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6:37 p.m. - 2006-08-05 por Fabricio Muller pubicado na revista dominical do jornal O Estado do Paraná
Scardale é uma pequena e quase isolada comunidade, composta por cerca de uma dezena de casas, na área rural da Escócia. Seus habitantes, em sua maior parte, casam entre si - e é uma sorte que este hábito tenha gerado pouquíssimos deficientes físicos ou mentais ao longo dos anos. Em 1963, ano em que se inicia a primeira parte de Um corpo para o crime, romance policial de suspense da jornalista e escritora escocesa Val McDermid lançado originalmente em 2000 e traduzido recentemente pela Bertrand Brasil (504 páginas), os moradores ainda não conseguiam, por causa do isolamento do local, receber o sinal das emissoras de televisão - apenas as ondas de rádio conseguiam recepção. O único telefone em Scardale era público, e ficava na única praça do povoado; as crianças da comunidade eram ridicularizadas na escola de Buxton (cidade próxima, onde elas estudam) por serem caipiras - o que só fazia aumentar o isolamento delas em relação ao resto do mundo. O único "forasteiro" é Philip Hawkin, que é dono de todas as terras de Scardale (aí incluindo as casas), que recebeu por herança do antigo dono, um parente distante. Depois de chegar no povoado para tomar posse de tudo, ele instalou-se na melhor das residências do local e, após alguns meses, pediu em casamento uma jovem viúva moradora, Ruth Carter. Tudo ia aparentemente bem até que a filha do primeiro casamento de Ruth, Alison, some sem deixar pistas – exatamente como ocorrera com duas crianças em Manchester poucos meses antes. Desesperada, a mãe chama a polícia pra tentar encontrá-la, e quem é escalado para a investigação é um jovem detetive formado em direito e em começo de carreira, George Bennet. Com medo de ficar marcado por um insucesso em seu primeiro caso importante, o inspetor dedica-se com enorme empenho no caso do sumiço da moça. No decorrer da investigação ele passa pouco tempo em casa - por mais que amasse profundamente sua mulher, Anne, com quem se casara recentemente e que engravidara pouco tempo depois do desaparecimento de Alison. Ele percorre diversas vezes por dia a estrada em más condições entre Buxton, onde reside, e Scardale, sem temer o violento frio do inverno da região, entrevista todos os moradores do povoado, e passa horas e horas lendo depoimentos de possíveis suspeitos - sua obsessão pelo caso é tão grande que mesmo no Natal ele sai no meio do jantar para prestar solidariedade aos habitantes do povoado. Esta dedicação é compartilhada pelo sargento Tommy Clough, policial de modos rudes, mas amante de pássaros e de jazz. Logo aparece uma primeira pista no caso: a cadela de Alison, com quem a menina tinha saído para passear antes de sumir, é encontrada no meio do mato amarrada e com a boca enfaixada com esparadrapo - o que desperta a suspeita de que o seqüestrador conhecia a garota, porque senão não conseguiria fazer nada com a cachorra, agressiva com estranhos. Depois disto as investigações se desenvolvem com exasperante lentidão. Um parente débil mental de Alison, que tinha sido expulso de Scardale por obscenidade, é visto nas redondezas no dia do crime e é tido como suspeito - mas não só nada se prova contra ele como a irresponsabilidade de um jornalista acaba fazendo o rapaz quase ser linchado e, depois de fugir dos perseguidores, morrer de frio numa estrada (a imprensa sensacionalista, aliás, que ainda estava nascendo na Grã-Bretanha em 1963, é responsável por grandes dores de cabeça para o detetive Bennet). A situação parecia um beco sem saída quando uma das moradoras de Scardale, a "Mamãe" Lomas, avisa que existe uma mina de chumbo abandonada há séculos na região, e que a polícia deveria ter investigado ali: é lá que são encontradas as primeiras pistas decisivas para o caso, que, junto com outras novas, acabam condenando um dos moradores de Scardale à morte - apesar de o corpo de Alison não ter sido encontrado. Mais de três décadas depois, uma jornalista, Catherine Heathcote, resolve fazer um livro sobre o assunto e convida George Bennet para uma série de entrevistas - e ele aceita, apesar de não ter dado mais depoimentos sobre o desaparecimento de Alison depois da resolução do caso. Mas, quando o livro da jornalista está quase pronto, o detetive pede para que ela - por razões que ele não poderia externar - não o publique mais. Não se comentará aqui o que ocorre depois para não estragar a surpresa. Escolhido como melhor livro do ano pelo jornal Los Angeles Times, na categoria terror/suspense, além de ter recebido os prêmios Dilys (dado pela Associação Independente dos Editores de Livros de Mistério) e Barry de melhor livro britânico de mistério (dado pela revista Deadly Pleasures Magazine), além de ter sido citado pelo New York Times como um livro notável lançado em 2000, Um corpo para o crime prende a atenção da primeira à última página, com uma trama excepcionalmente bem trabalhada. Outra inegável são as suas ótimas descrições de locais, atmosferas e paisagens, que fazem com que o leitor "se sinta" na fria Scardale. Por outro lado, por mais que Val McDermid consiga satisfatoriamente descrever os sentimentos e angústias dos seus personagens, estes não chegam a ser muito ricos e complexos – mas, dadas as muitas qualidades do livro, isto não faz tanta falta assim.
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