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10:55 p.m. - 2003-08-19 CINEMA - "OS IDIOTAS" Dogma oferece mais uma obra forte BERNARDO CARVALHO Colunista da Folha Nada no início de "Os Idiotas" permite ao espectador entender que está assistindo a uma comédia de humor negro. Uma mulher almoça sozinha num restaurante. Como se não bastasse a sua expressão de desamparo, ela ainda diz ao garçom que não tem dinheiro para pagar o prato que ele lhe sugere, e escolhe outro mais barato. É uma pobre infeliz. Numa mesa ao fundo, dois adultos retardados almoçam sob os cuidados de uma mulher que faz as vezes de enfermeira. Ela tenta dar de comer a um deles, que joga a comida longe e sai grunhindo pelo restaurante. Vai de mesa em mesa, espalhando o constrangimento entre as famílias, até chegar à mesa da mulher solitária. Ela lhe sorri e estende a mão. E daí em diante ele não quer mais largá-la. É de cortar o coração. Tudo indica que você está diante de um filme desolador -que só não parece mais um melodrama de Hollywood porque a câmera sacode na mão do cinegrafista e a imagem de pura e limpa não tem nada. Mesmo assim, não há como não se enternecer e ficar condoído com o encontro casual dos dois rejeitados, e a solidariedade e o reconhecimento imediato (amor?) entre a mulher solitária e o retardado. É o que você pensa (e a mulher também) até descobrir que tudo é uma farsa, que de retardados os dois homens da outra mesa não têm nada e que fazem parte de um grupo de jovens cujo projeto (político?) de vida se resume a intervenções em lugares públicos fingindo-se de deficientes. E o mais perturbador de tudo isso é que a idéia máxima que se costuma fazer da inocência (os retardados) é combinada aqui com o cinismo de uma impostura perversa. "Os Idiotas" já seria muito engraçado se fosse só uma provocação politicamente incorreta contra o domínio da hipocrisia do cinema americano -um deboche não só contra a imagem decorosa e adequada aos falsos bons sentimentos, mas contra a exploração da debilidade alheia e idealizada (Rain Man, Forrest Gump etc.) em nome da debilização sentimental das platéias. Mas o filme de Lars von Trier é muito mais. A mulher solitária, boazinha e triste se vê de repente no meio de um bando de desvairados (mas não retardados) guiados pela determinação implacável de zombar da falsa moral de uma sociedade hipócrita e com isso subverter as regras de comportamento em nome de relações mais verdadeiras. Aos poucos, a mulher vai ficando na casa ocupada pelo grupo e se identificando com eles, primeiro como observadora passiva, até fazer, ela também, a sua primeira imitação pública de uma deficiente mental. E é quando o espectador começa a suspeitar que tudo, sob a aparência de projeto libertário, pode não passar de um processo catártico de regressão, e que aquelas pessoas tão combativas podem ser bem mais frágeis do que parecem e o filme bem mais triste e terrível do que se imaginava. "Os Idiotas" é o segundo filme realizado sob as normas do manifesto Dogma 95 (leia texto abaixo), que exige câmera na mão, iluminação natural, ausência de música, filmagem em locação e outras regras que tentam limitar os recursos técnicos ao mínimo. O manifesto foi concebido pelos dinamarqueses Lars von Trier ("Ondas do Destino") e Thomas Vinterberg (diretor do extraordinário "Festa em Família", primeiro longa a seguir o Dogma quase ao pé da letra), como reação a um cinema convencional nos moldes americanos. Embora não tenha nada de novo ou original, o despojamento formal exigido pelo cinto de castidade (como o chamam os próprios cineastas) do manifesto dinamarquês parece ter propiciado a realização de obras cuja força e singularidade são inquestionáveis. Assim como "Festa em Família", "Os Idiotas" é um dos filmes mais provocadores e originais dos últimos anos, menos pelas limitações formais do que pelo conjunto da representação, a começar pelo argumento. E é difícil não se render ao fato (que o manifesto tenta em vão repudiar) de que se está diante de dois grandes autores de cinema. Avaliação: 4 estrelas em 4 "OS IDIOTAS" - CRÍTICA "Os Idiotas" é puro e utilíssimo "banalismo ALCINO LEITE NETO editor do Mais! Não há nada de rigorosamente original no manifesto Dogma dos diretores dinamarqueses liderados por Lars