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12:08 a.m. - 2003-04-07
Saúde do Papa melhora
Vitalidade do papa impressiona
'vaticanólogos'
Segundo um cardeal, nos últimos meses,
disposição geral de João Paulo II melhorou
GILLES LAPOUGE
Correspondente
PARIS - O papa João Paulo II não cessa de nos surpreender. Esse ancião cuja
palavra é reverenciada com temor pelo mundo há anos e que tantas vezes nós vimos
curvado ao peso do próprio sofrimento, rígido, tremendo e balbuciando, vive uma
primavera inesperada.
Todos os que têm acesso ao papa estão impressionados. O cardeal Silvestrini,
que o viu recentemente, é bem claro: "Ele fala melhor, improvisa com mais
facilidade. Sua disposição geral melhorou." Ultimamente, o papa quase não
deixava mais sua poltrona, mas agora se movimenta, já caminha um pouco e com um
passo mais firme.
Como explicar essa reanimação? O jornal romano La Repubblica acha que os
médicos modificaram a dosagem de seus medicamentos. Ele teria também decidido
tratar da artrose no joelho, que lhe causava dores muito fortes. E.
segundo algumas testemunhas, esses sofrimentos no joelho teriam diminuído
bastante.
Até mesmo os efeitos do mal de Parkinson se teriam atenuado há algumas
semanas. E João Paulo II, consciente de que seus discursos estavam se tornando
inaudíveis e fonte de chacotas por parte de gaiatos e de caricaturistas imbecis
do mundo inteiro, teria finalmente aceitado fazer exercícios de ortofonia.
Os "vaticanólogos" tentam desvendar o mistério. Há alguns meses, correu o
boato de que o famoso professor francês Luc Montagnier (um dos descobridores do
vírus da aids) teria prescrito ao papa o consumo de "extratos fermentados de
papaia". Mas os especialistas não acreditam em tais "papaias". Aliás, nem o
papa. Ele teria ingerido apenas alguns bocados e distraidamente.
E então? Algum remédio milagroso ainda não revelado? Ou então um verdadeiro
milagre? Os "papólogos" se inclinam mais a acreditar numa fase de despertar,
depois das fases de sonolência, um despertar que, na opinião dos mais
politizados, poderia ter algo a ver com a guerra no Iraque.
É verdade que João Paulo II se lançou com força e constância à pregação em
prol da paz. Enquanto, no caso da Iugoslávia, ele aceitou inteiramente "a
ingerência humanitária", a guerra do Iraque lhe pareceu imediatamente
detestável. Ele mobilizou toda a diplomacia do Vaticano. Despachou para toda a
parte, mas sobretudo para Bagdá e Washington, seus "missi dominici" (enviados do
Senhor) - os cardeais Laghi e Etchegaray. Recebeu em audiência o
vice-primeiro-ministro iraquiano Tarek Aziz (que é cristão do rito caldeu).
Falou vigorosamente em favor da paz.
O mais notável é que, sem desconhecer a dimensão espiritual, seus apelos em
favor da paz têm o cuidado de evitar qualquer alusão às religiões em causa.
Uma bela lição intelectual e moral: enquanto George W. Bush envia suas
legiões em nome do Deus dos cristãos e para expurgar o universo deste "mal" que
é o islamismo, enquanto Saddam Hussein tenta organizar a "guerra santa" entre os
dois "Deuses" únicos - Alá e o Deus dos cristãos -, o papa se põe num plano
inteiramente diferente, longe de tudo o que possa lembrar o maniqueísmo e as
Cruzadas.
Entrementes, ele reabre seu calendário de viagens. Planeja ir à Espanha, à
Bósnia, à Croácia, à Eslováquia e até à Mongólia. Essas viagens seriam para ele
uma última oportunidade para prolongar a ação que realizou, desde o fim da União
Soviética até a luta contra a guerra do Iraque: a visão histórica de seu
pontificado.
Resta naturalmente uma outra explicação plausível para essa "retomada" da
vitalidade e de seu espírito empreendedor. Talvez esse homem idoso e extenuado
esteja conhecendo neste momento um conforto temporário e talvez a via-crúcis, o
caminho da cruz, recomeçará depois de alguns meses de alívio.
Pelo menos ele terá lutado nobremente, terá lutado sem trégua, até o fim de
suas forças, seja quando seu corpo o aflige, seja quando lhe concede um pouco de
alívio.
(texto obtido em http://www.estado.estadao.com.br/editorias/2003/04/06/ger013.html)
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