|
1:53 a.m. - 2001-07-22 O anti-semitismo europeu é um corolário da cristandade. Desde os primóridos do cristianismo os líderes cristãos fizeram pregações contra os judeus: se a “raça eleita”, para quem Deus havia mandado Seu Filho, recusava a Sua revelação, então tinha alguma coisa errada. Ou o Messias era falso, ou os judeus eram desobedientes religiosos. Obviamente os cristãos optaram pela segunda hipótese. Se os judeus estavam certos, então os cristãos estavam errados. Este é o motivo pelo qual os cristãos começaram a combater e perseguir os judeus. Os judeus eram vistos na Idade Média também como “assassinos de Cristo”: foram responsabilizados não só os judeus da época de Jesus, mas os judeus de todas épocas pela morte dEle. Todos os judeus, ao tomar a atitude de rejeição, envolveram-se com o crime como conseqüência da negação, por parte de seus antepassados, da divindade de Jesus. Esta negação era vista como uma ofensa aberta, descarada e desdenhosa na face dos cristãos. (O influente pensador cristão São João Crisóstomo achava que a recusa dos judeus em reconhecer Cristo fosse uma espécie de loucura.) Os judeus eram vistos inimigos dos cristãos e uma influência maligna. Tudo isto fez com que os judeus - degradados, insignificantes em número e desinteressados em fazer proselitismo - não fossem vistos como uma ameaça material, mas como o símbolo material do agente que realmente desafiava a hegemonia cristã sobre os corpos e almas de seu povo: o Demônio. Foi inevitável que os judeus tivessem sido responsabilizados pela Peste Negra e muitas de suas comunidades completa e permanentemente exterminadas da Alemanha. Ataques a judeus eram tão comuns em toda a Europa que, em meados do século XVI, os cristãos haviam esvaziado quase toda a Europa da presença judaica. Apesar disto, aos judeus foi permitido viver, porque a Igreja, em reconhecimento à herança comum entre judaísmo e cristianismo, admitiu seu direito à vida e à prática de sua religião, com a ressalva de uma condenação a viverem em estado degradante, como punição pela rejeição a Jesus. Posteriormente, a Igreja deixou de desejar a morte dos judeus, por serem estes redimíveis através da conversão. Isto reafirmaria a supremacia do cristianismo. Tal era a lógica do anti-semitismo pré-moderno. No século XIX o anti-semitismo na Alemanha foi mudando gradualmente de forma: o que era anti-semitismo religioso no começo do Séc. XIX foi se transformando basicamente num racismo racial. À medida que a religião foi perdendo a importância, (ou melhor, a noção de germanismo foi se unindo à noção de cristianismo) o “animus” anti-judaico foi se transformando numa questão não mais religiosa, mas racial. Este “animus” cultural subjacente sobre “o judeu” era composto por três noções: o judeu era diferente do alemão, estava em oposição binária em relação ao alemão e não era benignamente diferente, mas malevolente e corrosivo. Fossem os judeus tomados como como uma religião, nação, grupo político ou raça, eram sempre um “Femdkörper”, um corpo estranho na Alemanha. A centralidade e o poder desta concepção eram tão grandes que os anti-semitas passaram a ver todos os fenômenos negativos da sociedade, desde a organização social até os movimentos políticos e os problemas econômicos, como de algum modo ligado aos judeus, quando não derivados deles. Uma identidade entre os judeus e as disfunções sociais começou a ser estabelecida. Desse modo, o entendimento simbólico sobre os judeus poderia ser resumido na noção de que o judeu era sinônimo de tudo que era negativo, que ele era assim intencionalmente. Isto não era apenas a visão de proeminentes polemistas anti-semitas, mas a visão dominante da sociedade alemã. A “judaicidade” era colocada em oposição às qualidades desejáveis, às qualidades “humanas”, e para um judeu se tornar louvável sua judaicidade deve ser renegada. A imagem do judeu era ligada completamente à noção de corrupção e depravação. Esta visão de que os judeus eram maus e alienígenas dentro da Alemanha era tão forte que, no início do século, os alemães “liberais”, os “melhores amigos” dos judeus eram aqueles que acreditavam que estes poderiam se “regenerar“. Entretanto, não havia a menor dúvida, entre estes “liberais“, que os judeus fossem maus e depravados: quando eles renunciassem à sua “judaicidade“ eles ficariam “bons“ e poderiam, aí sim, fazer parte do “Volk“ (povo) alemão. Se os “melhores amigos” dos alemães pensavam assim, o que dizer dos conservadores? Estes últimos, obviamente, não tinham nenhuma esperança de que os judeus “melhorassem” seu comportamento. Apenas os socialistas não compartilhavam destas idéias alucinadas a respeito dos judeus. (Sob qualquer ponto de vista, obviamente, estas alegações todas sobre a “maldade” intrínseca dos judeus e de seu “poder” são de um absurdo completo: em regiões da Alemanha aonde o anti-semitismo era mais acentuado, inclusive, como na Saxônia, a porcentagem de judeus em relação à população total não passava de 0,25%.) À medida que o século XIX foi passando, os liberais foram percebendo que não adiantava esperar que os judeus renegassem sua “judaicidade” e foram paulatinamente compartilhando do mesmo ideário anti-semita dos conservadores. Este ideário anti-semita passou a ser um senso comum em toda a Alemanha, quase tão enraizado como a idéia de que a Terra gira em torno do sol. O fato dos partidos exclusivamente anti-semitas perderem sua força nesta época deve-se muito mais ao fato de que os outros partidos assumiram este ideário para si. Os partidos anti-semitas não tinham mais nada de original para oferecer a seus eleitores. Já não se acreditava mais que os judeus pudessem se “regenerar”: vistos como uma “raça” malévola, já não havia mais esperança em sua “salvação”. A “maldade” judaica passou a ser explicada pela pseudobiologia da época: era um fator “biológico“ e “genético“. Deste modo, uma conversão ao cristianismo não levaria o judeu a deixar de ser um agente do mal infiltrado na sociedade.
Este anti-semitismo entranhado é a causa da existência do chamado “Problema Judeu”: como os judeus eram vistos como a fonte de todos os males da Alemanha, a própria existência deles era um problema. Enquanto boa parte dos alemães acreditavam na existência do “Problema Judeu” mas não acreditavam em sua solução (acreditavam, fatalisticamente, que a Alemanha estava desgraçada por causa deles e nada poderia ser feito) outros foram pensando em soluções para ele. Em um estudo feito sobre a produção de 51 proeminentes escritores anti-semitas e publicações surgidas entre 1861 e 1895 na Alemanha, vinte e oito propuseram soluções para o “problema judeu”. Destas, dezenove pediam o “extermínio físico dos judeus”. Deste modo, a “solução final para o problema judeu” implementada em 1942 (ver
http://fabricio.diaryland.com/wannsee.html ) já tinha sido proposta muito antes. (Este resumo é dedicado ao Ricardo Magalhães, que me perguntou a origem do anti-semitismo alemão - um abraço, Ricardo. Já estou preparando o outro texto que você me pediu!) [trilha sonora: Oito suítes para cravo (Henry Purcell), The Hyperion Schubert Edition vol. 23 (Franz Schubert), Glenn Gould - O cravo bem Temperado vol. II - prelúdios e fugas nos. 13 a 24 (Bach)]
|