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3:25 p.m. - 2006-09-20
Resenhas publicadas na revista dominical do jornal O Estado do Paraná: biografia de Borges; Cenas londrinas de Virginia Woolf; vencedores do Prêmio Jabuti 2006; livro sobre rádio B92; Asterix e os vikings

1) Uma biografia de Borges
 

A Bertrand Brasil lançou recentemente a segunda edição (a primeira foi publicada há sete anos) de Jorge Luis Borges: O Homem no Espelho do Livro, de James Woodall (422 páginas), a primeira biografia escrita originalmente em inglês de um dos maiores escritores do século passado. Nascido em 24 de agosto de 1899, o argentino Jorge Luis Borges criou uma vasta obra composta de poesias, contos e ensaios, mas sua importância se deve fundamentalmente a dois excepcionais livros de contos fantásticos: Ficções e O Aleph.

 

Originário de uma família de classe alta de Buenos Aires, desde cedo Borges demonstrou um grande interesse pela literatura – o qual continuou intenso por toda a vida. Como era comum na época, seus primeiros anos de estudo foram realizados em casa. Apesar da boa condição econômica de seus pais, os Borges moravam no bairro de Palermo, uma região um tanto perigosa da capital argentina. Foi num colégio nas proximidades que o futuro escritor faria seus primeiros estudos: tímido e afeito às leituras, ele passou maus bocados com os outros alunos, na maior parte agressivos e metidos a machões.

 

A situação para ele melhorou muito quando o pai, que já estava com os primeiros sintomas da cegueira - que viria a ser total anos mais tarde - resolveu se mudar para a família para a Europa e lá fazer seu tratamento oftalmológico. Apesar de os Borges terem passado os anos da Primeira Guerra Mundial na Europa, a temporada por lá foi bastante tranqüila porque eles ficaram em países neutros como a Espanha e a Suíça - e foi também feliz para Jorge Luis Borges, que teve colegas melhores e pôde desenvolver ainda mais seus gostos literários.

 

Mas o pai do futuro escritor foi ficando com a visão cada vez pior e, como não podia trabalhar, a fortuna da família diminuiu sensivelmente: todos tiveram que voltar a viver em Buenos Aires. Por necessidade, com quase quarenta anos Jorge Luis Borges obteve seu primeiro emprego fixo, na Biblioteca Municipal da Argentina, onde ficou de 1937 a 1946 (ano em que foi praticamente demitido pelo governo peronista, que o escritor odiava). Na Biblioteca seus colegas praticamente não trabalhavam o dia inteiro, e Borges foi meio que obrigado a fazer o mesmo. Isto permitiu que ele conseguisse escrever quase que o dia todo: foi uma época de grande produtividade literária para ele, tanto em termos de quantidade como de qualidade.

 

Depois deste emprego o escritor passou alguns anos ganhando dinheiro com alguns textos e, principalmente, com palestras sobre literatura - o que não lhe permitia mais do que uma vida modesta. O sucesso veio aos poucos, e Borges só passou a ser reconhecido internacionalmente como um dos maiores escritores vivos no início dos anos sessenta. As últimas décadas de sua vida (ele faleceu em 1986) foram passadas, em grande parte, entre viagens para diversos países, nas quais ele recebia homenagens de governos e universidades.

 

Se por um lado ele é unanimemente reconhecido como um escritor genial, como ser humano Borges chegava às raias da imaturidade: por exemplo, ele tinha medo de ter relações sexuais (casou-se apenas no final da vida) e era muito dominado pela mãe. O escritor também era tímido, mas conversador, e tinha uma memória espantosa para livros - entre seus autores preferidos não constavam grandes realistas como Balzac e Tolstói, mas na maior parte escritores normalmente considerados menos importantes, como De Quincey, Stevenson e Chesterton. Politicamente Borges tinha algumas opiniões desastrosas, como por exemplo apoiar o regime de Pinochet e o dos generais argentinos.