Von Trier. Ora um, ora outro, todos estes mandamentos rebeldes já foram aplicados pelas vanguardas do início do século, pelo neo-realismo italiano, pela nouvelle vague francesa, pelo cinema novo brasileiro, pelo filme underground. A única novidade do Dogma é seu anacronismo e sua ironia. Pois já não existem manifestos estéticos. E os que vierem à luz serão necessariamente ridículos. A arte hoje sobrevive apenas graças ao "dogma da arte", o mesmo que oculta a sua insignificância nesta época em que tudo é, ou deseja ser, artístico. Há artistas demais no mundo. Poetas, videomakers, costureiros, chefes de cozinha, fotógrafos, pintores, cineastas -e está pronto o purgatório: todos se equivalem no sistema transnacional de trocas desta mínima expressão individual espetacularizada. E lá vem o crítico, o metafísico, dizer: "Sim, há muitos artistas, mas arte mesmo existe pouca". Contudo há também arte demais no mundo -pois a crítica é perspicaz o bastante para não sacrificar o animal histórico que a alimenta... com as sobras de sua agonia. Acorrentadas uma diante da outra, arte e crítica idealizam sua autonomia narcisisticamente. Por mais que se leia o Dogma, ainda assim será difícil imaginar até onde Lars von Trier chegou com "Os Idiotas". Isto, porque falta no manifesto o 11º mandamento -sua conclusão, seu subentendido-, levado a cabo neste filme assustador: não cederás à tentação artística. Parece fácil aderir a esta negação numa arte bastarda (o cinema), mas basta pensar na estetização do massacre da praia de Omaha por Spielberg para supor o contrário. Salvo posterior arrependimento de Von Trier, "Os Idiotas" indica o caminho de seus filmes rumo a um utilíssimo "banalismo" -o mesmo que faria vir por terra toda a ansiedade de elevação que se possa atribuir ao cinema e, se quiserem, à arte em geral. ² Arte x pornografia Filme da completa dessublimação, da revolta brutalista e imbecil, "Os Idiotas" nem sequer teme este demônio (este limite) atual da arte: a pornografia. E lá vamos nós, espectadores, encarar no filme um bacanal gelado, em que penetrações cruas explicitam o recalque e desmontam o vai-e-vem da falsa consciência. Quem são "Os Idiotas"? Um pouco os protagonistas, que se fingem de débeis mentais para rir de cidadãos assentados em seu conforto existencial. Um pouco estes mesmos cidadãos, que não se dão conta de sua vida insignificante. Outro tanto os espectadores, que serão obrigados a encarar uma cena de amor feita de grunhidos e gestos desgovernados. "Os Idiotas" não diz respeito ao futuro do cinema. É a inteira presentificação do niilismo contemporâneo, sem nostalgia nem meias-imagens. É um apelo irritantemente sincero de que talvez seja preciso livrar-se da arte para poder voltar a viver com ela. E haja coragem para manifestar um ressentimento tão vibrante. Palma de Ouro se afasta das mãos de Lars Von Trier do enviado a Cannes Já por duas vezes o diretor dinamarquês Lars Von Trier viu a Palma de Ouro escapar de suas mãos. Em 1991, "Europa" levou o Prêmio Especial do Júri. Há dois anos, "Ondas do Destino" teve de se contentar com o Grande Prêmio. "Idioterne" (Os Idiotas) não merece melhor sorte. Trier era esperado na noite de ontem para a exibição pública de "Idioterne" na competição. Faltou à entrevista coletiva da equipe do filme, logo após a projeção de imprensa, durante a manhã. Fez bem em se poupar. "Idioterne" é o segundo concorrente de Cannes 98 realizado sob a inspiração do manifesto Dogma 95. A defesa de um cinema mais espontâneo e improvisado, com produção leve, inspirou também "Festen" (Festa de Família), de Thomas Vinterberg, 29. O discípulo superou o mestre. "Festen" é um poderoso drama sobre o esfacelamento de uma família da alta burguesia dinamarquesa. A celebração dos 60 anos do patriarca serve de palco para a revelação de seu passado de estuprador de dois dos quatro filhos ainda quando crianças. O roteiro tem problemas, mas, no fim das contas, "Festen" bate longe o desarticulado e infantil filme de Lars Von Trier. Também "Idioterne" concentra-se em torno de um grupo restrito de personagens. São trintões que passam o tempo "combatendo a burguesia", fingindo sofrer de deficiência mental em lugares públicos. Vão a um restaurante e não pagam, aproveitam um clube para um deles