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12:34 p.m. - 2005-07-19
30 anos de
silêncio Dorrit Harazim PHNOM PENH - 2005
está sendo rico em expiações coletivas. Na semana passada a Europa pranteou o
10.º aniversário do massacre de Srebrenica, na Bósnia. Dias antes, o Live 8
remasterizou o lamento pela fome na África. Em maio foi o mundo todo que se
engalanou para os 60 anos do fim da 2.ª Guerra Mundial. E em abril os 30 anos de
término da Guerra do Vietnã puderam ser comemorados por toda uma geração.
Por que então ninguém chora ou canta pelo Camboja, que este ano também teria efeméride redonda para se fazer lembrar? Faz 30 anos que a história milenar do povo khmer foi interrompida por uma utopia de laboratório. Idealizada por um núcleo de visionários totalitários, durou três longos anos, oito meses e vinte dias. Encabeçado por Pol Pot, o tirano que comandava das sombras, o experimento foi executado por hordas de jovens militantes impregnados de uma força invencível: a da insanidade. Trinta anos atrás, a comunidade internacional assistiu em silêncio à metódica eliminação do modo de vida dessa nação de 7 milhões de habitantes. Estados Unidos, Canadá e Inglaterra, entre outros expoentes da civilização ocidental, compactuaram com os interesses da China emergente dos anos 70 e permitiram que a máquina de desumanização do Camboja vingasse. A exumação dessa página da história não edifica ninguém. Mas é impossível percorrer o Camboja de hoje sem registrar a melancólica incompreensão de um povo com o seu próprio destino. Ela está encapsulada numa indagação sem resposta: "Por que nós não contamos? Por que ninguém fez nada?" "Não posso falar sobre o período porque não o entendo. Simplesmente não o entendo", diz o septuagenário Son, sobrevivente dos tempos do horror. A constatação do plantador de arroz cuja vida sempre escoou mansa às margens do Mekong até ser varrida pelo ideário do Khmer Vermelho é mais profunda do que parece. O escritor britânico Philip Short, que acaba de publicar a primeira biografia de fôlego sobre o líder da revolução cambojana, chega a conclusão semelhante, só que em 672 páginas. Pol Pot, Anatomia de um Pesadelo também não consegue explicar o inexplicável. Foi numa manhã de 1971 que o etnógrafo francês François Bizot teve sua Land Rover interceptada na rota de Oudong, a antiga capital dos reis do Camboja. Foi cercado por um bando de jovens vestidos de preto, algemado e levado de olhos vendados para um campo da morte na floresta, onde permaneceu acorrentado a um tronco de árvore durante três meses. Casado com uma cambojana e falando fluentemente o idioma do país, Bizot foi o primeiro ocidental a ver de perto a insânia que se abateria sobre o Camboja quatro anos mais tarde. Acusado de ser espião da CIA, foi, também, a única pessoa interrogada por Kank Kek Ieu, mais conhecido como Camarada Deuch, a ter sobrevivido. Deuch se tornaria famoso como diretor do principal centro de interrogatório e extermínio do Khmer Vermelho, em Phnom Penh. "Durante três meses vi o abominável espraiar-se à minha volta", escreveu o etnógrafo no perturbador relato de seu cativeiro (por ironia do destino, quando o Khmer Vermelho assumiu o poder, Bizot desempenhou papel crucial junto a Deuch para que mais de mil ocidentais refugiados na Embaixada da França escapassem da morte e saíssem do país). Intitulado O Portal, com prefácio de John Le Carré, o livro detalha o caso de uma menina de 9 anos trazida para o cativeiro na floresta após a execução do pai. Ela não falava, não comia sua ração de arroz, não saía do seu terror exceto para assistir às sessões diárias de doutrinamento obrigatório. Bizot afeiçoou-se à pequena órfã que tinha a idade de sua filha e, apesar de acorrentado, conseguiu estabelecer uma comunicação gestual afetiva com a menina. Para o francês, era uma forma de se sentir humano enquanto sobrevivia como animal. Certa noite, foi acordado por um toque macio