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2:31 p.m. - 2006-08-24
Livros: Uma ponte para Terebin, Conexão Wrigth Santos-Dumont, 100 maiores
por Fabricio Muller
publicado na revista dominical do jornal O Estado do Paraná

1) Uma ponte para Terebin, de Letícia Wierzchowski

Uma ponte para Terebin, de Letícia Wierzchowski (Record, 444 páginas), é uma biografia romanceada do polonês Jan Wierzchowski, avô da autora. A história atribulada da vida dele realmente vale um livro.

Aos quatorze anos ele foge de sua cidade natal, Terebin, e vai tentar a sorte em Varsóvia. Jan foi praticamente sem dinheiro, mas "o simples fato de haver chegado" na capital polonesa, "onde ele jamais pusera os pés antes, era, em si, um motivo de contentamento, e um final feliz". Mal chegando lá, num incrível golpe de sorte, ele trava contato um engenheiro polonês (cujo nome Letícia jamais conseguiu descobrir) que resolve lhe dar abrigo, o emprega como pedreiro e ainda custeia seus estudos (ele chegou a completar o curso técnico de construção civil). Depois disso Jan, que tinha fugido de casa sem avisar, faz as pazes com os pais e passa temporadas morando alternadamente na capital polonesa e em Terebin (além de ter estudado na Alemanha por alguns meses). E é em sua cidade natal que Jan se apaixona e começa a namorar sua prima Feliska, a qual viria a ser sua primeira mulher. Já depois de casada ela cai num lago gelado e fica muito tempo lá até ser socorrida, num acidente que viria a prejudicar sua saúde seriamente pelo restante de sua (curta) vida.

O avô de Letícia Wierzchowski definitivamente não tinha medo de mudanças: com poucos anos de casado ele sai da Polônia e emigra para o Brasil. Aqui no país ele se estabelece em Porto Alegre e começa a trabalhar com construção civil. Não muito tempo depois, a frágil Feliska acaba falecendo. Jan, que tinha uma compleição física e modos que sempre agradaram às mulheres, logo casa com Anna, uma polonesa que estava estabelecida há bastante tempo no país e que falava bem o português (e que também viria a ser a avó da autora de Uma ponte para Terebin). O casal tem um filho, Janecke, e logo a Segunda Guerra Mundial eclode na Europa. Nova mudança na vida de Jan Wierzchowski: para angústia de sua mulher, ele não resiste ao chamado da consciência e vai até a Europa servir como voluntário contra os nazistas - e lá ele sente na pele os horrores da guerra. Mas o avô da autora sobrevive e acaba conseguindo viver os últimos anos de sua vida tranqüilamente em Porto Alegre com a mulher e os filhos.

O romance é de leitura agradável, embora repetitivo e sentimental além da conta em alguns trechos. Mas o mais importante é que ele é uma espécie de painel de uma época: a história do avô de Letícia Wierzchowski é também um pouco a história de tantos milhares de imigrantes que o Brasil recebeu nos século XIX e início do século XX; e a trágica história da família que Jan deixou na Polônia é um pouco a história do enorme sofrimento do povo polonês durante o século XX.

2) Conexão Wright Santos-Dumont, de Salvador Nogueira

Quem inventou o avião? Foram os irmãos norte-americanos Orville e Wilbur Wright ou o brasileiríssimo Alberto Santos-Dumont? Esta polêmica, que parece não ter fim, tem uma importância muito grande... aqui no Brasil. Fora do país, ninguém tem a menor dúvida: os irmãos da cidade de Dayton, Ohio, fizeram o primeiro vôo com um aparelho mais pesado que o ar, o Flyer, no dia 17 de dezembro de 1903. O vôo inaugural do 14bis, ocorrido a 12 de novembro de 1906, foi praticamente esquecido no mundo todo.

Para tentar dirimir esta polêmica por aqui, o jornalista Salvador Nogueira escreveu Conexão Wright Santos-Dumont (Record, 386 páginas). O livro é uma história dos pioneiros da aviação contada de maneira romanceada (ao contrário da primeira obra do autor, a também ótima Rumo Ao Infinito, publicado pela Globo, que discorre sobre a corrida espacial de maneira mais tradicional).

Para dar uma idéia melhor da evolução dos anos iniciais da aviação, Salvador Nogueira faz com que a cada capítulo corresponda a um ano, em ordem cronológica. O primeiro capítulo do livro corresponde ao ano de 1896 e mostra como o grande cientista lord Rayleigh era refratário à idéia de que fosse possível criar um objeto "mais pesado que o ar" que voasse, enquanto que os finais, 2003 e 2006, contam a história pessoal do envolvimento do autor com o objeto do livro e dá novas informações e teorias sobre a história da aviação. Outra técnica de Salvador Nogueira no livro é a utilização extensiva de diálogos, o que acaba deixando a leitura de Conexão Wright Santos-Dumont bastante ágil e agradável.

O livro mostra que os irmãos Wright eram donos de uma pequena oficina de venda, fabricação e conserto de bicicletas em Dayton. Wilbur foi o primeiro a ter a idéia de fazer o avião: ele "sentia que sua habilidade como construtor de bicicletas serviriam bem à tarefa. Nada como o mestre de confecção de um invento inerentemente instável, mas ainda assim manobrável e prático, conceber outro invento de instabilidade similar, conferindo-lhe a praticidade exigida para um meio de transporte. Era assim que ele via a coisa toda. Mera questão de engenharia." Como a oficina dos irmãos praticamente parava no inverno, era nesta estação do ano que eles trabalhavam - sem nenhum patrocínio externo - em seus inventos. O local escolhido para as experiências foi Kitty Hawk, na Carolina do Norte. A partir do ano 1900 eles começaram a fazer testes de seu avião, o Flyer, até que conseguem fazê-lo voar, em 1903.