ser banhado pela namorada nos chuveiros para mulheres, fazem um marmanjo tatuado segurar o pênis de um deles para urinar num bar. É esse o nível do humor e da contestação de Trier. Para adicionar um tempero dramático, a mais nova sócia da gangue revela, perto do final, ter se afastado da família devido à morte do filho. É um golpe baixo e inócuo. A superficialidade de "Idioterne" apenas se ressalta com essa tacada. Não fosse "Festen", o Dogma 95 pareceria mera molecagem publicitária. Trier anuncia ainda dois novos filmes de colaboradores seguindo seu decálogo. Serão dirigidos por Soren Kragh-Jacobsen e Christian Levring. Ele mesmo já partiu para outra. Prepara-se para rodar uma "comédia musical" intitulada provisoriamente "Dancer in the Dark" (Bailarino no Escuro). A revisita aos gêneros clássicos, como fizera anteriormente com o thriller ("Elemento do Crime") e o melodrama ("Ondas do Destino") originou os pontos mais altos de sua filmografia. Vai partir do mais baixo. (AL) Voto de castidade OTAVIO FRIAS FILHO Dogma é o nome que quatro cineastas dinamarqueses deram ao manifesto que divulgaram em 95, contendo uma série de restrições técnicas a que os subscritores se comprometiam a obedecer. Os filmes do Dogma não admitem maquiagem, uso de estúdio ou de efeitos especiais, nem adereços e roupas que não pertençam aos atores. Luz e música devem ser naturais, a câmera deve ficar na mão. Filmes de gênero, bem como tiroteios e assassinatos, ficam proibidos. O diretor não assina o filme. "Os Idiotas" (Lars von Trier) e "Mifune" (Soren Jacobsen) estão em cartaz em São Paulo, onde "Festa de Família" (Thomas Vinterberg) passou recentemente. É provável que essa seja a primeira vez em que um grupo de artistas se reúne para pedir restrições em vez de liberdade. A derrubada de todas as regras, que se estabeleceu desde o modernismo, derrubou também os critérios que permitiam discernir o que é bom do que não é, o que só favorece a arte mais comercial. Regras, quaisquer que fossem, eram importantes não apenas para ser descumpridas, abrindo novas possibilidades, mas também porque, ao oferecer resistência e dificuldade, melhoravam o impulso da criação artística. Hoje, as bienais estão invariavelmente cheias de contestatários que se dedicam a arrombar portas já escancaradas. O Dogma tem sido interpretado não apenas como reação ao esteticismo decadente do cinema europeu, mas à maquina de repetição do cinema americano. Suas regras parecem o oposto do código não escrito de Hollywood. Ele se aproxima, assim, pelo despojamento e pela ênfase no roteiro, do novo cinema iraniano. A diferença é que o cinema iraniano é fruto de uma cultura pré-industrial e teocrática, enquanto o dinamarquês é reflexo de uma sociedade pós-industrial onde os problemas coletivos foram superados. O assunto, nos filmes do Dogma, é um núcleo humano intratável que nenhuma evolução social consegue domesticar. Embora feitos por três diretores distintos, os filmes exibidos aqui são mais semelhantes do que a maioria dos filmes de um mesmo autor. Sempre se trata de estrangulamentos familiares, de fantasmas de incesto e deficiência mental que voltam para atormentar pessoas aparentemente felizes, estáveis e integradas à vida pós-moderna. Família, incesto e idiotia são temas típicos da crise em que culmina a transição de culturas rurais para urbanas, como bem ilustram Ibsen na Escandinávia e Nelson Rodrigues por aqui. Há algo de regressivo -e de intrigante- na sua reaparição tão obsessiva no cinema de uma das sociedades mais avançadas do mundo. Como forma e conteúdo se obrigam mutuamente, talvez essa regressão esteja em paralelo com a regressão técnica proposta nos dez mandamentos do Dogma, que os autores chamam de seu voto de castidade. Mas, por falar nisso, se você só tiver tempo para ver um filme, fuja do Dogma e prefira "Romance", que estréia amanhã. "Os Idiotas", Dinamarca, 1998, de Lars von Trier, com Bodil Jorgensen, Jens Albinus e Anne Louise Hassing. Espaço Unibanco 3, 15h30, 17h30, 19h40 e 21h50 "Mifune", Dinamarca, 1999, de Soren Kragh-Jacobsen, com Anders W. Berthelsen e Iben Hjejle. Espaço Unibanco 4, 14h10, 16h, 18h, 20h e 22h Otavio Frias Filho escreve às quintas-feiras nesta coluna.
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