em sua canela latejante e já macerada pelas correntes. Era a esquálida mão da menina. Imaginou que ela tivesse vindo aliviar sua dor. Percebeu, com horror, que ela viera testar a eficácia do aprisionamento. Olhando-o fixamente nos olhos, chamou um dos guardas do campo e mostrou que ainda havia uma pequena folga. A corrente foi apertada. Nascia, ali, mais uma criatura da utopia de Pol Pot. E Bizot passou a achar verossímil o relato que ouvira do camponês Thep, seu companheiro de cativeiro. Thep contara ter presenciado a execução pública, a golpes de enxada na nuca, de três famílias do vilarejo em que morava por terem se recusado a ceder os filhos homens à causa de Angkor. Ao todo, 19 pessoas. Cinco eram bebês. Estes ficaram por último, a cargo de um menino de 14 anos com poucos meses de doutrinamento. Ao ver sua hesitação, um instrutor lhe passou as mãos pelos ombros e soprou-lhe algo no ouvido. Um a um os bebês foram agarrados pelos pés e arremessados contra o tronco de uma árvore - uma, duas, três vezes. Entre o "Ano Zero" (1975) do que seria a construção de um novo povo até a derrocada do Khmer Vermelho (1979) por tropas invasoras do vizinho Vietnã, Pol Pot tinha abolido dinheiro, religião, propriedade, escolas, individualidade e família da vida cambojana. A partir dos 7 anos de idade, toda criança passou a pertencer a Angkar, a Organização. E todas as cidades e vilas do país deveriam ser imediatamente esvaziadas para que o contaminado modo de vida urbano pudesse ser erradicado para sempre. Foi na própria manhã da tomada de Phnom Penh pela guerrilha do Khmer Vermelho, enxotando uma ditadura militar corrupta e impopular, que a máquina do experimento humano começou a funcionar. Em pouco tempo, toda uma população de 7 milhões de pessoas teve suas raízes arrancadas e foi colocada em marcha. Sem saber para onde, nem por que, ou até quando. No terceiro dia de existência do novo regime a população de Phnom Penh já tinha encolhido de 2 milhões para 20 mil pessoas. E quando a outrora frondosa capital foi finalmente libertada restavam apenas 70 almas. Pelas contas do atual primeiro-ministro, Han Sen, e do secretário de Turismo, Thong Khon - ambos integrantes da Frente de Salvação que herdou as ruínas do Khmer Vermelho -, somente 43 médicos qualificados, 7 advogados e 1.005 estudantes e intelectuais cambojanos sobreviveram à era Pol Pot. Pin Yathay tinha 17 anos quando recebeu o Prêmio Nacional de Matemática das mãos da rainha-mãe Kossamak, em 1960. No dia da chegada do Khmer Vermelho à capital, em 1975, estava casado, tinha três filhos pequenos e carreira promissora de engenheiro. Estranhou, mas se dobrou à ordem de reunir a família e abandonar a cidade. Vale fazer uma pausa para imaginar o tumulto emocional de uma decisão dessa magnitude. Como assim, largar tudo? O que fazer para ganhar tempo? O que os vizinhos estão levando de essencial? O que deixar para trás? Como não alarmar as crianças? Tenta-se buscar os pais ou avós e partir juntos? O que esconder até a volta? Os dilemas que brotavam eram todos de utilidade prática e imediata, sem espaço para decifrar a real dimensão desse êxodo por decreto. Yathay sobreviveu e produziu um dos testemunhos mais aterradores sobre o processo de aniquilamento da vontade humana promovido pelo regime de Pol Pot. Foi um método eficaz, por etapas. As ordens eram repetidas em tom mecânico, não ameaçador, desprovidas de qualquer eco emocional. Conseguiram que a massa se pusesse em marcha de forma absurdamente silenciosa, quase ordeira, agarrada a uma informação que não fazia nexo: "Será uma retirada de apenas três dias. Precisamos purificar a cidade." Nos primeiros dias de estrada o comboio de retirantes ainda se diferenciava pelo que cada um trazia como pertences essenciais - uns tinham vindo em Citroëns abarrotadas de cortinas, sofás ou geladeiras, enquanto outros carregavam o pai doente nas costas, a pé. Mas em pouco tempo a procissão