 

Jorge Luis Borges: O Homem no Espelho do Livro é uma excelente biografia, escrita com objetividade e clareza. Por outro lado, a vida do autor de Ficções era monótona e tinha pouca relação direta com a sua obra, o que faz com que a leitura do livro de James Woodall só seja mesmo recomendada para os fãs de carteirinha do grande autor argentino.

 

 

2) Uma pequena obra de Virginia Woolf

 

Cenas Londrinas (84 páginas), da grande escritora inglesa Virginia Woolf, é um livro que faz parte da coleção Sabor Literário, na qual a José Olympio publica textos inéditos ou pouco conhecidos de grandes escritores.

 

Escritos na primavera de 1931 e publicados bimestralmente entre 1931 e 1932 na revista Goodhousekeeping, cada um dos seis textos da obra apresenta uma característica da capital inglesa. Os temas são os seguintes: as docas; a região da Oxford Street; a Câmara dos Comuns; a abadia de Westminster e a Catedral de St. Paul; as casas onde moraram grandes escritores, como os sofridos Coleridge e sua mulher; e o mais delicioso de todos, uma ficção (a única do livro) que conta a história de uma senhora fofoqueira.

 

Os textos são muito bem escritos e, ao contrário de sua ficção "fluida" (em romances como As Ondas e Mrs. Dalloway, por exemplo), são extremamente objetivos.

 

 

3) Alguns vencedores do Prêmio Jabuti 2006

 

O Prêmio Jabuti, instituído pela Câmara Brasileira do Livro desde 1959, é o mais tradicional e importante prêmio literário do país. Os resultados do prêmio de 2006 foram anunciados recentemente, e alguns dos livros mais bem classificados em categorias importantes são comentados a seguir, e são ótimas dicas de leitura.

 

Aclamado pela crítica com uma das melhores obras escritas no Brasil nos últimos anos, Cinzas do Norte, do amazonense Milton Hatoum (Companhia das Letras, 312 páginas), venceu o Prêmio Jabuti na categoria de melhor romance. O livro se passa na cidade e nos arredores de Manaus, a partir do final dos anos 50, e conta a história de um artista plástico fracassado, Mundo (apelido de Raimundo). O mote principal da obra é a relação de ódio entre ele e seu pai, Jano (apelido de Trajano) Mattoso, um fazendeiro riquíssimo que simplesmente não tolera a idéia de que o rapaz não herde a administração de seus negócios e que se envolva com arte. O romance é contado em primeira pessoa pelo melhor amigo de Mundo, Lavo, que é sobrinho de Ranulfo, um homem pouco afeito ao trabalho - e amante da mãe de Mundo, Alícia. Esta praticamente não suportava o marido e tentava - muitas vezes sem sucesso - defender o filho das violentas invectivas de seu pai, Jano. Para poder suportar o constante e profundo clima de ódio que existe na enorme casa - um verdadeiro palacete - Alícia se refugia no jogo, na bebida, e nas tórridas relações sexuais com Ranulfo. Um acontecimento de grande importância no desenvolvimento do romance  é o golpe militar de 64: ecos do autoritarismo vigente - por exemplo, surras dadas por militares contra os inimigos dos poderosos ou do regime - pipocam a todo momento no livro.

 

Cinzas do Norte descreve a decadência patrimonial e familiar dos Mattoso. Ao mesmo tempo em que o ódio recíproco entre filho e pai vai aumentando e minando qualquer possibilidade de harmonia e de relacionamento (mesmo que somente respeitoso) entre eles, a juta - base da fortuna de Jano - vai perdendo valor no mercado internacional. A decadência é mostrada de maneira aguda e sem nenhuma condescendência por Milton Hatoum, que parece não ter piedade de seus personagens: à medida que a situação vai ficando mais e mais insustentável, o pai vai perdendo a saúde e o filho, a sanidade.