Wilbur e Orville Wright faziam suas experiências secretamente porque queriam preservar as patentes de seu invento. Quando do primeiro vôo de Santos-Dumont, em 1906, praticamente não havia fotos públicas do avião dos irmãos de Dayton. De todo modo, na época era fato conhecido por praticamente todos os envolvidos com aviação que os dois americanos poderiam ter conseguido voar, já que eles mandavam cartas para vários governos tentando vender seu invento, além de tentar patenteá-lo. Depois que o 14bis levantou vôo de maneira oficial e reconhecida por todos, finalmente os irmãos Wright resolveram dar publicidade a seu Flyer, e seus primeiros vôos já eram de vários quilômetros, cobrindo distâncias muitíssimo maiores que aquelas que o avião do inventor brasileiro conseguia percorrer. Isto provava, portanto, que entre 2003 e 2006, Orville e Wilbur desenvolveram com grande competência o seu invento. Este fato, somado à grande quantidade documentos – como fotografias, correspondências, anotações detalhadas de seus diários e dos resultados de seus experimentos - feitos antes de 2006 e posteriormente mostrados pelos irmãos de Dayton, são a prova definitiva de que eles foram os primeiros a voar com o "mais pesado que o ar".

Se uma das principais objeções brasileiras aos primeiros vôos dos Wright - a de que eles foram feitos secretamente e, portanto, podem não ter ocorrido – cai, como vimos acima, facilmente por terra, a segunda objeção, a de que eles eram lançados a partir de catapultas (os irmãos Wright achavam que era mais prático utilizar pequenas distâncias para decolagem, e com este intento utilizavam força externa para ajudar a tirar o seu avião do solo) e não por seus próprios meios também é derrubada por Salvador Nogueira. Primeiro, porque os jatos de caça que são lançados de porta-aviões também são impelidos desta forma e nem por isto deixam de ser aviões. Depois, porque o vôo inicial do Flyer não utilizou catapulta e sim o vento favorável na ocasião – aliás, exatamente como foram feitos os primeiros vôos do 14 bis... Em outras palavras: se este argumento valer, o primeiro vôo de Santos-Dumont também "não vale".

Se praticamente elimina a possibilidade de que Alberto Santos-Dumont tenha inventado o avião (os argumentos finais de Salvador Nogueira no livro, comentando a respeito dos "muitos inventores" do aparelho são contraditórios com o que vem antes e, por isto, não podem ser muito levados em conta), por outro lado a leitura de Conexão Wright Santos-Dumont reforça a idéia da genialidade do brasileiro. Ele criou um dirigível extremamente eficiente, o Número 6, que ganhou o prêmio Deutsch de La Meurthe, de 100.000 francos, por ter sido o primeiro a fazer um percurso em Paris que incluía dar uma volta na Torre Eiffel e voltar em menos de 30 minutos. Além disso, quando os irmãos Wright já voavam com seu Flyer ele ainda nem pensava em projetar aviões. Deste modo, o tempo decorrido entre o início do projeto do 14bis e o primeiro vôo foi curtíssimo – lembremos aqui que já havia muitos anos que outros inventores na França tentavam voar com uma máquina mais pesada que o ar e Santos-Dumont rapidamente passou na frente de todos eles. Outra prova da genialidade do brasileiro é a criação, logo depois do 14bis, do extremamente eficiente Demoiselle, o menor avião da época. Se o brasileiro tivesse maiores ambições comerciais –não as tinha provavelmente por ser riquíssimo, filho de um grande fazendeiro de café de Minas Gerais – e não tivesse, desde a época da criação do seu segundo avião, começado a desenvolver uma esclerose múltipla, Santos-Dumont certamente teria realizado ainda muito mais pela aviação mundial. Ele é um gênio que não pode, e não deve, ser esquecido.

3) As 100 Maiores Personalidades da História (586 páginas), de Michael H. Hart

Embora não seja exatamente correto chamá-los de "literatura de almanaque" (segundo uma das acepções do dicionário Houaiss, "de almanaque" significa superficial, imperfeito - falando-se de cultura, conhecimento, saber, humor etc.), os livros com listas de "100 maiores" lançados recentemente pela Difel aproximam-se bastante desta definição, com tudo de ruim (falta de profundidade) e de bom (prazer na leitura, curiosidade) que este tipo de literatura carrega consigo.

As 100 Maiores Personalidades da História (586 páginas), de Michael H. Hart, "classifica os 100 personagens na história que", na sua visão, "tenham sido os mais influentes". A lista do autor é por ordem de importância e, certamente, sua classificação é polêmica desde o início: afinal de contas, no livro Jesus Cristo aparece em terceiro lugar, atrás de Maomé (o primeiro) e Isaac Newton.

Apesar de as tragédias (naturais ou causadas pelo homem) que constam em As 100 Maiores Catástrofes da História, de Stephen J. Spignesi (496 páginas), serem apresentadas em ordem decrescente de número de mortos, a classificação do autor é subjetiva: segundo ele, "para cada terremoto relatado no livro, existem centenas de outros com um total igual ou superior de mortes", e assim por diante, nos casos de surtos de fome, acidentes de avião, etc.

Já a ordem das invenções mostrada em As 100 Maiores Invenções da História, de Tom Philbin (416 páginas), é cronológica – a primeira, claro, é a roda. Quanto ao avião (ver mais detalhes ao lado), o autor norte-americano sequer cita o nosso Alberto-Santos Dumont, mas o tradutor inseriu uma longa nota de pé de página dando a versão do tupiniquim (diferente da de Salvador Nogueira, claro) dos fatos.

 

 

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