assumiria contornos de terrível uniformidade, fluindo como sangue de uma ferida aberta. Os exaustos, desesperados ou doentes iam ficando para trás, deixando passar a maré silenciosa. Vez por outra via-se algum suicida pendurado numa árvore. No nono dia do "Ano Zero" virtualmente toda a população urbana do país estava transplantada em zonas rurais. Catalogados como "homens novos" em contraposição ao "povo antigo", o idealizado camponês sem instrução, os deportados iniciariam ali seu brutal processo de purificação ideológica. Começou assim uma revolução de profundidade jamais alcançada, que misturou uma bizarra noção de justiça social com o desejo de reviver a glória nacionalista do antigo império de Angkor. O engenheiro Yathay conta que trabalhava a terra ou abria clareiras absurdas na floresta 20 horas por dia para poder se tornar logo um "cidadão antigo" e retornar com a família para Phnom Penh. "Nós nos iludíamos pensando que, decorrido o tempo de penitência necessário, seríamos mandados de volta para reconstruir o país. Afinal, após tantos anos de guerra e desestabilização social, o Camboja certamente precisaria de todos os seus engenheiros e professores. Queríamos acreditar. Era o escapismo da esperança." Ela foi sendo enterrada junto com os primeiros mortos. Metodicamente, para aprofundar a perda de parâmetros, os sobreviventes recebiam ordens de novo deslocamento, enveredando para regiões do país cada vez mais inóspitas. No caso de Yathay, a sentença final lhe foi comunicada ao chegar a uma mata virgem que deveria ser derrubada para a construção de cabanas: ficariam ali para sempre. Seria a floresta dos mortos, um dos tantos Killing Fields retratados no filme seminal de Rolland Jaffé. Começava a derradeira etapa da purificação através da sobrevivência dos mais fortes. Na prática, o extermínio através da diminuição progressiva de ração diária e aumento do trabalho forçado. "No novo Kampuchea (nome antigo do reino cambojano) só precisamos de 1 milhão de pessoas para continuar a revolução. Não precisamos do resto", dizia um dos editais, o que explica o desprezo do Khmer Vermelho por prisões, consideradas uma forma decadente e capitalista de desperdiçar recursos. Execuções atendiam melhor ao plano. Até mesmo o notório S-21 de Phnom Penh, a central de torturas do novo regime, operou essencialmente como máquina de arrancar confissões. Yathay lembra quando o último semblante de humanidade foi enterrado e os seres ainda vivos passaram a viver sua própria destruição. Tinha sido chamado por um guarda do Khmer para enterrar um cadáver da cabana ao lado. Conhecia as moradoras: uma professora com filha de 4 anos, e a irmã. Mãe e filha estavam sentadas em silêncio diante de um corpo totalmente embrulhado com farrapos, como múmia, exceto pela cabeça exposta. Achou estranho, mas há tempos se habituara a não fazer perguntas. No dia seguinte, a história correra pelo campo: a professora comera a carne da irmã morta e fora flagrada com um pedaço cozinhando no fogo. A irmã-múmia estava descarnada. "Morremos. O desejo de viver morreu antes dos nossos corpos", escreveu Yathay, que tem dois filhos, a mulher, os pais, cunhados e sobrinhos enterrados nos campos da morte. Ele sobreviveu, a utopia de Pol Pot não. Como todo poder absoluto, o Khmer Vermelho foi corrompido de forma também absoluta. Tendo a repressão como única política possível e o colapso econômico como conseqüência lógica,foi contaminado por suspeitas intestinas. Vítima de sua própria armadilha, restou-lhe apenas matar e continuar matando. Primeiro os "Novos". Depois os "Antigos". Por fim, as próprias fileiras. Com o colapso da organização começaram os expurgos internos e Pol Pot foi substituído pelo Camarada Número 2. Morreu de forma obscura na mesma selva cambojana de onde emergira. Mas escapou de responder por seus crimes e só tardiamente a esquerda mundial se flagelou por tê-lo poupado de uma condenação em