 

Cinzas do Norte é poderoso, extremamente bem escrito, e conta com personagens inesquecíveis. É um livro inquietante que, além de mostrar como poucos a decadência moral de uma família, é o retrato de uma época turbulenta do país e de uma região.

 

Também na categoria romance, ficaram empatados em segundo lugar Menino Oculto, de Godofredo de Oliveira Neto (Record, 222 páginas) e Meninos no Poder, do paranaense Domingos Pellegrini (Record, 288 páginas).

 

Assim como em Cinzas do Norte, em Menino Oculto o personagem principal, chamado Aimoré Seixas, é um artista plástico. Só que, ao contrário do personagem Mundo do outro romance, que queria criar uma obra original, a principal atividade artística de Seixas é a falsificação de pinturas. O livro todo é uma entrevista gravada que alguém, que acabamos sem saber quem é, faz com o artista no intuito de saber onde estava um pedaço - o qual representava um menino - de uma obra que ele falsificou.

 

Definitivamente não é nada fácil entrevistar Aimoré Seixas, e seu entrevistador se exaspera diversas vezes ao longo do romance. O artista, ao invés de dizer diretamente onde estava a tal pintura, fica se perdendo em reminiscências, que mostram uma personalidade próxima da esquizofrenia.

 

Seixas comenta a respeito de diversos assassinatos que cometeu ao longo dos anos, obrigado por entidades espirituais que moram na baía de Babitonga, em Santa Catarina - o artista viveu em São Francisco do Sul e no Rio de Janeiro na maior parte de sua vida. Além disso, o falsificador também é obcecado em consultar Baltazar, um velho cego que vive na beira da baía e que fala em coisas como lobisomens e possessões demoníacas. Outro assunto recorrente de Seixas são suas peripécias sexuais com diversas amantes, principalmente com aquela que mais o obcecou, uma mulher chamada Ana. Mas nem só de esquisitices funciona a cabeça do falsificador: ele tem um vasto conhecimento de música popular e erudita contemporâneas, sabe diversos poemas e romances de cor e é professor de literatura.

 

Com uma narrativa caótica e com um final próximo do thriller, Menino Oculto é um livro inquietante, que faz o leitor penetrar fundo na mente de um louco brilhante. Pode não ser para todos os gostos, mas certamente mereceu a segunda colocação no Jabuti.

 

Se os dois livros citados anteriormente têm uma atmosfera pesada e sombria, o livro que ficou empatado com Menino Oculto em segundo lugar, Meninos no Poder, de Domingos Pellegrini, tem um clima bem mais leve. No romance, Caboré, um radialista de uma cidade brasileira que não é nomeada, recebe a visita de um tal Ari, um baixinho de personalidade inquieta e cheio de idéias originais a respeito de como deve ser gerida a administração da cidade. Para colocá-las em prática ele tenta convencer Caboré a se candidatar prefeito. O radialista reluta bastante em aceitar o convite, mas como as idéias do baixinho pareciam factíveis e, honestas e, principalmente, poderiam ajudar a vida do povo se postas em prática, ele acaba aceitando. E a campanha começa.

 

Aos poucos Caboré vai percebendo que, por mais que pregasse princípios honestos e transparentes, Ari não agia  exatamente como um político diferente da maioria. A dúvida sobre o real caráter do baixinho perpassa a maior parte da obra - e é melhor não contar mais nada para não estragar a surpresa.

 

Meninos no Poder é um livro ágil, bem escrito, com muitas reviravoltas e cheio de boas intenções - o que, no caso específico deste romance, é uma qualidade literária e não um defeito.

 

Outra boa sugestão de leitura é o primeiro colocado na categoria "Biografia" do Prêmio Jabuti, Carmen, de Ruy Castro (Companhia das Letras, 632 páginas). Detalhada biografia de Carmen Miranda, a mais famosa brasileira do século XX, o livro é escrito com o estilo envolvente do autor, que já escreveu, entre outras, ótimas biografias de Garrincha, Nelson Rodrigues e o já clássico Chega de Saudade, sobre a bossa nova.

