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5:01 a.m. - 2001-08-04
"Putsch" da Cervejaria
No Tratado de Versalhes, após a Primeira Guerra Mundial, foi exigido pelas nações vencedoras, notadamente a França e a Inglaterra, pesadas reparações de guerra que sufocaram economicamente a Alemanha. Estas dificuldades econômicas se refleteriam nos índices da inflação alemã: o marco começou a desvalorizar em 1921, quando o marco caiu a 75 por dólar - em 1922 estava a quatrocentos.

O governo alemão, preocupado com a situação, pediu uma moratória dos pagamentos, mas não conseguiu. Quando os alemães começaram a parar de pagar suas dívidas de guerra o governo francês, em represália, invadiu a região do Ruhr, o coração industrial da Alemanha. O governo alemão começou uma resistência passiva contra esta invasão, ao mesmo tempo que a inflação se elevava a níveis estratosféricos: em janeiro de 1923 um dólar já valia 18000 marcos; em primeiro de agosto, um milhão. À medida que o governo e os industriais alemães iam percebendo que a alta da inflação era vantajosa para eles, pois podiam pagar suas dívidas com marcos que já não valiam mais nada, o povo passava fome, pois uma grande conta bancária era insuficiente para pagar um maço de cenouras. Este ambiente era o mais favorável possível para o recrudescimento dos movimentos nacionalistas anti-Tratado de Versalhes e anti-democráticos. Não eram afinal os democratas (da República de Weimar), diziam os nacionalistas, que se renderam ao inimigo e deixaram o povo nesta situação?

Para piorar a revolta dos nacionalistas, no outono de 1923 a o Chanceler (cargo equivalente a Primeiro-Ministro) alemão Gustav Stresemann ordenou o fim da resistência passiva no Ruhr e a volta do pagamento das reparações de guerra. Isto revoltou o governo bávaro, com sede em Munique, que declarou seu próprio Estado de Sítio e iniciou a desobedecer uma série de ordens do governo central, de Berlim. A revolta na Baviera era encabeçada por um triunvirato: o Comissário de Estado Gustav von Kahr, o Comandante do Reichswehr na Baviera General Otto von Lossow e o Chefe de polícia do Estado, Coronel Hans von Streisser. Mas logo o triunvirato começou a perder a coragem, pois não tinha apoio nem do governo alemão, encabeçado pelo Chanceler Stresemann e pelo Presidente Ebert, e nem, principalmente, do chefe do Estado Maior General vom Seeckt. O chefe do Partido Nazista, na época expressivo apenas na Baviera, Adolf Hitler, achou que era a hora de agir.

A idéia de Hitler (proposta inicialmente pelos colegas de partido Rosenberg e Scheubner-Richter) era forçar o triunvirato, pela força, a aderir a ele, Hitler, num golpe de Estado (já há muito tempo Hitler sabia que era praticamente impossível chegar ao poder sem o apoio de grandes instituições como Exército, Igreja e a Administração Pública - e ele levou esta idéia até o final, pois em 1933 chegou ao cargo de Chanceler pela via democrática).

Depois de uma tentativa fracassada em 4 de novembro de 1923, a grande oportunidade de agir chegou em 8 de novembro: uma notícia breve informou Hitler que o triunvirato estaria presente para fazer um discurso numa cervejaria em Munique, a pedido de algumas organizações comerciais.

Neste dia, finalmente, às oito e quarenta e cinco da noite, Kahr já discursava há uma hora quando Hitler e tropas da S.A. irromperam no salão - Hitler subiu na mesa, atirou para o alto e proclamou o início de uma revolução. Ameaçando o triunvirato (Kahr, Lossow e Streisser) com sua pistola, Hitler levou-os para o quarto vizinho. Lá ele se proclamou comandante da Bavária, e deu cargos aos três participantes do triunvirato no novo governo. Disse ainda que havia seiscentos homens da S.A. o esperando lá fora - o que era mentira. Os três porém, permaneceram em silêncio. Hitler, exasperado, disse que em caso de fracasso na revolta ele mataria os três e depois atiraria em si - chegou a apontar a arma contra a própria cabeça. Como nada disto estava adiantando nada, Hitler voltou ao salão da cervejaria e discursou, dizendo que ele era o novo Presidente da Alemanha e que tinha destituído os “criminosos” Ebert e Stresemann. O general e herói da Primeira Guerra Mundial Ludendorff seria o novo Comandante do Exército. Esta era uma das primeiras, mas certamente não a última, grande mentira proferida por Hitler. Neste instante o General Ludendorff, que era realmente simpatizante de Hitler, entra no recinto - um golpe de sorte que faz os presentes urrarem em apoio a ambos e à revolução. Hitler então declarou suas últimas palavras do discurso (“quero agora, cumprir o juramento que fiz a mim mesmo há cinco anos passados, quando me encontrava cego e inválido no hospital militar: não ter descanso nem paz até que os criminosos de novembro (os que assinaram a rendição em 1918) tenham sido derrubados, até que sobre as ruínas da infortunada Alemanha de hoje haja ressurgido, mais uma vez, uma poderosa e magnificente, livre e gloriosa Alemanha”). Chegaram notícias então de choques entre as S.A. e tropas do Exército. Hitler resolveu cuidar pessoalmente do assunto, deixando o general Ludendorff para cuidar do triunvirato - isto se revelou um erro, pois Ludendorff deixou os três, que depois da aclamação popular fingiram estar ao lado de Hitler, fugirem.