vida. Até hoje, passados 30 anos, apenas dois expoentes da fracassada utopia estão presos: Ta Mok, mais conhecido como "açougueiro", e o Camarada Deuch, cérebro da central de tortura, interrogatório e execuções conhecida pela sigla S-21. Aguardam julgamento. Foi somente no fim dos anos 90 que esse genocídio silencioso conseguiu merecer a atenção da ONU e ser qualificado como crime contra a humanidade. Um tribunal misto, composto por juristas internacionais e juízes do Camboja, deverá ser instalado em Phnom Penh para a condução dos trabalhos. Se é que algum dia haverá julgamento - não são poucos os ex-líderes mundiais e governos que prefeririam protelar para sempre a exumação de sua conivência com os campos da morte cambojanos. Segunda-feira, 18 de Julho de
2005
Nos
pavilhões do horror Dorrit Harazim PHNOM PENH - Keo
Lundi costuma ser acionado quando algum visitante ao Museu do Genocídio de Phnom
Penh começa a fazer perguntas demais. Prefere falar em francês, denotando
nostalgia pelos tempos em que a capital misturava singeleza e refinamento, numa
fusão ideal de cultura asiática com plumagem de antiga colônia. "Nasci numa
segunda-feira, daí o meu nome", vai logo explicando para justificar o "lundi".
Olha com pesar para um grupo de colegiais que percorre as galerias da morte
tagarelando como se estivesse num shopping. "Hoje não temos mais moral nem
disciplina nas escolas. Toda uma geração de professores foi massacrada na guerra
e os de hoje mal saíram do analfabetismo. Não cresceram dentro dos parâmetros de
respeito budista".
Coube, justamente, a uma antiga escola de segundo grau do bairro de Tuol Svay Prey abrigar a mais insana e eficaz máquina de arrancar confissões montada pelo Khmer Vermelho - a S-21. São quatro pavilhões esparramados entre bananeiras e mangueiras, únicas testemunhas que saíram ilesas dos anos de chumbo. O complexo agora transformado em museu começou a operar em maio de 1976, ou seja, no "Ano Dois" do regime, protegido por um muro eletrificado de ferro duplo. Precaução desnecessária pois não se tem notícias de nenhuma tentativa de fuga, apenas de suicídios. A sigla S-21 nasceu da soma de Segurança, 2º Distrito e Irmão Número 1, como Pol Pot gostava de ser chamado. Havia outras unidades de segurança no 2º distrito da capital, mas quis a história que a central de repressão de um regime que aboliu o ensino fosse montada, justamente, numa escola. E que a autoridade suprema do S-21 fosse um ex-professor de matemática, Kang Kek Ieu, ou camarada Deuch. Segundo relatórios encontrados nos arquivos de Tuol Sleng, Deuch exerceu sua soberania de vida e morte sobre pelo menos 10.499 prisioneiros já catalogados pelo Centro de Documentação - sem contar as cerca de 2000 crianças executadas sem interrogatório. Ao que se sabe, apenas 12 adultos sobreviveram. E destes, só sete conseguiram sair de sua morte interior, revisitando o antigo cárcere transformado em Museu do Genocídio em 1980. Mesmo para quem já leu inúmeros relatos sobre o período e assistiu ao extraordinário documentário "S-21, A Máquina de Matar do Khmer Vermelho", do diretor cambojano Rithy Panh - que captou de forma definitiva a lógica do horror ali institucionalizado - nada prepara para o impacto de percorrer ao vivo os quatro prédios de dois andares da rua 143. As celas individuais do pavilhão A, alocadas para "traidores" da alta hierarquia do Khmer Vermelho, talvez sejam as mais aterradoras. Contém uma única cama de ferro nua fincada bem no centro do que foi outrora uma sala de aula com carteiras escolares. E uma cadeira para o interrogador/guarda. Elas retratam o apogeu da insânia. Um regime que tomou o poder para erradicar qualquer vestígio de classe social acabou montando celas espaçosas e claras para torturar a sua elite. Para os suspeitos do segundo escalão foram improvisados cubículos claustrofóbicos, sem janela nem cama de ferro, mas ainda assim individuais. Na espiral de suspeição e