 

 

 

4) Rádio Guerilha: rock e resistência em Belgrado, de Matthew Collin

 

Rádio Guerilha: rock e resistência em Belgrado, de Matthew Collin (Barracuda, 334 páginas) conta a história da rádio B92, emissora corajosa e independente que sobreviveu em Belgrado, a capital da Sérvia, durante o agressivo governo nacionalista sérvio de Slobodan Milosovic (que durou de 1989 a 2000)  e descreve a vida dos jovens da cidade durante este turbulento período.

 

A emissora, ironicamente, foi criada em 1989 pelo poder dominante: a organização da juventude comunista, "para mostrar que a Sérvia era mais avançada que as outras repúblicas da então Iugoslávia", decidiu montar uma rádio para comemorar o aniversário do Marechal Tito, fundador do país. Pouco tempo depois de sua fundação ela adotou uma programação diferente do padrão das rádios locais, que eram baseadas em folk sérvio: a B92 tocava principalmente rock de vanguarda ou contemporâneo e raps agressivos de bandas como o Public Enemy. Este tipo de postura acabou fazendo com que a rádio fosse a trilha sonora predileta dos jovens de Belgrado - a B92 mal pegava fora da capital sérvia - não-alinhados com o regime. No início, a programação musical da emissora não dava a menor importância para a audiência, e cada DJ colocava no ar apenas o que agradava a si mesmo. Isto, obviamente, fez com que muitos ouvintes estivessem insatisfeitos com a rádio: no dizer de um dos diretores da B92, "fizemos pesquisa de audiência e foi a coisa mais bizarra que já vi na vida. As pessoas sintonizavam pelas notícias e, assim que entrava música, desligavam. Isso puxava para baixo a emissora no mercado e comprometia toda a missão". Deste modo, a B92 foi transformada numa emissora "mais convencional" para que "as pessoas gostassem tanto do noticiário quanto da música". Esta nova postura, como era de se esperar, fez com que a B92 sofresse críticas de que ela tivesse se vendido. Mas sua audiência aumentou.

 

De todo modo, a principal influência da rádio para os acontecimentos turbulentos da Sérvia nos anos 90 - guerras primeiro contra a Croácia, depois contra a Bósnia e finalmente contra Kosovo e Montenegro - foi mesmo através de seu noticiário totalmente independente: para que se tenha uma idéia, o dono da rádio, o jornalista Veran Matic, resolveu pedir a seus ouvintes que "não confiassem em ninguém, nem mesmo nele" quando começou a perceber que grande parte dos seus ouvintes levava a sério demais as opiniões da B92. Outra prova de independência é que os políticos de oposição ao comandante sérvio Slobodavan Milosevic reclamavam uma postura mais engajada - ou seja, menos crítica aos oposicionistas - da B92.

 

De todo modo, o grande alvo da ira da rádio era mesmo o regime nacionalista sérvio de Milosevic. A B92 não fazia oposição apenas por seus noticiários: a emissora de Vaclan Matic também produzia documentários e promovia manifestações debochadas nas ruas. Por exemplo, quando do início da guerra entre os muçulmanos da Bósnia e os ortodoxos da Sérvia, a B92 "armou uma encenação no centro de Belgrado, levantando barreiras e bloqueando uma rua numa tentativa de dar a noção da realidade étnica. O tráfego ficou engarrafado e Veran Matic satirizou os defensores da guerra, patrulhando a barricada com uniforme militar, boina e óculos escuros".