Hitler, animado com o sucesso incial, logo percebeu, quando voltou para a cervejaria, que a coisa não estava tão fácil. Além da fuga do triunvirato, quase nada tinha sido feito fora dali, ao contrário do previsto, e praticamente nenhuma posição tinha sido conquistada pelas S.A (apenas Röhm havia conquistado uma posição, o Quartel General do Exército - ver mais sobre Röhm em http://fabricio.diaryland.com/longospunh.html). A situação piorou ainda mais quando os membros do triunvirato, já soltos, lançaram uma proclamação contra Hitler exigindo sua prisão.

Nesta situação angustiante, e, como nenhum dos lados queria derramamento de sangue, Ludendorff teve uma idéia, posta em prática no dia seguinte (9 de novembro): ele, Hitler e seus seguidores iriam da cervejaria até o Quartel General do Exército pegar Röhm e seus aliados - Ludendorff acreditava que jamais os soldados contrários aos nazistas, que naquele momento cercavam a cervajaria, ousariam atirar nele, um herói de guerra. Deste modo, por volta das onze horas da manhã de 9 de novembro de 1923, Hitler, Ludendorff e cerca de três mil homens das tropas de assalto das S.A. foram até o centro de Munique, em direção à cervejaria. No meio do caminho, se juntou a eles uma multidão capitaneada pelo posteriormente famoso anti-semita radical Julius Streicher.

Pouco depois do meio-dia os nazistas chegaram no Quartel General do Exército, nesta hora sitiado por tropas leais ao governo. Hitler exigiu que as mesmas se rendessem, pois estavam com o general Ludendorff a seu lado. Mas as tropas, possivelmente por serem da polícia e não do exército - portanto, o nome de Ludendorff não devia ser “mágico” a seus ouvidos - não se renderam. Formou-se portanto um impasse, pois nem as tropas nazistas nem as leais ao governo queriam violência.

Mas lá pelas tantas ouviu-se um tiro - possivelmente dado por Streicher - e começou um tiroteio violento que durou cerca de um minuto, mas onde dezesseis nazistas e três policiais morreram. Hitler foi um dos primeiros a sair correndo e fugir, ao contrário de Ludendorff, que permaneceu de pé durante todo o tempo. (O detalhe da fuga de Hitler era sempre “esquecido” no tempo em que este esteve no poder: todos os anos a partir de sua posse Hitler voltava, no dia 8 de novembro, com a velha guarda do partido nazista à cervejaria em Munique para comemorar a sua própria temeridade e “coragem”.)

Depois do "putsch" da Cervejaria (o nome com que esta tentativa de golpe de estado entrou para a História) o partido nazista foi proibido e Hitler foi preso. Mas nada disto serviu para desanimá-lo, aliás muito pelo contrário: no julgamento Hitler defendeu suas posições de maneira impressionante, o que deu um grande impulso publicitário à causa nazista no resto da Alemanha (o partido nazista, como dito anteriormente, na época só era conhecido na Bavária). Além do mais, na prisão (ele foi liberto depois de apenas nove meses, o que mostra como o poder judiciário na Alemanha era pró-direitista - a pena para o crime de tentativa de golpe de estado que a lei prescrevia na época era prisão perpétua) Hitler teve tempo de escrever “Mein Kampf” (minha luta), o guia do nacional-socialismo.

[ Trilha Sonora: Hyperion Schubert Edition n.23, com Christoph Prégardien, tenor, e Graham Johnson, piano (Franz Schubert); King of the Delta Blues Singers (Robert Johnson); Orgelbüchlein (Johann Sebastian Bach)]

 

 

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