autofagia ideológica que terminou por implodir o regime, faltou tempo para a eliminação total de hierarquias. Os únicos 14 cadáveres encontrados pelas tropas vietnamitas que derrubaram as grades da S-21 eram, por ironia, desses líderes caídos em desgraça. Os guardas em fuga não tiveram tempo de levá-los para fora do pavilhão para execução no campo da morte mais próximo. Tinham sido degolados com as pernas acorrentadas à cama, depois de ter rosto e corpo desfigurados a golpes de ferro para evitar sua identificação. Alguns desses procedimentos podem ter sido executados por guardas mirins de 10 a 15 anos, doutrinados a servir Angkar para além da morte. Toda a engrenagem da S-21 foi obsessiva e sistematicamente documentada, e entre os 40 mil primeiros registros catalogados até 1997 há desde descrições minuciosas de torturas até transcrições de diálogos tão banais quanto terríveis: "Camarada Huey, você está com medo de matar?" "Não estou com medo de matar, irmão." No Pavilhão B são os mortos-vivos que estão por toda parte - cinco salas de paredes e mais paredes com fotos 3 x 4 ampliadas de gente que sabe que vai morrer. Obrigados a se manter eretos por um equipamento biométrico acoplado a uma cadeira de ferro, todos olham direto para a câmera. O efeito de justaposição é desconcertante. São centenas, milhares de pares de olhos agora voltados para o visitante. Há quem apresse o passo, disfarçadamente, por não suportar o contato. Outros não sabem mais como sair dali, procurando intuir o que existiu por lá. Até agora, o banco de imagens do Centro de Documentação do Camboja e o Programa de Estudo do Genocídio Cambojano da Universidade de Yale, com verba de U$ 1,5 milhão, catalogaram e armazenaram eletronicamente mais de cinco mil fotos. Mas isso representa apenas um quarto das mais de 20 mil fichas biográficas dos órgãos de segurança de Pol Pot analisadas até o ano 2002. No setor reservado às fotos da "purificação"de Phnom Penh, Keo-Lundi pára diante da imagem de uma família iniciando a longa marcha de um povo rumo ao nada. Aponta para um menino de uniforme escolar, espremido entre adultos amedrontados. "Eu estava de uniforme azul e branco quando saímos de casa para sempre, às nove e meia da manhã", observa, deixando entreaberto o baú de lembranças do tempo vivido nos campos montados por Angkar nas florestas e interior do país. Lundi tinha 15 anos. Quatro anos depois, com a queda do regime, retornava com vida a uma Phnom Penh fantasmagórica . Estava com menos de 18 anos de idade e descera aos porões da alma humana. Melhor não perguntar como e porque sobreviveu. Melhor parar nas primeiras lembranças do abismo físico, emocional, psicológico e moral da travessia coletiva. "Enterrávamos todas as roupas trazidas da cidade para tentar passar por cambojanos do campo, já "reeducados", que só usavam matizes de cinza ou preto desbotado. E esfregávamos a roupa de corpo com lama e frutos do mato para escurecer e manchá-la, tornando-a indistinta". Eram os primeiros passos da transformação exterior, junto com o corte de cabelo apressado das mulheres, a golpes de faca ou facão, para se assemelharem às camaradas do Khmer Vermelho. Numa das salas do Pavilhão B, ao lado das fotos, uma urna de vidro contém um amontoado de andrajos de cor indistinta e desbotada, vestígios dos que passaram pela S-21. Antes de serem executados a golpes de pá ou enxada os presos eram obrigados a ficar nus para que os golpes pudessem ser mais certeiros. Até hoje, passados 30 anos desde o massacre de um entre cada quatro cambojanos, pedaços de pano ainda brotam da terra nos caminhos das valas comuns do genocídio. No campo de Cheunk Ek, periferia de Phnom Penh, transformado em sítio histórico e símbolo dos mais de 550 sítios da morte mapeados até maio de 2003, ainda se pisa nestes vestígios de vida entre uma vala e outra. "Os interrogatórios ocorriam três vezes por dia", prossegue Lundi, enquanto aponta para a foto