 

Obviamente, o regime socialista de Milosevic não gostava muito da idéia de que uma rádio tão debochada e cáustica estivesse funcionando no próprio centro do poder sérvio, e foram inúmeras as dificuldades que a B92 enfrentou ao longo da década em que o dirigente esteve no poder: ela teve, inclusive, que sair do ar por quatro vezes, e perdeu, em uma ocasião, a permissão para utilizar o estúdio em que funcionava e o nome que utilizava: foi quando a emissora passou a se chamar B2-92 (outras pessoas assumiram o controle da B92). Ao mesmo tempo em que tinha problemas com o regime sérvio, a postura independente da emissora recebeu uma grande quantidade de ajuda externa, por parte de outros países e de organizações que visavam abalar o regime de Milosevic. Este, como se sabe, promovia guerras de limpeza étnica contra muçulmanos, croatas e albaneses, mas, justiça seja feita, estava longe de ser um ditador totalitário para a população sérvia: promovia eleições (nem sempre limpas, é verdade) e permitiu que uma emissora como a B92, mesmo com todas as dificuldades, sobrevivesse na capital de seu país. Hitler, quando estava no poder na Alemanha, certamente não permitiria nem uma hora de transmissão de uma rádio realmente independente por lá...

 

Rádio Guerrilha também apresenta um amplo painel da vida dos jovens em Belgrado durante os duros anos 90 até a queda do regime de Milosevic, em 2000 (a edição brasileira  apresenta os anexos que o próprio autor fez em sua obra, atualizando-a até os dias de hoje).

 

O regime comunista independente da Iugoslávia, do general Tito, que durou de 1945 até sua morte, em 1980, foi bem mais suave do que aqueles dos países que estavam sob o jugo da extinta União Soviética: diferentemente destes, por exemplo, os iugoslavos podiam viajar livremente para outros países e tinham uma liberdade de expressão bastante grande. Depois da queda do Muro de Berlim em 1989, foi com tristeza e melancolia que a juventude de Belgrado foi percebendo seu país ficar cada vez pior econômica e politicamente - com o recrudescimento do nacionalismo sérvio, comandado por Milosevic - enquanto que nações como a Polônia e a Bulgária se tornavam mais livres e prósperas. Na década de 90, a falta de perspectivas fez com que um enorme contingente de pessoas simplesmente emigrasse para outros países pela falta de perspectivas na Sérvia. A situação foi piorando ano a ano: as guerras de limpeza étnica resultaram num pesado bloqueio internacional que acabou fazendo o país entrar numa hiperinflação. Como se não bastasse tudo isto, os jovens de Belgrado também eram vistos como párias internacionais - o noticiário no mundo todo praticamente não mostrava que muitos sérvios eram contra Milosevic e sequer tinham idéia das barbaridades de seu regime nacionalista - e sofreram, como o restante da população local, os bombardeios "cirúrgicos" da OTAN no final dos anos 90. Matthew Collin também mostra outros aspectos da vida dos jovens de Belgrado: a vida noturna, as bandas de rock que eles apreciavam e suas influências, as raves, as drogas, a delinqüência, o crime organizado.

 

Rádio Guerrilha é um livro ágil e bem escrito, que pode interessar tanto a quem quer saber mais sobre a história recente da Sérvia, quanto a quem é amante de cultura pop.

 

 

5) Asterix e os vikings: filme e revistas relacionada

 

