não gosta de ficção científica. Apesar disso, "A Mão
Esquerda da Escuridão" arrematou os mais cobiçados prêmios do gênero: o Nebula,
em 1969, e o Hugo, em 1970. No livro, Genly Ai é o representante de uma
federação galáctica de mundos cujo objetivo é arrebanhar o gelado mundo de
Gethen. Os habitantes do planeta são humanóides não muito diferentes dos seres
humanos, a não ser por uma única e importante característica: eles são
andróginos. Durante três semanas de cada mês, os gethenianos são biologicamente
neutros, e durante a semana restante podem ser macho ou fêmea, dependendo das
interações entre os feromônios de um possível parceiro. A tese de Le Guin é que
em uma sociedade igualitária a guerra e o nacionalismo seriam inexistentes. As
nações existiriam, certamente, com diferentes culturas separadas pela distância,
mas se fundiriam facilmente quando necessário. A diminuição do ímpeto pela
conquista tornaria o progresso mais lento e as pessoas seriam menos apressadas.
Como tal sociedade dificilmente surgiria pelas pressões evolutivas naturais, Le
Guin argumenta que os gethenianos teriam sido produzidos por meio de engenharia
genética, como forma de resistir aos rigores glaciais do planeta Gethen, que
desempenha o papel de um personagem adicional. Uma tese fascinante, desenvolvida
com talento e lirismo. O preço da paz imaginada por Le Guin, contudo, talvez
seja alto demais, ao menos de um ponto de vista meramente
humano.