de um jovem australiano em meio ao mar de rostos asiáticos. Ao todo, foram sete as vítimas ocidentais até agora identificadas nos arquivos da S-21. A engrenagem toda se destinava a obter uma confissão, fosse qual fosse e de quem fosse. Dado que Angkar não cometia erros, não estava contemplada a hipótese de algum dos presos nada ter para confessar. Em Tuol Sleng, a tortura não visava obter informações. Destinava-se a obter uma confissão. Esta, por sua vez, exigia a execução do culpado para implementar a "purificação" do novo país. "Ó sublime sangue vermelho/ vem mudar o homem..." proclamava o novo Hino Nacional da Kampuchea, nome histórico do Camboja resgatado pelo Khmer Vermelho para saudar o advento de uma nação em que haveria apenas duas classes de cidadãos - o camponês e o operário. É com voz monocórdia que Lundi aponta para a trave de madeira no que outrora foi o campo de esportes da escola: "Ali funcionava a forca. Mas a maioria era levada para ser executada em Cheunk Ek, o campo da morte mais próximo da capital. Para não gastar munição, eram abatidos a golpes de pá, enxada ou foice. Bebês e crianças pequenas eram arremessados contra troncos de árvores ou degolados com a face cortante de folhas de palmeira doce". Nos minuciosos registros mantidos pelo regime de Pol Pot, cada execução resultava num documento atestando que aquele indivíduo havia sido "oficialmente destruído". Por último chega-se à ala que manteve encarcerados para interrogatório, tortura, confissão e execução a massa de suspeitos comuns. Estes permaneciam deitados no chão e acorrentados por grilhões em grupos de 20 a 30, numa barra de ferro de 6 metros. Assim ficavam em média de 2 a 4 meses, cabeça contra cabeça, pés contra pés, como os escravos africanos nos navios negreiros. Até serem executados. A rotina do cárcere começava às 4:30 da madrugada, com a primeira de quatro inspeções diárias. A cada vez a massa de corpos milimetricamente alinhados era obrigada e baixar o calção até os grilhões nas canelas. Seguiam-se exercícios físicos obrigatórios: movimentar mãos e pés durante meia hora, apesar de acorrentados. O pintor primitivo Vann Nath, um dos únicos sobreviventes de Teul Sleng por fabricar bustos de Pol Pot do agrado de Angkar, há décadas retrata a insanidade ali vivida em painéis gigantescos que povoam as paredes. Servem de registro visual bruto do inenarrável. Ao final da visita o guia Lundi reflete sobre a sua própria sanidade: "Estou com 45 anos e para me manter sereno alterno este meu trabalho com o de guia no Museu Nacional de Phnom Penh, que está repleto de preciosidades da cultura khmer. É uma forma de tentar me convencer que a milenar civilização do meu país é maior do que a sua história recente. Trabalho aqui há 22 anos mas não esqueço que um dia eu quis ser médico. Ainda não tive coragem de trazer meus dois filhos pré-adolescentes para ver isso aqui. Vou ter de fazê-lo um dia. Por enquanto são muito jovens para entender". Mas como entender, em qualquer idade? Como explicar o governo dos EUA dos anos 70 e 80, em nome do reatamento de relações com a China (a grande potência por trás do Khmer Vermelho), tivesse ignorado as evidências da barbárie em curso? Foram décadas de amnésia mundial voluntária. Ninguém quer lembrar que por decisão da Assembléia Geral da ONU (71 votos a favor, 35 contra e 34 abstenções) Pol Pot continuou representando o Camboja junto às Nações Unidas por dez longos anos após ter sido deposto e ter aniquilado pelo menos um quarto do seu povo - algo como Adolf Hitler manter seu assento e participar de sessões da ONU até 1955, uma década após a descoberta do primeiro campo de concentração nazista. Comparações numéricas, quando se fala de massas humanas eliminadas em nome de uma idéia, são sempre reducionistas e a dimensão do horror cambojano está muito além da definição jurídica de genocídio. Ainda assim vale lembrar que o império utópico de Pol Pot executou