Criada em 1961 por René Goscinny e Albert Uderzo, as histórias do gaulês Asterix fazem, até hoje, um imenso sucesso no mundo inteiro: além das HQs (traduzidas em mais de 100 idiomas e que já venderam mais de 120 milhões de exemplares) e filmes (de desenho animado e "normais"), até um parque temático nos moldes da Disneyworld foi construído nas imediações de Paris. As histórias da pequena aldeia gaulesa (a Gália se situava onde atualmente é a França) que resiste à dominação romana, pouco antes do início da Era Cristã, graças à poção mágica criada pelo druida Panoramix - que dá uma força sobrenatural a seus habitantes -, continua fascinando crianças, jovens e adultos pelo mundo todo. Entre as maiores qualidades das histórias do baixinho Asterix podem ser citados: o brilhante traço de Uderzo; a esperteza, a coragem e a inteligência do personagem principal; o conseqüente contraste com a obtusidade de seu melhor amigo Obelix (que caiu num caldeirão da poção mágica quando criança e que, por isto, conquistou uma força sobre-humana para o resto da vida); a sabedoria do druida; os engraçados personagens Abracurcix (o chefe da aldeia), Chatotorix (um bardo que canta insuportavelmente mal) e Ordenalfabetix (o vendedor de peixes que vive se pegando com o ferreiro Automatix). Não se pode esquecer também do charme adicional de histórias em que os não-poderosos (os gauleses, neste caso) sempre vencem os poderosos (os romanos). Mas sem dúvida nenhuma a maior responsável pelo imenso sucesso de Asterix são os brilhantes roteiros assinados por René Goscinny, falecido em 1977: a morte deste foi uma perda insuperável para a qualidade das histórias do baixinho gaulês, o que se pode comprovar lendo as fracas histórias recentes de Asterix, roteirizadas pelo desenhista Albert Uderzo.

 

A primeira qualidade de Asterix e os vikings, longa de animação já lançado no exterior e que tem estréia prevista para 22 de setembro próximo no Brasil, é que ela é baseada em uma história em quadrinhos de Goscinny, Asterix e os normandos (ver box). No filme, os vikings - povo rude e violento, vindo das terras geladas da Escandinávia - têm um problema sério: conhecem muitas coisas, mas não conhecem o  medo. Eles acreditam que quem o tem pode voar (!) e, para aprender o que é este tal de medo, fazem uma expedição que acaba desembarcando no litoral próximo à aldeia de Asterix.

 

Os irredutíveis gauleses, por seu lado, estão com um hóspede "moderninho", Calhambix, rapaz que mora em Lutécia (atual Paris) e é sobrinho do chefe da aldeia, Abracurcix. O visitante vindo da cidade grande é vegetariano, amante de um ritmo semelhante ao rock (!), tem uma biga incrementada e tem costume de passar a noite na balada e a manhã na cama. Preocupado com tudo isto, o pai de Calhambix o mandou para a aldeia de Asterix para "ser homem", ou seja, aprender a bater em romanos, caçar javalis com os punhos e afundar navios de piratas. É claro que estas não são atividades fáceis para o jovem vindo de Lutécia, que sofre com elas. Mas o seu maior pânico acontece quando ele descobre que os vikings chegaram - e um destes, escondido na mata, descobre que o rapaz tem "muito medo". É o que basta para que os cruéis vikings seqüestrem Calhambix para ensiná-los a voar, e Asterix e Obelix têm a missão de resgatar o jovem gaulês.

 

Com uma história divertida e inteligente e uma animação de alto nível, Asterix e os vikings é diversão garantida para todas as idades.

 

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Asterix e os normandos, a ótima história em quadrinhos em que foi baseado o filme de animação Asterix e os vikings, foi publicada originalmente em 1967 e está em catálogo pela Record. "Normandos" é o outro nome dado aos vikings, que realmente vieram a invadir a região da França onde se situa a aldeia fictícia de Asterix, mas cerca de 900 anos mais tarde, durante a Idade Média. Por causa da colonização normanda no norte da França, até hoje aquela região é chamada de "Normandia".

 

Há algumas diferenças importantes entre a história em quadrinhos e o filme: neste aparece uma garota viking que faz o par romântico com o rapaz da Lutécia, ausente na HQ, e nesta a ação toda se passa na Gália - ao contrário do desenho animado, em que Asterix e Obelix vão até o norte gelado da Europa para resgatar Calhambix.

 

Também pela Record foi publicado o "álbum do filme" Asterix e os vikings (64 páginas), uma edição muitíssimo bem cuidada onda a história é contada em prosa, com belas ilustrações e um anexo com os "segredos da produção", com esboços e planos de desenvolvimento do filme de animação.

 

 

 

 

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