mais gente, proporcionalmente às respectivas populações, do que Hitler e Stalin somados . E em menos tempo. Do ativista político e lingüista americano Noam Chomsky ao escritor e jornalista francês Jean Lacouture, boa parte da intelectualidade ocidental recusou-se a ver na ascensão do Khmer Vermelho outra coisa que um movimento de resistência espontâneo e popular contra um regime militar corrupto então no poder em Phnom Penh. Sobretudo quando o regime em questão, chefiado pela figura patética do general Lon Nol, havia sido imposto ao Camboja pelos EUA, que travavam uma guerra com 500 mil soldados, porém perdida, no vizinho Vietnam. Arrastado para uma guerra que não era sua, a placidez e neutralidade do pequeno reino budista foi violentada por todas as forças com algum interesse geo-político na região. E como apontou o jornalista e escritor americano William Shawcross já em 1979, no demolidor estudo sobre o destino do povo cambojano (Sideshow: Kissinger, Nixon e a Destruição do Camboja), o mundo a tudo assistiu como um drama menor, sem relevância. Hoje o país é um remendo. Remendo físico do seu solo ainda infestado de minas terrestres. Remendo político com anistia e partilha do poder político entre adversários históricos e dissidentes do regime maldito. Remendo social de uma geração que sobreviveu ao horror e de outra que prefere não saber. Quanto às minas terrestres que povoam as florestas, estradas do interior e os campos de cultivo do país, elas ainda farão sangrar a população cambojana por longo tempo. Estima-se em 6 ou 7 milhões o número de explosivos plantados em seu solo durante os anos de chumbo, tornando o Camboja, proporcionalmente, o país com a maior população de amputados do mundo - 1 em cada 300 habitantes. Artefato militar de baixo custo, fácil manejo e eficácia garantida na contenção do avanço inimigo, a mina terrestre foi a arma mais utilizada pelas forças de Pol Pot. Comprada por menos de dez dólares a unidade, custa perto de U$ 1 mil para ser desativada. Trata-se de um trabalho tão arriscado quanto lento, iniciado mais de dez anos atrás sob os auspícios da ONU. Em apenas uma das áreas de 15 quilômetros quadrados, por exemplo, foram encontrados quase 40 mil artefatos. Segundo um dado de 2003, ocorrem perto de 300 acidentes com minas a cada mês no país. "No momento, estamos atendendo a 8219 amputados de todas as idades", diz Chin Da, chefe do Departamento de Fisioterapia do Hospital do Cambodia Trust, em Phnom Penh. Chin trocou de profissão em 1995 para atender pacientes até então resignados a cadeiras de madeira acopladas a rodas de bicicleta. Hoje, por força da necessidade e apoiado por um cipoal de ONGs excepcionalmente, dedicado e eficaz, o Camboja tem produção própria de próteses e membros mecânicos. Henri Mouhot, o grande explorador francês que desbravou a Indochina no século XIX e morreu nas suas selvas, sustentava que "ao longo dos tempos os cambojanos parecem ter aprendido apenas a destruir, jamais a reconstruir". De fato, na história khmer, a imagem de um povo singelo e dócil convive com capítulos de despotismo, crueldade e destruição. Pela lógica do Khmer Rouge, cujo núcleo ideológico formou-se em Paris, a história da humanidade é uma só. Antes de chegar ao poder, o camarada Deuch manteve longos diálogos filosóficos com o etnógrafo francês François Bizot, seu prisioneiro na selva durante três meses. Um trecho definitivo: "Vocês mesmos não fizeram uma revolução que executou centenas e centenas de pessoas? Desde quando a memória dessas vítimas impediu a França de glorificar os homens que fundaram uma nova nação naquele dia? O mesmo ocorre com os monumentos de Angkor, cuja arquitetura e grandiosidade o mundo inteiro admira... Mas quem se lembra do preço pago para conquistar aquelas glórias? A extensão do sacrifício importa pouco - o que conta é a dimensão do objetivo que você se propôs".
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